
Ezyia Abu Hayya, 34, passou o inverno em uma luta inglória para proteger seus seis filhos pequenos do frio rigoroso e das chuvas torrenciais que assolam o sul da Faixa de Gaza. Com a chegada de temperaturas mais amenas, o alívio esperado não veio. Em seu lugar, surgiu uma ameaça mais insidiosa e “miserável”: ratos que devoram os parcos suprimentos de comida da família e roem as poucas roupas que lhes restam.
“No inverno, a água nos cerca. No verão, sofremos com os ratos porque nossa tenda é baixa”, relata Ezyia, agachada em sua habitação precária na cidade de Khan Younis. “Eles comem tudo, não nos deixam nada.”
A história de Abu Hayya é o retrato de um enclave que, seis meses após o cessar-fogo mediado pelo governo de Donald Trump ter interrompido os combates mais intensos, permanece mergulhado em uma crise multidimensional. Se as bombas caem com menos frequência, a miséria se diversificou: à escassez de remédios e à destruição de infraestrutura somam-se agora roedores, calor escaldante e esgoto fluindo a céu aberto.
O impasse diplomático
Enquanto a população tenta sobreviver ao cotidiano, o tabuleiro político parece travado. Três autoridades próximas ao processo de paz informaram à NBC News que as conversas entre o Hamas, países mediadores e o Conselho da Paz — órgão instituído pelo presidente dos EUA — pouco avançaram.
Planos de reconstrução e governança estão paralisados por discordâncias sobre o desarmamento do Hamas e por uma administração
Trump que, segundo diplomatas, parece “distraída” por outros conflitos.
“Assim que a guerra terminou, o Hamas aceitou o cessar-fogo e os reféns foram soltos, essa passou a ser a prioridade de Washington”, explica Bishara Bahbah, empresário palestino-americano próximo ao governo Trump. “Depois veio a guerra contra o Irã e, como resultado, ninguém mais fala de Gaza.”
Uma autoridade do Conselho da Paz, falando sob anonimato, contestou a tese de paralisia, embora não tenha detalhado progressos específicos. “Estamos pressionando pela implementação do roteiro: desativação de armas, envio de uma Força de Estabilização Internacional e a transição de autoridade para o Comitê Nacional para a Administração de Gaza”, afirmou.
A barreira da reconstrução
Para o Departamento de Estado dos EUA, a liderança americana melhorou o acesso humanitário, mas a reconstrução física só começará quando o Hamas depuser as armas, conforme o plano de 20 pontos aceito no cessar-fogo. “Qualquer coisa menos que a desmilitarização total compromete a estabilidade regional”, diz uma fonte do governo.
Entretanto, no terreno, os números pintam um cenário de estagnação:
- Vítimas: O Ministério da Saúde local registra 784 mortos por ataques israelenses desde outubro.
- Fome: O Comitê Internacional de Resgate projeta que 77% da população enfrentará insegurança alimentar aguda este ano.
- Habitação: Imagens de satélite da ONU mostram que 80% dos edifícios da Faixa de Gaza estão danificados.
O fator UNRWA e o bloqueio de materiais
A assistência humanitária é outro ponto de fricção. Sam Rose, diretor interino de Assuntos da UNRWA (Agência da ONU para Refugiados Palestinos), descreve a situação como “indigna”, com pessoas vivendo em condições “fétidas e rançosas” em praias e terrenos áridos.
Israel, por sua vez, baniu a UNRWA após acusações de conluio de funcionários com grupos terroristas, o que complicou a logística de outras agências. O COGAT, braço militar israelense, nega a crise e diz que as denúncias são “tendenciosas”. Há também uma guerra de números sobre os suprimentos: enquanto a ONU diz que entram apenas 100 a 200 caminhões por dia, Israel afirma permitir 600, alegando que gargalos de segurança durante o conflito com o Irã reduziram temporariamente esse fluxo.
Além disso, a classificação de materiais de construção como itens de “duplo uso” (que poderiam ser usados para fins militares) impede a entrada de cimento e ferramentas, condenando famílias como a de Abu Hayya a viverem em tendas de plástico.
Verão e o risco sanitário
A presença de ratos e pragas foi detectada em 80% dos acampamentos visitados pela ONU em março. Com o sistema de saúde operando com menos de 50% de sua capacidade, o temor de epidemias é real.
“A escassez de higiene levará a condições catastróficas”, alerta Amjad Al Showa, ativista de direitos humanos em Gaza.
Armas e desconfiança
No Cairo, as negociações esbarram no desarmamento. O Hamas recusa-se a entregar seu arsenal enquanto Israel mantiver tropas na chamada “linha amarela” — zona de controle que abrange mais da metade do enclave. “A falta de armas encorajaria a ocupação a cometer mais crimes”, justifica o porta-voz Hazim Qassem.
Do lado israelense, a posição é inflexível: “Não se desarmar é uma violação do acordo. O tempo para isso já passou”, diz uma fonte ligada às negociações.
Até os “tecnocratas palestinos” escolhidos para administrar Gaza hesitam. Temem por suas vidas e receiam ser vistos como “fantoches de Israel” se assumirem o poder sem autonomia real.
Para Ezyia Abu Hayya, o fim definitivo do conflito seria um alívio, mas a esperança é temperada pelo ceticismo. “Com o Hamas no controle, temo que os combates voltem. Estou preocupada com meus filhos — para onde iríamos?”




