Por Moisés Rabinovici
“Estamos com a mão no gatilho”, comunicaram os Guardiões Revolucionários da República Islâmica.
“Estamos com o dedo no gatilho”, disse o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.
“Estamos preparados para recomeçar a qualquer momento”, afirmou o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth.
O primeiro a apertar o gatilho durante o acordo de cessar-fogo bilateral entre Irã e EUA foi Netanyahu. Em dez minutos, 50 caças despejaram 160 bombas sobre 100 alvos em Beirute, no Vale de Bekaa e no sul do Líbano. Pelo menos 89 libaneses morreram, segundo o Ministério da Saúde — ou 254, segundo a Defesa Civil —, e 800 ficaram feridos.
Israel e EUA alegam que o cessar-fogo não incluía o Líbano. Irã e Paquistão, mediador das negociações, sustentam o contrário.
O cessar-fogo já nasce frágil: além do ataque israelense no Líbano, Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Kuwait denunciaram ter sido alvo de ataques.
O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirma que três dos dez itens do acordo foram violados:
- o ataque ao Líbano;
- a incursão de um drone no espaço aéreo iraniano;
- a negação, por Donald Trump, do direito ao enriquecimento de urânio.
Ghalibaf liderará a delegação que irá a Islamabad negociar com o vice-presidente J.D. Vance, o enviado da Casa Branca Steve Witkoff e Jared Kushner, genro de Trump.

As negociações partem de uma certeza: não há garantia de que a guerra de 40 dias tenha terminado. Ambos os lados se declaram vitoriosos. “Uma nova era para o Irã começou depois que o presidente Trump fracassou em destruir o governo da República Islâmica”, dizem autoridades iranianas.
O general Dan Caine, chefe do Estado-Maior americano, fez o balanço dos 38 dias de guerra: os EUA destruíram 80% do sistema de defesa aérea iraniano, 800 depósitos com milhares de drones, 450 arsenais de mísseis balísticos e mais de 150 embarcações militares. A base industrial iraniana, afirmou, levará anos para ser reconstruída.
Críticos de Israel divulgaram outro balanço nas redes sociais. A guerra de seis semanas “nos custou 26 civis mortos, 12 soldados, mais de sete mil feridos, destruição generalizada, um prejuízo de 17 bilhões de dólares para a economia — fora os gastos militares —, a paralisação do sistema educacional, empresas falindo e um país inteiro vivendo — ou morrendo — em abrigos”.
A oposição a Netanyahu afirma que os objetivos da guerra não foram alcançados. O Estreito de Ormuz, que estava aberto antes do conflito, agora precisa ser reaberto. A ditadura dos aiatolás sobreviveu. E o urânio enriquecido permanece enterrado na usina de Natanz, em Isfahan.
O balanço humano cresce a cada dia: 1.665 mortos no Irã, incluindo 244 crianças; mais de 1.500 no Líbano; 32 nos países do Golfo; 20 em Israel; e 13 entre militares americanos.
Restam dúvidas após as primeiras horas confusas do cessar-fogo:
- Os 450 quilos de urânio enriquecido — suficientes para 11 bombas — permanecerão no Irã ou serão exportados, caso sejam desenterrados?
- O cessar-fogo vale para o Líbano? Israel permanecerá nas áreas ocupadas? Os libaneses poderão voltar às suas casas?
- Houve, de fato, mudança de regime no Irã, como afirma Trump?
- O Estreito de Ormuz será reaberto durante as duas semanas de trégua?
- Trump retomará a guerra se suas exigências não forem atendidas?


