A abertura da APAS Show, principal evento do setor supermercadista do país, serviu neste ano como palco para uma ampla demonstração de força política do varejo alimentar. Em um discurso que combinou recados ao Congresso, cobranças ao governo federal e defesa de mudanças regulatórias consideradas estratégicas para o setor, o presidente da Associação Brasileira de Supermercados, João Galassi, apresentou uma agenda que vai muito além das gôndolas e alcança temas centrais da economia, como relações de trabalho, consumo, segurança alimentar e inflação.
Ao longo da fala, Galassi buscou consolidar a imagem do supermercadista como um agente central da economia brasileira — não apenas no abastecimento, mas também nos debates sobre trabalho, crédito, segurança e consumo popular. Em um ambiente de desaceleração econômica, pressão inflacionária sobre alimentos e avanço de pautas trabalhistas no Congresso, a Abras sinaliza que pretende ampliar sua atuação política e regulatória nos próximos meses.
Flexibilização da jornada e defesa da “PEC do Horista”
O eixo principal do discurso foi a defesa da flexibilização das regras trabalhistas diante do avanço, no Congresso, das discussões sobre o fim da escala 6×1. Embora tenha declarado apoio ao modelo 5×2, Galassi fez questão de diferenciar a mudança da redução da carga horária semanal. Segundo ele, manter as atuais 44 horas é fundamental para preservar empregos, garantir o funcionamento de atividades essenciais e evitar pressão adicional sobre pequenos empresários.
“A pauta não é do setor, é do país”, afirmou, ao argumentar que supermercados operam em uma dinâmica distinta da maior parte da economia, com funcionamento contínuo e alta dependência de mão de obra.
A manifestação ocorre em meio ao fortalecimento das pressões por revisão da jornada de trabalho no Brasil. Enquanto centrais sindicais e parlamentares ligados à pauta trabalhista defendem a redução das horas semanais sem perda salarial, entidades empresariais intensificam o discurso de cautela, sustentando que mudanças abruptas poderiam elevar custos operacionais e pressionar preços ao consumidor.
Galassi tentou ocupar um espaço intermediário nesse debate. Defendeu uma transição longa — entre seis e dez anos — para qualquer mudança estrutural no modelo de jornada e associou a discussão à chamada “PEC do Horista”, proposta que prevê contratações por carga horária reduzida.
Na visão da Abras, o modelo permitiria incorporar milhões de trabalhadores hoje na informalidade, especialmente motoristas de aplicativo e entregadores, ao sistema formal de trabalho. Ao citar os mais de 5 milhões de trabalhadores ligados a plataformas digitais, o dirigente argumentou que a legislação trabalhista brasileira já não acompanha as transformações do mercado.
Para o varejo, a flexibilização passou a ser vista como uma resposta simultânea à escassez de mão de obra, ao aumento de custos e à necessidade de ampliar serviços.
Pressão por mudanças no PAT, vale-alimentação e vale-refeição
O segundo tema mais enfatizado pelo presidente da Abras foi a modernização do Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT), especialmente nos mecanismos de vale-alimentação e vale-refeição.
A entidade vem ampliando a pressão sobre o governo federal para rever o modelo atual, criticado pelo setor por favorecer concentração de mercado e impor custos elevados ao varejo.
“Benefício tem que beneficiar quem trabalha”, disse Galassi.
Nos bastidores, a disputa em torno do PAT se tornou uma das mais relevantes para o setor supermercadista nos últimos anos. Redes varejistas defendem maior interoperabilidade entre bandeiras, ampliação da concorrência e liberdade de escolha para o consumidor, enquanto empresas do segmento de benefícios resistem a mudanças mais profundas.
Em um cenário de renda comprimida e consumo mais sensível ao preço dos alimentos, a revisão do sistema é tratada pelo varejo como uma medida capaz de alterar a dinâmica de consumo no país.
Farmácia completa nos supermercados ganha novo impulso
Galassi também voltou a defender uma pauta histórica da Abras: a autorização para instalação de farmácias completas dentro de supermercados. A proposta, alvo recorrente de resistência por parte do setor farmacêutico, ganhou novo impulso com o avanço dos modelos de conveniência e das lojas multifuncionais.
Segundo o dirigente, supermercados já cumprem papel estratégico de acesso e proximidade, especialmente em regiões com menor cobertura farmacêutica. A ideia é associar a pauta à ampliação de serviços ao consumidor e à praticidade de resolver necessidades cotidianas em um único local.
Para as redes, a medida também representa uma oportunidade de ampliar rentabilidade em um ambiente de margens cada vez mais pressionadas.
Outras demandas do setor
O presidente da Abras endureceu o tom ao abordar o avanço dos furtos no varejo e defendeu sistemas integrados de identificação de criminosos, afirmando que “quem paga pela insegurança é o consumidor”.
Galassi citou o cenário americano como exemplo de deterioração provocada pelo aumento dos furtos em lojas e afirmou que o Brasil precisa agir antes que o problema alcance dimensão semelhante.
A defesa do endurecimento da legislação e da integração de dados entre estabelecimentos comerciais vem sendo uma das prioridades da entidade no Congresso, sobretudo diante do aumento das perdas operacionais registrado pelo setor nos últimos anos.
Outro ponto do discurso foi a crítica ao atual sistema de multas aplicadas ao varejo. Segundo Galassi, as penalidades são frequentemente desproporcionais e acabam comprometendo operações inteiras por irregularidades pontuais.
O dirigente citou casos em que multas milionárias seriam aplicadas com base no faturamento total das empresas, independentemente da dimensão do problema identificado.
Para a Abras, a fiscalização é necessária, mas precisa obedecer critérios mais técnicos e proporcionais.
Na reta final da apresentação, Galassi chamou atenção para o aumento do endividamento dos trabalhadores após a expansão do crédito consignado privado.
Segundo ele, o percentual de colaboradores endividados no setor teria saltado de 20% para 50%, cenário que levou a entidade a discutir limites mais rígidos para juros junto ao Ministério do Trabalho.
A Abras defende mecanismos semelhantes aos modelos subsidiados aplicados ao crédito rural, argumentando que o consignado privado precisa funcionar como instrumento de proteção financeira — e não como vetor de comprometimento excessivo da renda.
Houve ainda espaço para uma cobrança direta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Galassi criticou o veto ao trecho da lei de doação de alimentos que previa incentivos fiscais para empresas doadoras, afirmando que a medida compromete justamente a escala necessária para ampliar o combate ao desperdício e à insegurança alimentar.
Segundo ele, o incentivo tributário seria decisivo para estimular a participação das empresas e ampliar o alcance das entidades que atuam na distribuição de alimentos.
A APAS Show reuniu autoridades como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, além de representantes do governo federal e lideranças empresariais, reforçando o papel do evento como um dos principais fóruns de articulação do setor.



