Moisés Rabinovici


Moisés Rabinovici*

O brasileiro Thiago Ávila e o palestino-espanhol Saif Abu Keshek foram detidos para interrogatório por Israel enquanto participavam de uma flotilha de cerca de 70 embarcações e mil pessoas que zarpou de Barcelona com o objetivo de romper o bloqueio a Gaza.

A Marinha israelense interceptou 58 barcos da Global Sumud Flotilla (Flotilha da Liberdade Global) a cerca de mil quilômetros de Gaza, na costa de Creta, na Grécia, e desembarcou 175 tripulantes no porto de Atherinolaktos, de onde serão repatriados — a maioria europeus. Ao deixar as embarcações, muitos entraram em ônibus gritando, em coro: “Liberdade para a Palestina”.

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O Ministério das Relações Exteriores de Israel informou suspeitar que Keshek seja afiliado a uma organização terrorista. Ávila, de 40 anos, coordenador internacional da Coalizão da Flotilha Sumud da Liberdade — “sumud” é um conceito palestino de resistência pacífica e perseverança — foi detido por “atividade ilegal”.

“Devido ao grande número de embarcações e ao risco de escalada, bem como à necessidade de evitar a violação de um bloqueio legal, uma ação imediata se fez necessária, em conformidade com o direito internacional”, afirmou o porta-voz da chancelaria israelense. Ele acrescentou: “Trata-se de uma provocação sem ajuda humanitária”.

A Marinha israelense pediu às embarcações não interceptadas que retornassem ou seguissem para o porto de Ashdod, em Israel, caso transportassem ajuda humanitária destinada a Gaza. Cerca de 30 barcos ignoraram a ordem e prosseguiram viagem.

Protestos contra a interceptação da flotilha foram registrados em Roma, Atenas e Istambul. Brasil e Espanha não haviam se manifestado até o fim da manhã sobre seus cidadãos detidos, mas assinaram, com outros países, uma declaração conjunta segundo a qual a detenção de ativistas em águas internacionais “constitui uma violação flagrante do direito internacional”.

Os Estados Unidos apoiaram Israel, classificando a flotilha como “manobra política”. O porta-voz do Departamento de Estado advertiu que países que permitirem acesso a portos, atracação ou reabastecimento das embarcações poderão sofrer “consequências”.

A ativista sueca Greta Thunberg não participou desta flotilha, ao contrário de ações anteriores. Entre os brasileiros, além de Ávila, estavam Bruno Gilga Rocha, a advogada de direitos humanos Ariadne Telles e Amanda Coelho Marzall, do Partido Socialista dos Trabalhadores e pré-candidata a deputada federal.

“Nossos barcos foram abordados por lanchas militares que se identificaram como israelenses, apontando lasers e armas semiautomáticas e ordenando que os participantes se posicionassem na proa e se ajoelhassem”, relatou a flotilha nas redes sociais. O grupo afirmou ainda que algumas embarcações foram deixadas à deriva após terem seus motores danificados.

O Ministério das Relações Exteriores da Turquia protestou: “Este ato de agressão representa mais uma violação do princípio da liberdade de navegação em alto-mar”. A Espanha, por sua vez, “condenou energicamente” a apreensão de embarcações com cidadãos espanhóis em águas internacionais

*Moisés Rabinovici é jornalista brasileiro com carreira marcada por atuação internacional e inovação digital. Como correspondente de imprensa, atuou em Israel, Europa e Estados Unidos.