O governo federal tenta equilibrar o otimismo estatístico com um diagnóstico sombrio sobre a saúde mental e a segurança cibernética no ambiente educacional. O 4º Boletim Técnico Escola que Protege, divulgado nesta semana pelo Ministério da Educação (MEC), revela uma vitória tática contra o terrorismo escolar: após a criação do Sistema Nacional de
Acompanhamento e Combate à Violência nas Escolas (Snave), os ataques de violência extrema caíram de 15 em 2023 para 3 em 2025.
Entre 2001 e 2025, foram identificados 47 ataques de violência extrema em escolas, com 177 vítimas — 56 mortes e 121 feridos. Contudo, os dados mascaram um “ecossistema de ódio” que se sofisticou e uma estrutura de prevenção que permanece no papel.
Dados do Sinan/SUS: Em 2024, foram registradas 14.747 notificações de violência interpessoal em escolas, atingindo mais de 15 mil vítimas.
O “câncer digital” e a masculinidade radicalizada
O dado mais alarmante da nova edição não está no chão da escola, mas nas telas. Entre 2021 e 2025, o crescimento de menções com ameaças diretas a instituições de ensino foi de impressionantes 360%.
Mais perturbador é o fenômeno da “idolatria do horror”: o número de comentários de exaltação a massacres saltou de 0,2% para 21% no mesmo período.
O boletim agora incorpora conceitos como “subculturas de ódio on-line” e “circuitos de masculinidade radicalizada”, evidenciando que o perfil dos agressores — majoritariamente jovens do sexo masculino influenciados por fóruns extremistas — continua sendo alimentado por um ecossistema digital que o Estado ainda não consegue conter.
O vácuo na sala de aula
Apesar da retórica de proteção, o documento expõe o descumprimento sistemático da legislação. Desde 2019, uma lei federal exige a presença de psicólogos e assistentes sociais nas unidades de ensino, mas a realidade é de carência absoluta:
Vácuo de apoio: Apenas 14,2% das escolas possuem psicólogos lotados diretamente.
Assistência social: O suporte de assistentes sociais chega a apenas 8% das instituições.
Cegueira administrativa: Em 66,7% das escolas não há registro estruturado sobre quem comete ou quem sofre violência.
Silêncio imposto: 39,2% das unidades não oferecem canais de denúncia anônimos ou espaços de escuta segura.
Ariel de Castro Alves, advogado, membro da Comissão de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Conselho Federal da OAB e ex-secretário nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, reforça a urgência da aplicação da lei:
“As escolas precisam cumprir uma lei de 2019, que prevê psicólogos e assistentes sociais nas unidades educacionais.
Deveriam ter plantões desses profissionais diariamente em todas as escolas. E também a atuação de educadores mediadores para verificarem situações de conflitos, bullying e violências, atuando em conjunto com os psicólogos, assistentes sociais e a coordenação pedagógica das escolas, de forma preventiva, e dependendo de cada caso, atuando em conjunto com as famílias, rede de saúde mental, rede de proteção social e com a polícia, conselhos tutelares e varas da infância e juventude”.
Para o especialista, os dados do MEC comprovam que muitas escolas brasileiras, em vez de espaços de desenvolvimento e proteção, se tornaram locais de “violências, constrangimentos, insegurança e até de mortes”.
Bullying e saúde mental
A violência “comum” continua a paralisar o aprendizado. Em 2023, o calendário letivo de 2.182 escolas foi interrompido por episódios violentos. No campo da saúde, o cenário é de emergência: em apenas um ano, foram 15.759 vítimas de violência interpessoal nas escolas e 2.273 casos de automutilação ou tentativas de suicídio.
O bullying, agora crime sob a Lei nº 14.811/2024, atinge níveis epidêmicos, com um pico crítico aos 12 anos de idade.
Projeções indicam que 34,4 milhões de brasileiros convivem com crianças ou adolescentes vítimas dessa prática em seus núcleos familiares.
Segurança de fachada
Enquanto a saúde mental é negligenciada, o foco recai sobre a segurança patrimonial. Embora 21% das escolas tenham vigilantes e 85,3% façam controle de acesso por funcionários comuns, apenas 17,4% das instituições contam com profissionais de fato treinados para reagir a ameaças reais. Pior: 62,2% sequer possuem um plano ou protocolo de resposta para situações de emergência.
O boletim conclui que, embora o Snave tenha conseguido conter o avanço dos ataques premeditados, a “paz” nas escolas brasileiras é frágil, sustentada por uma vigilância reativa enquanto a raiz do problema — a radicalização digital e a ausência de suporte psicossocial — continua a crescer sem o devido enfrentamento do Estado.
Principais pontos do relatório
Histórico de ataques: Entre 2001 e 2025, foram 47 ataques de violência extrema. O uso de armas brancas (23 casos) superou o de armas de fogo (20 casos).
Aumento pós-pandemia: Após a reabertura das escolas em 2021, houve um crescimento acentuado, com picos de 10 ataques em 2022 e 15 em 2023.
Territórios vulneráveis: 84,4% das escolas que tiveram o calendário interrompido por violência estão em áreas urbanas.
Perfil das vítimas: Em 2024, a maioria das vítimas de violência escolar era do sexo feminino (57,9%) e negra/parda (50,4%).
Radicalização digital: As menções de ameaças a escolas cresceram 360% entre 2021 e 2025, evidenciando o papel das comunidades extremistas online.
Violência autoprovocada: Os casos de automutilação e tentativas de suicídio nas escolas apresentaram uma variação alarmante de 987,6% no período de 2013 a 2024.





