O médico endocrinologista, Antonio Carlos do Nascimento, durante entrevista ao BC TV


Por Germano Oliveira (SP) e Adriana Blak (RJ)

A aprovação pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) da tirzepatida para o tratamento do diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes a partir dos 10 anos marca um novo capítulo no enfrentamento das doenças metabólicas em idades precoces.

O endocrinologista Antonio Carlos do Nascimento, de São Paulo, avalia que a decisão amplia o arsenal terapêutico disponível para jovens, mas alerta: “O uso desses medicamentos ocorre quando as estratégias tradicionais já foram adotadas e não foram suficientes. Eles entram como complemento, não como substitutos.”

Continua depois da publicidade

Tradicionalmente associado ao público adulto, o diabetes tipo 2 vem se tornando cada vez mais frequente entre jovens, impulsionado pelo aumento da obesidade infantil e pela resistência à insulina.

Diferente do tipo 1, caracterizado pela ausência de produção de insulina pelo pâncreas, o tipo 2 envolve uma produção insuficiente para manter os níveis adequados de glicose no sangue.

Nos últimos anos, novas opções terapêuticas começaram a ser incorporadas ao tratamento de adolescentes. Em 2020, a liraglutida foi autorizada para obesidade; em 2023, a semaglutida ampliou as possibilidades.

Agora, a tirzepatida (cujo nome comercial é Mounjaro) surge como alternativa aprovada especificamente para o controle do diabetes tipo 2 em pacientes entre 10 e 17 anos.

Segundo Nascimento, a indicação é restrita: “O uso da tirzepatida exclusivamente para obesidade, sem diagnóstico de diabetes tipo 2, não está previsto em bula e é considerado off-label.” Ele também reforça a necessidade de segurança e procedência, destacando que apenas a versão original deve ser utilizada, respeitando normas regulatórias e patentes.

Em relação às doses, todas as faixas previstas — de 2,5 mg a 15 mg — podem ser aplicadas em crianças e adolescentes, desde que seguindo o protocolo de escalonamento progressivo indicado pelo fabricante.

Apesar do avanço farmacológico, o especialista insiste que o medicamento não substitui mudanças no estilo de vida. Alimentação equilibrada, prática regular de atividade física e acompanhamento multidisciplinar continuam sendo pilares do tratamento.

A incorporação da tirzepatida reflete, portanto, não apenas o progresso da medicina, mas também a urgência em enfrentar uma realidade crescente: o avanço das doenças crônicas entre crianças e adolescentes. Um detalhe importante: o medicamento só pode ser usado com prescrição médica.

A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:

Germano Oliveira – O senhor acredita que o uso da tirzepatida (Mounjaro) em crianças e adolescentes de 10 a 17 anos traz mais benefícios do que riscos no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade infantil?

Antonio Carlos de Nascimento – Sim, sem dúvida. Primeiro, é importante explicar um pouco essa questão do diabetes tipo 2 em crianças a partir dos 10 anos. Na última década, temos observado um aumento expressivo no número de casos, com uma incidência muito maior do que no passado.

O diabetes tipo 2 era tradicionalmente conhecido como “diabetes do adulto” — e, de certa forma, ainda é chamado assim. Já o diabetes tipo 1 é aquele em que as células pancreáticas produtoras de insulina deixam de existir; por isso, o único tratamento possível é a reposição de insulina. Esse tipo costuma surgir antes dos 30 anos, geralmente antes dos 18, sendo também chamado de diabetes juvenil.

Por outro lado, no diabetes tipo 2, o pâncreas ainda produz insulina, mas fatores como a obesidade e a resistência insulínica levam ao esgotamento dessa função, resultando em níveis elevados de glicose no sangue. O que chama atenção hoje é justamente o fato de estarmos lidando com esse tipo de diabetes — antes associado a adultos — em crianças e adolescentes a partir dos 10 anos.

Além disso, é importante lembrar que, desde 2020, começaram a surgir opções de tratamento farmacológico para obesidade em jovens. Inicialmente com a liraglutida (Saxenda), aprovada para uso a partir dos 12 anos, e depois, em 2023, com a semaglutida (Ozempic/Wegovy), de aplicação semanal, também indicada para essa faixa etária.

Agora, mais recentemente, a Anvisa aprovou o uso da tirzepatida (Mounjaro) para o tratamento do diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes a partir dos 10 anos. É importante destacar: a indicação aprovada é para diabetes tipo 2 — não especificamente para obesidade. Ou seja, o uso em pacientes apenas com obesidade, sem diagnóstico de diabetes, não está contemplado em bula, entrando no campo do uso off-label.

Ainda assim, trata-se de um avanço significativo, considerando que, há poucas décadas, esse cenário seria impensável.

Adriana Blak – Todas as doses da tirzepatida, de 2,5 mg até 15 mg, estão autorizadas para uso em crianças e adolescentes? E essa autorização vale apenas para o medicamento original do laboratório fabricante ou também inclui versões manipuladas, como as vendidas por algumas farmácias?

Antonio Carlos de Nascimento – Vou começar pela segunda pergunta. O que está autorizado — e, na verdade, o que deveria ser utilizado — é apenas o medicamento original, o Mounjaro. Isso segue a lógica de respeito às patentes e aos processos de desenvolvimento conduzidos pelos grandes laboratórios. No caso da tirzepatida, a patente ainda está vigente, e o medicamento foi desenvolvido pela Eli Lilly após um investimento bilionário. Portanto, versões manipuladas não são autorizadas dentro desse contexto regulatório.

Já com a semaglutida — presente em medicamentos como Ozempic — a situação começou a mudar recentemente com a queda de patente em alguns contextos, permitindo que outros laboratórios possam produzir a substância, desde que sigam rigorosamente as normas estabelecidas pela Anvisa. Mas isso não se aplica à tirzepatida.

Em relação à primeira pergunta, sim, a medicação pode ser utilizada em todas as doses previstas, de 2,5 mg até 15 mg, seguindo o esquema escalonado recomendado pelos estudos e pelo fabricante. Não há uma dose de corte específica para crianças e adolescentes dentro dessa faixa aprovada.

Germano Oliveira – Doutor Antônio Carlos, é claro que, no caso de crianças com obesidade e diabetes, também entram mudanças na alimentação, prática de atividades físicas e outros tratamentos convencionais. Essas abordagens são excludentes ou podem ser feitas de forma concomitante com o uso da tirzepatida? Ou seja, o paciente pode potencializar os resultados ao combinar o medicamento com hábitos saudáveis?

Adriana Blak – Grande pergunta, Germano. Veja bem: tanto medicamentos voltados à obesidade, como Wegovy e Saxenda, quanto agora a Mounjaro para diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes, só são indicados quando todas as outras possibilidades já foram esgotadas.

Isso significa que o paciente já passou por um processo estruturado de mudança de hábitos — com orientação alimentar adequada, prática regular de atividade física e acompanhamento por profissionais como médicos, nutricionistas e educadores físicos. Ou seja, ele já sabe o que deve fazer e, em geral, já está colocando isso em prática.

É importante entender que o ganho de peso não acontece simplesmente por escolha. Na maioria das vezes, há influência do ambiente e também fatores genéticos que favorecem esse processo.

Portanto, esse tipo de tratamento medicamentoso mais avançado só entra em cena quando todas essas abordagens anteriores já foram tentadas e não foram suficientes. Ele vem como um complemento dentro de um cuidado mais amplo, não como substituto das mudanças de estilo de vida.

📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV: