Dr. Marcon Censoni


Por Dr. Marcon Censoni*

A oncologia vive uma transformação consistente, mas menos espetacular do que muitas vezes se imagina. O que mudou não foi apenas a tecnologia disponível. Foi a forma de decidir.

Hoje, o tratamento do câncer não depende apenas do órgão de origem. Depende da biologia do tumor.

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Testes moleculares, biomarcadores e análise genética passaram a orientar condutas.

Estudos recentes consolidam essa mudança.

No estudo DYNAMIC, pacientes com câncer de cólon tiveram indicação de quimioterapia baseada em DNA tumoral circulante. O resultado foi direto, mesma eficácia com menor exposição ao tratamento.

Em câncer de pulmão, terapias-alvo para mutações como EGFR e ALK mudaram completamente o prognóstico de subgrupos específicos. Em melanoma, a imunoterapia transformou um cenário historicamente desfavorável em uma doença com possibilidade de controle prolongado.

Mas a tecnologia não se limita ao laboratório.

Ela também está na forma como operamos.

A cirurgia robótica representa um avanço relevante. Em centros como Mayo Clinic, MD Anderson e Cleveland Clinic, ela já faz parte da rotina. No Brasil, hospitais como Einstein, Sírio-Libanês e A.C. Camargo incorporaram essa tecnologia com resultados consistentes.

Na prática, isso se traduz em:
• Maior precisão cirúrgica
• Menor trauma tecidual
• Redução de sangramento
• Recuperação mais rápida

Na cirurgia colorretal e urológica, esses benefícios são particularmente evidentes.

Mas é fundamental manter equilíbrio na análise.

O Brasil convive com dois cenários distintos.

De um lado:
• Medicina de precisão
• Cirurgia robótica
• Protocolos multidisciplinares
• Decisão baseada em dados

De outro:
• Dificuldade de acesso a exames básicos
• Atraso em diagnóstico
• Falta de padronização de laudos

Esse descompasso define grande parte dos desfechos.

Outro avanço relevante recente vem do exercício físico.

Estudos apresentados na ASCO e publicados no New England Journal of Medicine, como o estudo CHALLENGE, mostraram que programas estruturados de exercício após tratamento de câncer de cólon melhoram sobrevida livre de doença.

Em câncer de mama, programas durante quimioterapia melhoram adesão ao tratamento e reduzem interrupções.

Aqui, novamente, o mesmo fator tem papéis diferentes:
• Exercício como prevenção
• Exercício como parte do tratamento

O mesmo vale para obesidade.

Ela aumenta risco de vários tumores e também impacta negativamente resposta ao tratamento.

Como sintetizo:

“A tecnologia mais relevante hoje não é a mais sofisticada. É a que melhora decisão e execução. Isso inclui desde um teste molecular até uma cirurgia bem indicada ou um programa estruturado de exercício.”

A evolução real da oncologia não está apenas em inovar.

Está em integrar.

*Dr. Marcon Censoni A. Lima é médico e cirurgião aparelho digestivo/robótica, membro corpo clínico do Hospital Albert Einstein e Hospital Sírio Libanês, especialista em Transformação Digital na Saúde pela Harvard Medical School e Head Depto. Medicina Hospitalar AC Camargo Cancer Center.