Por ação humana, a Amazônia queima e coloca o planeta em risco. (Foto: Reprodução)


Um novo estudo publicado nesta quarta-feira (6) na revista Nature afirma que até dois terços da Floresta Amazônica podem sofrer uma transição crítica para um ecossistema degradado ou de savana. Segundo os pesquisadores do Instituto Potsdam para Pesquisa sobre o Impacto Climático (PIK), na Alemanha, esse colapso ocorreria caso o aquecimento global ultrapasse 1,5 °C e o desmatamento atinja entre 22% e 28% da área original do bioma.

A pesquisa busca quantificar o chamado “ponto de ruptura” (tipping point), conceito que divide a comunidade científica. Enquanto o planeta ruma para um aquecimento de 2,8 °C até o fim do século — e já tendo superado a marca de 1,5 °C nos últimos três anos —, cerca de 15% da Amazônia já foi suprimida.

O limiar da degradação

De acordo com Nico Wunderling, autor principal do trabalho, o descontrole climático isolado poderia levar a Amazônia a uma transição em larga escala caso as temperaturas subissem entre 3,7 °C e 4 °C. No entanto, a inclusão do desmatamento na equação reduz esse limite drasticamente.

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“O limiar passa a situar-se dentro das metas do Acordo de Paris, entre 1,5 °C e 2 °C”, afirma Wunderling. O estudo baseou-se em projeções climáticas combinadas a modelos de transporte de umidade atmosférica e hidrologia.

O ciclo da água é o pilar central dessa estabilidade. Através da evapotranspiração, as árvores reciclam a umidade, gerando até metade da chuva em certas regiões. A interrupção desse mecanismo por secas e desmate gera efeitos em cascata: dados da Nature Communications indicam que o sul da Amazônia registrou queda de 11% a 18% nas chuvas anuais entre 1980 e 2019.

As projeções do PIK corroboram alertas feitos em 2018 pelos cientistas Carlos Nobre e Thomas Lovejoy, que estimaram o colapso do bioma caso o desmatamento atingisse o intervalo de 20% a 25%.

Ceticismo acadêmico

Apesar dos dados alarmantes, especialistas alertam para as limitações da modelagem matemática aplicada a sistemas biológicos. Para Paulo Brando, professor associado da Universidade de Yale, os resultados são “idealizados”.

“Esses limiares devem ser vistos como hipóteses, não como verdades absolutas”, diz Brando. “Não existe um ponto único além do qual tudo colapsa de repente.” Ele ressalta que o modelo ignora a capacidade de reorganização e adaptação de milhares de espécies diante de um novo clima.

Jérôme Chave, ecólogo do centro de pesquisa francês CNRS, classifica a metodologia como uma “abordagem simplista” por resumir a reação da vegetação a uma equação, negligenciando processos de aclimatação.

David Lapola, pesquisador da Unicamp, reforça a crítica ao notar que a complexidade das florestas tropicais impede conclusões definitivas. “O ponto de ruptura continua sendo uma grande incerteza, e este trabalho não muda essa realidade”, afirma.
Abaixo, os indicadores centrais do debate:

  • Projeção Atual: O planeta caminha para um aumento de 2,8 °C na temperatura até 2100.
  • Estado do Bioma: Aproximadamente 15% da floresta primária já foi destruída.
  • Fator Hídrico: O desmatamento interrompe a reciclagem de umidade, reduzindo a pluviosidade regional em até 18%.