Por Germano Oliveira (SP) e Adriana Blak (RJ)
“Estamos diante de um problema que não é pontual. Há um ciclo recorrente de endividamento que tende a se repetir, mesmo com medidas de alívio no curto prazo”, disse o economista Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, de São Paulo, em entrevista ao BC TV, programa do portal Brasil Confidencial.
A declaração de Lima sintetiza o dilema que o governo enfrenta ao lançar um plano bilionário de renegociação de dívidas, estimado em até R$ 100 bilhões, com a promessa de aliviar o orçamento de 81,7 milhões de pessoas que estão com dificuldades de pagar as contas feitas e empréstimos tomados, porque o salário ou a renda termina antes de acabar o mês.
Com endividados equivalentes a toda a população de um país como a Alemanha, o governo Lula não tem muita saída: ofertar uma negociação com juros especiais, longo prazo e tendo como parceiros nesse negócio o sistema bancário e as fintechs.
Nesta última segunda-feira (27), o ministro da Fazenda, Dario Durigan, passou o dia em São Paulo com presidentes dos grandes bancos e de fintechs e a diretoria da Associação Brasileira de Bancos (Febraban).
O único tema na pauta foi apresentar as propostas de uma renegociação gigantesca do total da dívida dos brasileiros com empréstimos, carnês, cheque especial e cartão de crédito.
O total do endividamento das 81,7 milhões de pessoas inadimplentes no Brasil em 2026 está estimado em cerca de R$ 539 bilhões, segundo levantamento da Serasa. Esse valor representa um aumento expressivo em relação a 2016, quando o montante era de R$ 348 bilhões.
O ministro saiu da reunião com o apoio dos banqueiros e executivos de finanças. Nesta terça-feira (28), em Brasília, Durigan se reuniu com o presidente Lula, relatou o que ficou combinado e aceito pelo sistema financeiro.
O governo entra como garantista do programa que ganhou o nome de “Desenrola 2.0”, o segundo feito pelo presidente Lula desde que assumiu o cargo em 2023.
Agora, o presidente Lula deverá anunciar o pacto com os banqueiros. Isso pode acontecer até o dia 1º de maio, Dia do Trabalho, em pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV. O presidente pretende tirar proveito político dessa medida, já que disputou a reeleição.
A proposta prevê renegociação em massa de contratos inadimplentes, redução de juros para patamares entre 6% e 10% e descontos que podem chegar a 90% do valor das dívidas.
Segundo Durigan, a lógica é simples: ao regularizar sua situação financeira, o consumidor volta a ter acesso ao crédito e, com isso, impulsiona a economia.
Mas especialistas, como Sidney Lima, alertam que o problema do endividamento amplo, geral e irrestrito da sociedade é mais profundo e não se resolve apenas com medidas emergenciais como o “Desenrola 2.0”.
Segundo Lima, o alto nível de endividamento deixou de ser conjuntural e passou a ter caráter estrutural. O custo elevado do crédito, a baixa renda média das famílias e a falta de educação financeira compõem um cenário que favorece a reincidência da inadimplência. “Sem atacar as causas estruturais, o risco é apenas adiar o problema”, afirma. Outro fator é também o baixo salário médio da ampla maioria da população.
Um dos pontos mais polêmicos do plano costurado pelo ministro Durigan é a possibilidade de ampliar o acesso ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para quitação de dívidas.
A medida pode representar alívio imediato, mas, na avaliação do economista da Ouro Preto Investimentos, cria vulnerabilidade futura.
“O FGTS funciona como uma reserva de segurança, especialmente em casos de demissão. Ao utilizá-lo agora, o trabalhador pode ficar desprotegido no futuro”, explica. Além disso, há impactos indiretos, como reflexos no setor imobiliário, que depende dos recursos do fundo para financiar habitação.
O programa de recomposição das dívidas também possui um componente político relevante. Ao atingir diretamente famílias de baixa renda, tende a gerar percepção de benefício imediato do governo, especialmente em períodos eleitorais.
Medidas de grande alcance social costumam ter efeito simbólico poderoso, mesmo que sua eficácia econômica seja limitada.
Apesar das ressalvas, Lima reconhece que a inadimplência elevada afeta não apenas os lares, mas toda a economia. A redução temporária do endividamento pode destravar o consumo e dar fôlego ao mercado.
Mas o desafio está em ir além das soluções emergenciais, disse. Reformar o sistema de crédito, ampliar a renda real das famílias e investir em educação financeira são passos considerados fundamentais para evitar que o ciclo de endividamento se repita.
O Brasil já experimentou iniciativas semelhantes, como o Refis para empresas conseguirem pagar impostos atrasados, bem como o primeiro plano Desenrola. Em ambos os casos, houve impacto positivo imediato, desafogando num primeiro momento a população, mas não se conseguiu evitar o retorno da inadimplência com novas dívidas contraídas.
No exterior, programas de renegociação também foram adotados. Nos Estados Unidos houve um programa após a crise de 2008, quando o governo Obama incentivou renegociações hipotecárias para conter a inadimplência e retomada de imóveis financiados por falta de pagamento.
