Moisés Rabinovici


Moisés Rabinovici*

Os dois brasileiros mortos no sul do Líbano neste domingo não são uma exceção. Há décadas, brasileiros vivem — e morrem — em meio às guerras da região.

Em 1982, durante uma invasão israelense, estive numa aldeia onde todos falavam português. Ali, um brasileiro já havia sido morto por uma bomba.

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Al Bireh, Líbano central (12/07/1982) — A paisagem que se avista desta aldeia escondida num dos picos de uma cordilheira é tão impressionante quanto perigosa: abaixo, o verde vale de Bekaa, com seus caminhos minados, plantações de cerejas, tanques movendo-se camuflados e um céu muito claro, sem nuvens — os trovões esporádicos são disparos de canhões.

Surpreendente, nesta aldeia que esteve no centro de uma das maiores batalhas aéreas do mundo, envolvendo mais de cem aviões sírios e israelenses, em 9 de junho de 1982, é a informação de um de seus 1.300 habitantes:

— Aqui, todos falamos português e “arabês”.

Cinco mil habitantes de Al Bireh vivem no Brasil. E 300 brasileiros estão aqui, no fogo cruzado de uma guerra que não entendem.
— Somos gente da roça, sabe? — explica um deles.

No dia “daquela chuva de bombas” morreu um brasileiro, Ali Bacha, que viveu 22 anos entre o Paraná e São Paulo. Uma de suas filhas, Fátima, lembra:

— Meu pai tinha bronquite. E o ar daqui faria muito bem a ele, aconselhou um médico de São Paulo. Lá, ele vivia sufocando… Então viemos. Como passou a não sentir mais nada, reuniu a família e decidiu: vamos ficar aqui.

No dia do ataque, quando Israel bombardeou baterias russas de mísseis Sam-6 instaladas no vale de Bekaa, Ali Bacha foi respirar na varanda de sua casa. Seu filho, Mohamed, e uma prima, Kessem, australiana, sentaram-se ao lado. Na varanda, sobre o penhasco — um mirante privilegiado — caiu uma bomba.

Mohamed, 20 anos, brasileiro, foi ferido na perna direita, “com o osso saindo para fora”. Estilhaços atingiram vários pontos do corpo de Kessem. E Ali Bacha morreu.

Os brasileiros de Al Bireh não entendem a guerra:

— Só pode entender isso quem tem “cabeça grande” — diz um deles.

Não a entende, também, o aiatolá da aldeia, conhecido como o Sheik de Ipanema. Ele pouco fala, apenas sorri, com seus 110 anos. “O ar daqui é milagroso”, comenta Fátima, apontando para o líder muçulmano de barba longa e branca. “Se você o chamar de velho, ele briga.”

Na noite “daquela chuva de bombas”, um tenente sírio apareceu, também ferido, ao pé da montanha. Entrou no carro de um primo de Mohamed. Os brasileiros, tentando socorrer seus feridos, pediram ajuda aos israelenses, que já dominavam grande parte do vale.

Mas o sírio, ao ver os israelenses, abandonou o carro e tentou alcançar uma casa — a mesma para onde Mohamed havia sido levado, à espera de uma ambulância.

— Ele não conseguia mais andar. Aí se deitou na frente da casa. Pegaram ele; estava uniformizado. Aí avisamos: tem mais um ferido lá dentro.

Era Mohamed. Levado no mesmo helicóptero que transportaria o tenente sírio, os dois foram deixados, como se diz ali, “no hospital policial”.

Três semanas depois, Kessem se recuperava no hospital Hadassah, em Jerusalém. E o primeiro-ministro de Israel, Menachem Begin, informava no parlamento: entre os prisioneiros de guerra, “há um brasileiro”.

Era Mohamed, preso com o tenente sírio.

— Mohamed, prisioneiro de guerra? — perguntava a “gente da roça” de Al Bireh.
— Não, ele é dono de loja — dizia sua irmã, Fátima. A mãe balançava a cabeça:
— Ele nem conhecia o sírio…

Do lado israelense, a confusão aumentou quando um primo de Mohamed, ferido nos olhos, apareceu no mesmo “hospital policial”, com um documento que comprovava ser trabalhador — no Iraque.

