O número de pessoas mortas por policiais militares e civis em serviço no estado de São Paulo cresceu no primeiro trimestre de 2026. Segundo levantamento feito pela Agência Brasil com base em dados do Ministério Público Estadual (MPSP), foram 142 vítimas entre janeiro e março, cinco a mais do que no mesmo período de 2025.
O balanço do Grupo de Atuação Especial da Segurança Pública (Gaesp) mostra que a tendência de alta também se reflete nos casos envolvendo agentes de folga: as mortes saltaram de 29 para 33 no período. Ao todo, a letalidade policial no estado somou 175 óbitos nos primeiros três meses do ano.
Para especialistas, o patamar elevado de mortes por intervenção indica falhas estruturais. O ouvidor da Polícia de São Paulo, Mauro Caseri, afirma que a ausência de políticas de saúde mental e a precariedade dos mecanismos de controle sobre o uso da força perpetuam o cenário.
“Precisamos de uma polícia que resolva conflitos, não de uma polícia que crie conflitos”, diz Caseri, citando ainda que baixos salários e sobrecarga de trabalho geram um ambiente de risco tanto para a população quanto para a tropa.
Histórico de alta
Os dados do MPSP revelam que a letalidade policial em serviço, que vinha em trajetória de queda entre 2019 e 2022 (com redução de 63,6%), voltou a subir na atual gestão. Em 2023, foram 357 mortes. O número saltou para 653 em 2024 e atingiu 703 no ano passado.
O presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), Adilson Santiago, classifica o cenário como uma “crise da segurança pública” e aponta um recorte social nas ocorrências.
“Existe um apartheid social para uma população direcionada: pessoas negras e da periferia”, critica Santiago, que vê despreparo e falta de comando para uma atuação mais humanizada.
Defesa das câmeras
Para reverter os indicadores, a Ouvidoria defende a fiscalização rigorosa do uso de câmeras portáteis e a revisão de protocolos operacionais. Caseri enfatiza que o aumento de mortes não pode ser interpretado como eficiência policial.
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que todas as mortes por intervenção são investigadas com acompanhamento das corregedorias e do Ministério Público. A pasta afirmou que tem investido na aquisição de equipamentos de menor potencial ofensivo e que o total de câmeras portáteis está sendo ampliado para 15 mil unidades.
Segundo a SSP, o programa Muralha Paulista, que integra bancos de dados e inteligência, cobre hoje 70% da população do estado, visando aumentar a eficiência das ações e reduzir a necessidade do uso da força.


