Por Adriana Blak (RJ)
Faltam apenas 15 dias para o encerramento do prazo de entrega do Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) 2026, e mais de 1 milhão de declarações já foram retidas na malha fina da Receita Federal. O alerta foi tema de entrevista concedida nesta quinta-feira (14) ao BC TV, do Portal Brasil Confidencial, com o advogado e tributarista Edemir Marques de Oliveira.
Segundo o especialista, o aumento das retenções não é um problema isolado do sistema de checagem, mas consequência direta da ampliação dos critérios de fiscalização e da maior integração de dados utilizados pela Receita Federal.
Com a extinção da DIRF e a adoção do eSocial como principal ferramenta de envio de informações pelas empresas, os dados passaram a ser transmitidos mensalmente, em vez de anualmente. Na prática, isso ampliou significativamente o volume de informações disponíveis ao Fisco e aumentou o cruzamento automático entre rendimentos, retenções e declarações.
Edemir explica que o novo modelo também incorporou dados de bancos, cartórios e plataformas de apostas, tornando o sistema mais abrangente e rigoroso. “A declaração pré-preenchida, que deveria facilitar a vida do contribuinte, acabou se tornando um desafio adicional em muitos casos”, afirmou durante a entrevista.
Para o tributarista, a malha fina ocorre quando há inconsistências entre as informações declaradas pelo contribuinte e os dados recebidos pela Receita. “Se uma operação tributável é informada, ela precisa estar refletida de forma coerente em todas as bases. Quando isso não acontece, o sistema identifica a divergência e retém a declaração”, explicou.
Edemir também avalia que o modelo atual aponta para um cenário de fiscalização praticamente em tempo real da vida fiscal do contribuinte pessoa física, semelhante ao já aplicado às empresas. Nesse contexto, segundo ele, cresce a necessidade de maior atenção no preenchimento das declarações.
“O tempo do ‘deixa eu cuidar do meu e ver no que vai dar’ acabou. O sistema exige coerência constante entre todas as informações”, disse.
Prazo final e cenário da declaração em 2026
A Receita Federal espera receber cerca de 44 milhões de declarações neste ano. Até 7 de maio, haviam sido entregues 20,3 milhões, o equivalente a 46,1% do total previsto. Ainda faltam aproximadamente 24 milhões de contribuintes.
O prazo final para envio termina em 29 de maio, às 23h59 (horário de Brasília). Quem perder o prazo pode estar sujeito a multa.
Principais novidades do IRPF 2026
Entre as mudanças deste ano estão a inclusão do nome social, a autodeclaração de raça e cor e a ampliação da declaração pré-preenchida, que agora traz mais dados automáticos.
O calendário de restituição também foi reduzido de cinco para quatro lotes. Além disso, novas regras passaram a valer para apostas online, previdência privada e mecanismos de cashback para contribuintes de baixa renda.
Com o aumento da digitalização e do cruzamento de dados, especialistas apontam que o sistema tributário brasileiro entra em uma fase de maior integração e fiscalização contínua, exigindo mais atenção dos contribuintes para evitar inconsistências e retenções na malha fina.
A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:
Adriana Blak – Doutor Edemir, por que mais de um milhão de declarações foram retidas?
Edemir Marques de Oliveira – Bem, todos os anos as declarações passam por um processamento da Receita Federal. Algumas acabam sendo retidas, enquanto outras não. Neste ano, porém, houve uma mudança significativa nos critérios utilizados pela Receita Federal para apurar os dados dos contribuintes e analisar as declarações apresentadas.
A principal alteração foi que, até então, as empresas entregavam essas informações anualmente, até o dia 28 de fevereiro, tanto aos contribuintes quanto à Receita Federal, por meio da chamada DIRF — Declaração do Imposto sobre a Renda Retido na Fonte.
Agora, em 2026, a DIRF foi extinta, e as informações passaram a ser enviadas mensalmente ao longo do ano. Com isso, a Receita Federal passou a receber esses dados por meio do eSocial, sistema utilizado pelas empresas para transmitir informações da folha de pagamento.
Esse novo modelo acabou acumulando informações nas bases da Receita Federal e gerou inconsistências entre os dados enviados pelas empresas e aqueles apresentados pelos contribuintes em suas declarações.
Adriana Blak – Agora, para quem ainda tem dúvidas, o que significa exatamente cair na malha fina?
Edemir Marques de Oliveira – A malha fina é um jargão técnico usado há bastante tempo e que acabou se popularizando, embora muita gente ainda não saiba exatamente o que significa.
Na prática, a malha fina é o sistema de cruzamento de dados da Receita Federal. A Receita compara as informações enviadas pelas empresas, fontes pagadoras, bancos e demais instituições que informam rendimentos, com os dados declarados pelos contribuintes no Imposto de Renda.
Quando existe alguma inconsistência entre as informações prestadas pelo contribuinte e os dados que constam na base da Receita Federal, a declaração é retida para uma análise mais detalhada. É isso que se chama de cair na malha fina.