A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:
Germano Oliveira – Com o governo preparando um plano de socorro que pode chegar a cerca de R$ 100 bilhões, incluindo a renegociação de milhões de contratos inadimplentes, redução de juros para algo entre 6% e 10% e até descontos que podem alcançar 90% das dívidas — você acredita que essas medidas serão suficientes para reduzir de forma significativa o alto nível de endividamento da população brasileira?
Sidney Lima – A grande questão é justamente essa: existe uma saída para resolver um endividamento tão elevado? Hoje, não estamos falando apenas de um problema social, mas também econômico.
Respondendo à sua pergunta, é preciso ter bastante cautela. O endividamento no Brasil deixou de ser algo apenas conjuntural e passou a ter um caráter estrutural, o que acende um alerta importante do ponto de vista econômico.
Existem dois lados nessa história. Por um lado, o governo também considera o aspecto eleitoral, já que se trata de uma medida com forte apelo popular. Por outro, há uma preocupação econômica: a inadimplência elevada reduz o consumo. Ao renegociar dívidas, a ideia é reativar esse consumo, já que as pessoas regularizam sua situação e voltam a ter acesso ao crédito para novas compras.
A intenção, portanto, é estimular a economia e dar uma sensação de alívio para quem estava endividado. No entanto, como o problema é estrutural, há um risco relevante: essas mesmas pessoas podem voltar a se endividar e enfrentar dificuldades novamente.
Ou seja, na prática, podemos estar apenas adiando um problema estrutural, tratando-o como se fosse algo pontual, muitas vezes atribuído apenas ao nível elevado da taxa de juros.
Germano Oliveira – Dentro dessa questão estrutural do endividamento, há também o debate sobre liberar o acesso ao FGTS para trabalhadores muito endividados. Mas existe o risco de essas pessoas sacarem o fundo para quitar dívidas agora e, no futuro, em caso de demissão, ficarem sem essa reserva de segurança. Como equilibrar essa medida para que ela ajude no curto prazo sem comprometer a proteção financeira do trabalhador no longo prazo?
Sidney Lima – Na prática, o que acontece é que você resolve um problema criando outro. Ou seja, você não elimina o problema — apenas o desloca de lugar. Esse é o grande ponto de preocupação quando analisamos pelo lado econômico.
Os efeitos negativos não aparecem imediatamente, mas podem surgir no futuro. Um exemplo disso é o possível impacto sobre o crescimento do setor imobiliário, que pode acabar sendo afetado mais adiante.
Ou seja, é uma conta que chega depois. E é justamente por isso que muitos governos são criticados: por priorizarem soluções de curto prazo, sem considerar os efeitos no longo prazo. Na minha visão, é exatamente esse tipo de situação que estamos enfrentando agora.
Adriana Blak – Nesse desenrola 2.0, com a liberação de recursos do FGTS e possíveis limitações de acesso para evitar saques elevados, você considera arriscado que o trabalhador utilize grande parte do fundo para quitar dívidas agora e, no futuro, volte a se endividar ou fique sem essa reserva financeira para momentos importantes, como uma demissão ou até a aposentadoria?
Sidney Lima – Sim, é arriscado — isso é um fato. Nem é preciso ser especialista para perceber que existe um risco evidente nessa situação. O FGTS, por exemplo, muitas vezes funciona como uma proteção em caso de demissão. Se a pessoa já está endividada, utiliza esses recursos para quitar dívidas e continua em uma situação financeira frágil, ela pode acabar sendo demitida sem ter essa reserva disponível.
Na prática, isso reforça a ideia de que estamos resolvendo um problema imediato, mas criando outro lá na frente. Isso gera uma preocupação relevante, principalmente em relação a como serão definidos os limites de saque.
Além disso, o endividamento no Brasil tem duas grandes vertentes. A primeira está ligada à condução da política monetária, que impacta diretamente o custo do crédito. A segunda é estrutural. Quando analisamos os dados, vemos que muitas das pessoas endividadas hoje já passaram por situações semelhantes anteriormente, o que revela um ciclo recorrente de endividamento. Esse é um ponto crítico que também exige atenção por parte do governo.
Adriana Blak – O endividamento atinge mais de 81 milhões de brasileiros, principalmente pessoas de baixa renda, e que grande parte desse público recebe até um salário mínimo, você avalia que a priorização dessa parcela da população em um período eleitoral pode dar ao programa um caráter mais político do que econômico?
Sidney Lima – Esse é um ponto polêmico. Na minha visão, sim, há um componente político relevante, porque esse tipo de medida atinge diretamente uma parcela muito ampla da população. Quando o governo consegue gerar no indivíduo a percepção de que foi responsável por tirá-lo de uma situação de endividamento, isso naturalmente cria um impacto político importante.
Sem entrar no campo ideológico, é fundamental analisar a questão sob a ótica econômica. Estamos lidando com um problema de endividamento que já se arrasta há bastante tempo, e a adoção de medidas desse tipo justamente em um período eleitoral levanta questionamentos.
Por isso, é possível interpretar que há também uma estratégia de reforçar a percepção de benefício direto à população, criando a ideia de que a melhora na situação financeira veio como resultado da ação do governo. Essa é a leitura que faço desse movimento.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:



