Ednaldo Pereira dos Santos, conhecido como “Dadá”, que fugiu. (Foto: Reprodução)


Mensagens interceptadas pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA) revelam os bastidores de uma trama que mistura corrupção penitenciária, influência política e uma tentativa audaciosa de “vender” uma narrativa falsa para a sociedade. Após a fuga de 16 detentos do Conjunto Penal de Eunápolis, em dezembro de 2024, a ex-diretora da unidade, Joneuma Silva Neres, e o ex-deputado federal Uldurico Júnior coordenaram uma estratégia para transferir a culpa do episódio para a cúpula da Secretaria de Administração Penitenciária (Seap).

O esquema: ‘Duas rosas’ e malas de dinheiro
A investigação aponta que a fuga não foi um erro de vigilância, mas um evento “comprado”.

De acordo com os promotores, o esquema de corrupção começou logo após a nomeação de Joneuma, em março de 2024. A facção criminosa PCE (Primeiro Comando de Eunápolis) teria pago R$ 2 milhões para viabilizar a saída de seus líderes — valor este referido nos diálogos pelo código “duas rosas”.

O rastro do dinheiro teria passado pela política: cerca de R$ 170 mil foram entregues a familiares de Uldurico Júnior, tanto em espécie (dentro de caixas de sapato) quanto via PIX, antes mesmo da evasão. Em troca, os presos gozavam de regalias como a entrada de eletrodomésticos e, finalmente, o uso de furadeiras e apoio externo com fuzis para concretizar a fuga em 12 de dezembro.

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A estratégia da ‘contrainteligência’

Assim que Joneuma foi afastada do cargo, em 18 de dezembro, o grupo iniciou o que o MP chama de “caça a depoimentos”. O objetivo era duplo: desacreditar a Seap e blindar a diretora.

  1. Narrativa de Perseguição: Uldurico tentou convencer caciques políticos de que a Seap estava “fabricando provas” contra a “primeira mulher diretora da história” da unidade.
  2. Ofício Retroativo: Para provar que não foi omissa, Joneuma teria forjado um documento com data de julho de 2024. O ofício simulava um alerta antigo à cúpula da secretaria sobre falhas na estrutura do presídio.
  3. Ataque à Gestão: Em mensagens, a ex-diretora tentava relativizar a gravidade da fuga em Eunápolis listando episódios com armas pesadas em outras prisões, afirmando que “quando a Seap quer, ela abafa”.

    O fator Geddel: ‘As reclamações estão chatas’

    Um dos pontos centrais da investigação é a figura do ex-ministro Geddel Vieira Lima. Tratado como “chefe” nas comunicações, ele seria o suposto beneficiário de metade da propina da facção. No entanto, o material revela um momento de tensão: ao ser cobrado por Uldurico para intervir na defesa de Joneuma, Geddel reagiu com rispidez.

    Em áudio enviado no dia 22 de dezembro, o ex-ministro repreendeu o aliado, chamando as reclamações de “chatas” e ameaçando expor o que chamou de “cagadas” cometidas por Joneuma na gestão. O áudio sugere que, diante do cerco do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), a blindagem política começou a ruir.

    Medo e Prisão

    A investigação detalha que Joneuma monitorava cada passo do MP-BA, demonstrando pânico de que o coordenador operacional da unidade, Welington Oliveira, cedesse à pressão e confessasse o esquema em depoimento.
  4. Em suas últimas mensagens antes da prisão, a ex-diretora relatou sensação de abandono e medo constante de ser detida.

    Joneuma Silva Neres foi exonerada e está à disposição da Justiça. A defesa dos citados ainda não se pronunciou oficialmente sobre o teor das mensagens reveladas pelo Ministério Público.