O Peru amanheceu neste domingo (12) diante de um labirinto democrático. Com um número recorde de 35 candidatos disputando a presidência e uma cédula de votação que se estende por quase meio metro, cerca de 27 milhões de eleitores tentam encontrar uma saída para uma década marcada por presidentes efêmeros, escândalos de corrupção e uma nova e sufocante onda de criminalidade.
A eleição ocorre em um momento de profunda exaustão institucional. Desde 2018, o país foi governado por oito presidentes diferentes — uma rotatividade frenética alimentada por impeachments, renúncias e prisões que transformou o Palácio de Pizarro em uma porta giratória.
Um cenário pulverizado
No topo das pesquisas, mas longe de uma vitória definitiva, está Keiko Fujimori. Em sua quarta tentativa de conquistar o cargo que pertenceu ao seu pai, o falecido Alberto Fujimori, a candidata de direita mantém uma liderança frágil. Com nenhum candidato superando a marca dos 15% de intenção de voto, analistas dão como certo um segundo turno em junho.
Logo atrás de Fujimori, um pelotão de candidatos reflete a natureza heterogênea e, por vezes, surreal da política peruana atual:
- Rafael López Aliaga: Um empresário ultraconservador.
- Ricardo Belmont: Empresário de mídia e ex-prefeito de Lima.
- Carlos Álvarez: Um ex-comediante que se apresenta como o “outsider” da vez.
“O alto número de indecisos — cerca de 13% — significa que mesmo candidatos que hoje parecem irrelevantes podem ser os protagonistas de amanhã”, observa Nicolas Watson, consultor da Teneo.
A “Bukelização” do debate peruano
Embora a corrupção historicamente domine a pauta — com quatro ex-presidentes atrás das grades e o legado do esquema Odebrecht ainda latente —, o tema que realmente está movendo o eleitorado este ano é a segurança pública.
O Peru, outrora poupado da violência extrema de seus vizinhos, vive uma explosão de extorsões (alta de 20% no último ano) e recordes de homicídios. O fenômeno gerou uma guinada em direção a propostas de “mão dura”, inspiradas no modelo de Nayib Bukele em El Salvador.
“A insegurança agora supera a corrupção como a principal angústia. Isso alimentou o apoio a respostas populistas que antes seriam impensáveis”, explica Paula Muñoz, professora da Universidad del Pacífico.
Entre as propostas que ganharam tração na campanha estão:
- O envio de tropas militares para patrulhamento urbano.
- O restabelecimento da pena de morte.
- O retorno dos “juízes sem rosto” para julgar o crime organizado, uma tática não utilizada no país desde 1997.
Paradoxo econômico
Apesar do caos político que levou 90% da população a declarar desconfiança total no governo — o índice mais alto da América Latina, segundo o Latinobarómetro — o Peru apresenta um paradoxo fascinante. Enquanto a política desmorona, a economia permanece estranhamente resiliente, ostentando uma das inflações mais baixas e moedas mais estáveis da região.
Para o analista político Fernando Tuesta, o voto deste domingo decidirá se o país iniciará uma lenta reconstrução institucional ou se continuará “preso a um ciclo de autodestruição”. Além do presidente, os peruanos elegem hoje o novo Congresso bicameral, restaurado em uma tentativa de trazer mais equilíbrio ao Legislativo.
As seções eleitorais fecham às 17h (19h em Brasília). O que emergirá das urnas, no entanto, pode levar dias para ser totalmente compreendido em meio à cédula mais longa da história do país.



