Fotografia feita pelo Corpo de Bombeiros logo após o acidente em BH ontem. (Foto: Divulgação)


A queda de um monomotor em Belo Horizonte, nesta segunda-feira (4), que matou três pessoas e feriu outras duas, reforça a preocupação com a segurança da aviação privada no país. O acidente, que envolveu o piloto e dois empresários, não é caso isolado: soma-se a uma sequência de tragédias recentes que expõem a vulnerabilidade desse setor.

Histórico de acidentes

Nos últimos meses, episódios graves marcaram a aviação particular. Em janeiro de 2025, um jato em Ubatuba (SP) não conseguiu pousar e atravessou uma praça até parar na areia da praia. Pouco antes, em dezembro de 2024, um Piper Cheyenne colidiu com uma chaminé em Gramado (RS), atingindo uma casa e uma loja de móveis, e deixou dez mortos da mesma família, além de 17 feridos.

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Esses casos se somam a outros acidentes de menor repercussão, mas que revelam padrões semelhantes: falhas humanas, condições meteorológicas desfavoráveis e infraestrutura insuficiente nos aeroportos.

Aviação privada lidera mortes

Segundo o Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), entre 2015 e fevereiro de 2025, a aviação privada foi responsável por 470 mortes — quase 60% das 789 registradas no período. O táxi aéreo aparece em segundo lugar, com 65 vítimas, seguido pela aviação comercial, com 62, todas no acidente da VoePass em Vinhedo (SP), em agosto de 2024.

Após dois anos de queda nos índices, 2024 registrou 58 mortes, o maior número desde 2015.

Fator humano e simuladores

Especialistas apontam que a maioria dos acidentes tem como causa principal o fator humano. Joselito Paulo, presidente da Associação Brasileira de Segurança de Aviação (Abravoo), defende maior investimento em simuladores de voo, que permitem treinar situações críticas sem risco real. “É como uma cabine no solo, onde se simula chuva, pane ou falha de motor. Não é obrigatório para muitos aviões, mas deveria ser”, afirma.

Raul Marinho, diretor técnico da Abag (Associação Brasileira de Aviação Geral), reforça que aeronaves complexas, como o King Air F90, exigem treinamento em simuladores. “Treinar emergências em voo pode transformar o exercício em acidente”, alerta.

Estrutura aeroportuária precária

O acidente em Gramado também expôs falhas na infraestrutura. O avião havia decolado de Canela, aeroporto sem torre de comando. “Se houvesse torre, a decolagem não teria sido autorizada”, avalia Marinho. Ele sugere ampliar o uso de procedimentos de pouso e decolagem baseados em GPS, já disponíveis em muitas aeronaves, como alternativa ao alto custo das torres.

Dois pilotos em jatos

Outro ponto em debate é a exigência de dois pilotos em jatos executivos. O Cessna Citation que caiu em Ubatuba era operado por apenas um. “Será que faz sentido um jato ser operado por um único piloto? Se houvesse dois, talvez o pouso em pista curta não tivesse ocorrido”, questiona Marinho.

Disciplina e qualificação

James Rojas Waterhouse, professor da USP, lembra que as normas de fabricação de aviões são consolidadas e seguras. Para ele, o problema está na disciplina operacional e na qualificação dos pilotos. “O piloto deve respeitar limites de pista e condições meteorológicas. Muitos sequer leem o manual da aeronave”, afirma.

Segundo o professor, a cultura de “voar no limite” é comparável à imprudência de motoristas em rodovias. “A primeira missão de um avião não é chegar mais rápido, mas pousar com todos vivos. Esse é o primado da aviação civil”, conclui.