Adriana Blak – E qual foi a principal novidade, doutor, que levou a esse aumento no número de retenções neste ano especificamente?
Edemir Marques de Oliveira – A principal novidade foi a decisão da Receita Federal de extinguir a DIRF, fazendo com que as empresas passassem a informar mensalmente as retenções e os pagamentos de salários, lucros, abonos e férias, e não mais apenas uma vez por ano.
Essa foi a principal mudança.
Além disso, a Receita Federal passou a contar com informações mais detalhadas fornecidas por cartórios, que informam operações de compra e venda de imóveis; por bancos, que comunicam movimentações financeiras e aplicações realizadas pelos contribuintes; e também pelas plataformas de apostas, as chamadas bets, que informam pagamentos de prêmios e outras transações relacionadas às apostas.
Com esse volume maior de dados, a Receita Federal passou a ter uma base de informações muito mais ampla, o que permite verificar com mais precisão se as informações declaradas pelos contribuintes estão corretas.
Adriana Blak – Como funciona esse cruzamento de dados em tempo real?
Edemir Marques de Oliveira – Esse cruzamento de dados em tempo real acontece justamente porque não existe mais apenas a informação anual. Agora, a Receita Federal recebe informações mensais e até diárias, trabalhando constantemente essa grande base de dados.
Inclusive, para facilitar o preenchimento da declaração do Imposto de Renda, existe a declaração pré-preenchida, em que o contribuinte pode acessar as informações já disponíveis na base da Receita Federal e conferir se os dados estão corretos.
Neste ano, porém, como a Receita passou a ter acesso a um volume muito maior de informações, isso também acabou gerando mais erros, mais inconsistências e, consequentemente, mais declarações retidas na malha fina.
Isso aconteceu porque as empresas passaram a ter uma nova obrigação de informar dados mensalmente e, em muitos casos, alguns valores enviados ainda não estavam totalmente corretos ou adequados. Isso acabou gerando distorções.
Os primeiros contribuintes que entregaram a declaração, especialmente no início da segunda quinzena de março, encontraram muitas divergências entre o informe de rendimentos fornecido pela empresa e os dados que essa mesma empresa havia transmitido à Receita Federal.
Essa inconsistência fez com que muitas declarações fossem retidas em malha fina. E justamente por haver hoje um sistema com mais informações disponíveis em tempo real, esses cruzamentos acabam identificando rapidamente qualquer divergência.
Mas essa situação já está sendo corrigida. As empresas estão retificando as informações e ajustando os dados enviados à Receita Federal.
Adriana Blak – Mesmo quem preenche corretamente a declaração pode cair na malha fina, doutor?
Edemir Marques de Oliveira – Pode. Isso acontece porque, como estamos comentando, nem sempre a informação que está na base de dados da Receita Federal é totalmente precisa. Esses sistemas funcionam a partir de dados que são informados e coletados, e eventualmente pode haver alguma inconsistência ou informação distorcida que chega à Receita.
Assim, a pessoa pode apresentar uma declaração correta e ainda assim cair na malha fina. Nesse caso, o que ela deve fazer é verificar toda a documentação que possui e, se essa documentação realmente comprovar a situação correta, apresentá-la ao Fisco caso seja solicitada ou caso a declaração fique retida.
Aliás, para saber se caiu na malha fina, é simples: após transmitir a declaração do Imposto de Renda, o contribuinte pode acompanhar o processamento pelo sistema da Receita Federal, o e-CAC, acessando sua conta e verificando o status da declaração — se está em processamento, se já foi processada, se está em fila de restituição ou se há alguma inconsistência.
Se houver inconsistência, significa que a declaração foi retida em malha. Nesse caso, o contribuinte deve identificar a causa do problema dentro do próprio sistema da Receita.
Se a divergência for resultado de um erro na própria declaração, e a pessoa tiver a documentação correta, ela pode simplesmente fazer uma declaração retificadora e reenviar as informações, resolvendo o problema.
Por outro lado, se a documentação do contribuinte estiver correta e o erro estiver na base de dados — por exemplo, por informação incorreta enviada por uma fonte pagadora, empregadora ou banco —, então é necessário entrar em contato com essa empresa ou instituição para solicitar a correção dos dados junto à Receita Federal.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:
Conheça o tributarista Edemir Marques de Oliveira

O advogado e tributarista Edemir Marques de Oliveira é especialista em questões tributárias e consultor de estratégias em tax assistance para executivos expatriados, com atuação em diversas entidades profissionais do setor.
Com ampla experiência na área fiscal, atuou entre 1992 e 2003 na área de impostos da Directa, representante no Brasil da BDO Global, onde chegou ao cargo de diretor. No período seguinte, entre 2004 e 2006, esteve à frente da área de impostos e taxas do escritório Parededa, Castro, Duarte e Martins Advogados.
Após essa etapa, passou a se dedicar exclusivamente à sua própria consultoria jurídica, com foco em planejamento tributário e assessoria especializada a contribuintes e empresas.


