O governo federal estuda liberar R$ 7 bilhões do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para reduzir o endividamento das famílias. A medida, segundo o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, poderia beneficiar cerca de 10 milhões de trabalhadores.
Em entrevista à GloboNews, no Palácio do Planalto, Marinho explicou: “O valor corresponde a recursos retidos de trabalhadores que aderiram ao saque-aniversário e tiveram parte do saldo bloqueado como garantia em operações de crédito”.
A iniciativa atende a uma demanda direta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tem reiterado preocupação com o nível de endividamento das famílias brasileiras. O governo deve lançar nos próximos dias um programa específico para renegociação de débitos, no qual o FGTS terá papel central.
Segundo o Ministério do Trabalho, medidas provisórias assinadas por Lula em 2025 já haviam liberado cerca de R$ 20 bilhões do fundo para trabalhadores demitidos. No entanto, parte dos valores não foi disponibilizada pela Caixa Econômica Federal, o que gerou um saldo residual estimado em R$ 7 bilhões — montante que agora pode ser destravado.
Marinho também defendeu mudanças na regulamentação do uso do FGTS como garantia em empréstimos consignados: “É preciso ampliar a proteção dos trabalhadores e reduzir o risco de endividamento excessivo”, afirmou.
Apostas ocultas e impacto econômico
Pesquisas qualitativas conduzidas pela Quaest revelam um comportamento silencioso que ajuda a explicar tensões financeiras em famílias brasileiras: homens relatam que fazem apostas on-line em segredo, muitas vezes sem o conhecimento das parceiras. Embora afirmem estar ganhando dinheiro, na prática acumulam perdas.
“O dinheiro da família está sendo consumido quase sem perceber por esse mecanismo individual do jogo”, afirma Felipe Nunes, diretor da Quaest.
O estudo mostra que, apesar de indicadores positivos como aumento da renda e queda do desemprego, parte da população sente dificuldade financeira. Endividamento, custo de vida elevado e o impacto silencioso das apostas aparecem como fatores centrais.
Dados quantitativos reforçam o quadro: 29% dos entrevistados disseram ter começado a apostar para pagar contas, e 27% buscavam renda extra. Entre os inadimplentes, 46% recorrem às plataformas — inclusive aqueles já negativados.
As diferenças de gênero também se destacam. Mulheres falam mais sobre saúde, bem-estar e políticas públicas. Homens demonstram preocupação com status social e segurança, o que ajuda a contextualizar o avanço das apostas como tentativa de melhorar a percepção de sucesso.
Para Nunes, compreender esses relatos é essencial: “Esse terço do eleitorado — os independentes — tende a definir o resultado da eleição de 2026. Entender o que move esse eleitor é fundamental para entender o resultado lá na frente”, conclui.
Governo e saúde pública contra as bets
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, participou do programa Alô Alô Brasil, apresentado por José Luiz Datena na Rádio Nacional, e comentou sobre o vício em apostas on-line. Padilha defendeu ações mais restritivas em relação à publicidade das bets, comparando-as ao cigarro.
“Para mim hoje, o problema das bets é um problema de vício na mesma dimensão que foi o do cigarro. O cigarro tinha propaganda de acesso à criança, propaganda esportiva. A Fórmula 1 era praticamente toda pautada pela indústria do cigarro”, disse o ministro.
Ele relembrou o sucesso da restrição da publicidade de cigarro: “Foi uma luta que tivemos e isso teve um impacto positivo ao reduzir o uso do cigarro”.
Padilha destacou iniciativas já em curso, como a suspensão de qualquer publicidade de jogos de apostas on-line voltada a crianças e adolescentes. Também citou o programa de teleatendimento do SUS, que apoia pessoas com compulsão por jogos de aposta, e o sistema de autoexclusão, que permite ao cidadão bloquear simultaneamente todas as contas em sites de apostas autorizados pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda.
Lula e as apostas on-line
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também se posicionou sobre o tema: “Por mim, encerraria com as apostas, mas essa decisão cabe ao Congresso Nacional”.
Lula destacou os impactos familiares: “Hoje o cassino está dentro da sua casa, com o seu filho de 10 anos, com o seu neto de 11 anos, com a sua neta e com a sua filha, utilizando o celular do pai, que é contra o jogo de azar, gastando dinheiro desnecessário, enriquecendo as bets”.
O presidente citou o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), que entrou em vigor no mês passado, como uma das medidas adotadas pelo governo para proteger a integridade da população na internet. O ECA Digital exige verificação etária para abertura de contas, remoção imediata de conteúdos ilegais e proteção de dados pessoais para fins comerciais e publicitários.