— Trabalhava como intérprete, de brasileiro para árabe — explicava um irmão.
— Onde?
— Numa “agência” de Belo Horizonte.
— Qual?
— Mendes Júnior.

Para os brasileiros de Al Bireh, nada de estranho. Para os israelenses, um brasileiro ferido ao lado de um sírio, com ligações de trabalho no Iraque, em plena guerra, parecia suspeito. Durante um mês, a embaixada do Brasil não conseguiu obter informações oficiais sobre o prisioneiro. Depois, autorizou-se a visita.

Mohamed virou o “herói” da guerra na aldeia.

— Você viu ele? — perguntam a quem chega de Israel.

Quando cheguei a Al Bireh e perguntei por brasileiros, já falava com um deles. Sendo também brasileiro, fui cercado por uma multidão: café, chá, doces, almoço — e perguntas sobre Mohamed.

A guerra era “aquela chuva de bombas: tanques, aviões, metralhadoras…”.

— Enquanto “chovia”, o que vocês faziam?
— Íamos para o esconderijo.
— Qual?
— Junto com as vacas.

O estábulo ficava sob a casa de pedras de Ali Bacha, no penhasco.

— Ontem fomos para lá de novo — diz Fátima.
— Por quê?
— Teve mais tiroteio. Caiu uma bomba perto. Minha tia, que voltara do hospital, dizia: não aguento mais…
— Quem atirava?
— Não sabemos…
— O que acham da guerra?
— Ai, credo! Deveria haver um entendimento. Está morrendo muita gente que não tem nada a ver com isso…
— Quantos morreram aqui?
— Oito. E quatro feridos.
— Onde caiu a “bombona” de ontem? Ela veio de avião?

Um rapaz responde – o que trabalhava na “agência” do Iraque:

— De avião caíram as luminosas, aquelas que clareiam tudo. A bombona caiu aqui perto, e acho que foi de canhão.
— E quem disparou?
— Os sírios — responde um rapaz. A viúva o interrompe:
— Não acuse ninguém. É perigoso.
— Se soubesse que tinha mais guerra, não voltava — diz Kessem, com o braço engessado e as pernas enfaixadas.
— Vou tentar ir para Israel.

Muitos perguntam, ao mesmo tempo, como se faz para viajar até lá.

Mohamed já queria voltar ao Brasil desde as primeiras bombas. Tinha uma loja de roupas, que pegou fogo.

— Perdeu 20 mil dólares — conta um primo.
— Vai receber indenização?
— De quem?
— Israel não paga?
— E por que não os sírios?

A resposta vem rápida:

— Os sírios levaram tudo. Carros, geladeiras…
— Levaram minha máquina de costura — acrescenta Fátima.
— Eles são trombadinhas — diz outro.

A casa ao lado era quartel da OLP.

— Eles entravam armados, batiam nas pessoas, mexiam com as moças…
— E os israelenses?
— Não conhecemos ainda. Chegaram agora. Dão água, mas queremos luz. Não vimos a Copa: o Brasil perdeu?

Precisam de telefone, banco, comida.

Trovões.

— Vai chover?
— Não. São exercícios — diz um oficial israelense.

Lá embaixo, um caminhão com crianças pisaria numa mina. Seis mortos.

O grupo ia colher cerejas.

O vale de Bekaa, visto de perto, é outro: tanques destruídos, casas arrasadas, tropas em movimento — e “aquela chuva de bombas” que pode recomeçar a qualquer momento.

Al Bireh está a três quilômetros da frente de combate.


Hoje, milhares de brasileiros ainda vivem no Líbano, muitos nas regiões atingidas pelos bombardeios. No Brasil, milhões de descendentes de libaneses mantêm laços familiares com vilarejos como Al Bireh.

A guerra mudou de nomes e protagonistas — mas não de cenário, nem de vítimas.