O governo libanês calcula em cerca de US$ 1 bilhão os recursos necessários para enfrentar a emergência humanitária e iniciar a reconstrução das áreas devastadas pela guerra. Mas, enquanto autoridades tentam mobilizar ajuda externa, a violência persiste no sul: um ataque aéreo israelense matou nesta quarta-feira (29) um soldado do Exército libanês e seu irmão, segundo o comando militar, em meio a ofensivas contínuas entre Israel e o Hezbollah, apesar do cessar-fogo vigente desde meados de abril.
Segundo o Exército, as vítimas foram atingidas quando retornavam de motocicleta para casa, após o soldado deixar o posto avançado em Bint Jbeil, no sul do país. No mesmo dia, a Agência Nacional de Notícias relatou novos bombardeios israelenses contra cidades da região.
Na véspera, ataques aéreos já haviam matado pelo menos 11 pessoas, incluindo três socorristas da Defesa Civil. Dois soldados ficaram feridos durante uma operação de resgate. O primeiro-ministro Nawaf Salam classificou o ataque contra socorristas como “crime de guerra”.
O presidente Josef Aoun afirmou que mantém contatos diplomáticos para consolidar o cessar-fogo e pôr fim às demolições de casas em aldeias ocupadas por forças israelenses. Paralelamente, o Exército israelense continua destruindo residências em localidades fronteiriças dentro de uma zona de segurança de dez quilômetros, delimitada por uma “linha amarela” estabelecida unilateralmente por Tel Aviv.
Israel e Líbano realizaram duas rodadas de negociações indiretas em Washington, por meio de embaixadores, numa tentativa de encerrar a guerra iniciada em 2 de março, quando o Hezbollah lançou ataques contra território israelense. Israel respondeu com bombardeios de grande intensidade. Um cessar-fogo entrou em vigor em 17 de abril e foi prorrogado por três semanas. Pelo acordo, Israel se reserva o direito de adotar “todas as medidas necessárias” em legítima defesa contra o Hezbollah, que continua reivindicando ataques e rejeita negociações diretas. “Vamos frustrar a tentativa do inimigo de estabelecer uma zona de segurança em nosso território”, disse o deputado Hassan Fadlallah.
Desde o início do cessar-fogo, ataques israelenses já mataram pelo menos 53 pessoas no Líbano, segundo dados oficiais. Além do custo humano, a guerra provocou deslocamento massivo: cerca de 1,2 milhão de pessoas, ou um quinto da população, foram forçadas a deixar suas casas em apenas dois meses. O país, já fragilizado pela guerra de 2024 e pela crise econômica iniciada em 2019, enfrenta enormes dificuldades para atender às necessidades básicas dos deslocados.
Na ausência de apoio internacional substancial, o governo afirma ter “batido em todas as portas” para arrecadar cerca de US$ 1 bilhão.
Até agora, os recursos liberados ficam muito abaixo dos US$ 720 milhões obtidos durante a guerra de 2024, enquanto as necessidades atuais são maiores. Um primeiro empréstimo de US$ 200 milhões foi assinado com o Banco Mundial, voltado às populações mais vulneráveis, mas autoridades reconhecem que o valor é insuficiente. Para lidar com a urgência, o governo estuda redirecionar empréstimos destinados a infraestrutura e adiou aumentos salariais do funcionalismo público, aprovados em fevereiro, que teriam custo anual de US$ 800 milhões. A medida é considerada inevitável, mas pode intensificar tensões sociais.
Combinada às divisões políticas internas e aos efeitos imediatos do conflito armado, a situação representa risco crescente para a estabilidade do país, enquanto a reconstrução das áreas destruídas permanece incerta.





