O presidente Lula e o governador Tarcísio posam para fotos após anúncio no Porto de Santos. (Foto Agência Gov)


Possíveis adversários na eleição de 2026 à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), se encontraram nesta quinta-feira (27) na baixada santista para disputar protagonismo numa obra que desafia o tempo (mais de um século) e os políticos: a construção do túnel submerso que ligará Santos ao Guarujá.

A obra foi prometida há dois anos por Lula, mas o governador viajou rapidamente a Brasília e pediu que ela fosse realizada em conjunto por São Paulo e o governo federal. Lula topou na hora a divisão de custos e obras.

Reprodução da capa do jornal de Santos de 1927 que traz reportagem sobre o túnel nunca construído. (Reprodução)

O túnel vai custar, em valores de hoje, R$ 6 bilhões, terá extensão de 860 metros entre as duas cidade, e será construído a uma profundidade de 21 metros no canal no mar que separa Santos de Guarujá.

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Lula insiste que trata Tarcísio não como adversário, mas como o chefe do Poder Executivo do estado mais importante do país.

No evento desta quinta-feira, numa cerimônia no Parque Valongo, no Porto de Santos, o presidente disse que essa relação com o governador de São Paulo “civilizada”, além de ser uma parceria “histórica”, que é o compromisso dos governantes em atender bem a população, independentemente da visão política de cada um.

“Eu quero trazer o Brasil à normalidade. A normalidade é a relação civilizada entre os entes federados, entre prefeito, governadores, presidente da República, deputados federais. Essa é uma relação civilizada. Outra vez, ninguém precisa concordar com ninguém”, disse.

O Lula continuou: “Nós fomos eleitos para compartilhar o nosso esforço e fazer com que o povo sinta prazer em ser governado por alguém que está preocupado por ele”.

O governador Tarcísio de Freitas destacou, em pronunciamento, que o túnel é esperado e debatido pelos moradores da região desde o início do século passado. Ele citou diversas intervenções que já foram feitas e outras que estão programadas em preparação para a obra, a qual chamou de “cereja do bolo”.

“Há quem diga que a primeira vez que se falou no Túnel Santos-Guarujá foi em 1924. Portanto, 101 anos atrás, para que hoje a gente publicasse o edital”, disse, agradecendo ao presidente que “colocou esse turno como prioridade”.

Apesar da “rasgação de seda” Lula e Tarcísio, o evento em Santos também teve vaias contra o governador, além de um coro de “sem anistia” e menções à tentativa de golpe para reverter o resultado das eleições de 2022. Tarcisio tenta se equilibrar entre agradar Jair Bolsonaro, de quem deve a vitória ao governo paulista na eleição de 2022, e manter uma relação republicana com políticos adversários.

Tarcísio foi também ministro de Jair Bolsonaro (PL) e, com o aliado inelegível, é um dos cotados para disputar a Presidência em 2026 pelo campo da direita. Lula poderá disputar a reeleição no ano que vem.

Na solenidade, o governador sentou-se na primeira fileira do evento, ao lado de Lula. Em duas ocasiões, a plateia cantou o coro “sem anistia”, em referência ao perdão discutido no Congresso aos manifestantes golpistas que invadiram e depredaram prédios públicos no 8 de janeiro. Tarcísio já defendeu a anistia publicamente.

O ministro da Casa Civil, Rui Costa (PT), e o vice-presidente, Geraldo Alckmin (PSB), também trataram em seus discursos das revelações sobre tentativa de golpe para reverter o resultado das eleições de 2022.

Nesta semana, Tarcísio classificou como “forçação de barra” e “revanchismo” a denúncia que implicou Bolsonaro no crime.

“Enquanto alguns maquinavam o assassinato de seus adversários, Lula promove o diálogo e estende as mãos em benefício do povo e do desenvolvimento do Brasil”, afirmou Alckmin, que, segundo a Polícia Federal, teve sua morte tramada por militares golpistas.

Em sua fala, Lula disse que a fotografia tirada nesta quinta-feira talvez marque um novo momento para o Brasil. E afirmou a Tarcísio que ele está “fazendo história” com as parcerias que estão construindo.

“Pode ficar certo que o povo compreende o que está acontecendo. Tem gente do lado do Tarcísio que não gosta de vê-lo do meu lado. Tem gente do meu lado que não gosta de me ver do teu lado. Temos que ter consciência que só temos um lado: atender bem o povo de São Paulo e do Brasil.”

O presidente disse ainda que aquele momento representava uma promessa de campanha: trazer o Brasil de volta à normalidade. “Não fomos eleitos para brigar, fomos eleitos para compartilhar nosso esforço e fazer com que o povo sinta prazer em ser governado por alguém preocupado com ele”, afirmou.

Tarcísio agradeceu a Lula por ter colocado o túnel como prioridade. Mencionou uma ocasião, em meio às conversas sobre o projeto, em que o presidente disse que não era hora de discussão política, porque precisavam atender o cidadão.

O governador afirmou que esse momento mostra que “é possível sentar na mesa e construir”. “As diferenças têm que ser deixadas de lado para que a gente chegue num consenso e possa atender a população”, disse.

Tarcísio foi vaiado duas vezes ao mencionar investimentos na região feitos pela Sabesp, privatizada em sua gestão. Na primeira delas, Lula levantou as mãos em um gesto de lamento.

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos), foi um dos que exaltaram o diálogo entre Lula e Tarcísio. Pressionado por bolsonaristas a pautar a anistia do 8 de janeiro, afirmou que buscará a convergência à frente da Casa.

“Nosso povo cansou de conflitos, não quer mais radicalismo, não aguenta mais viver numa tensão que só faz mal a nós mesmos”, disse.

“Enquanto presidente da Câmara fiz questão de estar pessoalmente aqui para dizer que à frente daquela Casa Legislativa vamos tentar replicar esse momento de convergência na pauta da Casa.”

A construção do túnel Santos-Guarujá chegou a gerar desconforto entre as gestões Lula e Tarcísio. Inicialmente, o governo federal pretendia construir o túnel por meio de obra pública, com verbas da União, do estado e da Autoridade Portuária de Santos.

Depois, porém, a Autoridade Portuária sinalizou que dispensaria a participação do governo estadual no projeto. A instituição é vinculada ao Ministério de Portos e Aeroportos, dirigido por Silvio Costa Filho (Republicanos), colega de partido de Tarcísio.

O governador ficou incomodado com a tentativa de escanteamento, argumentando a aliados que ele havia tocado o projeto enquanto ministro da Infraestrutura de Jair Bolsonaro. Tarcísio foi então ao Planalto para conversar diretamente com Lula e selar um acordo de parceria para a construção do túnel.

Local onde vai ser construído o túnel subterrâneo entre Santos e Guarujá. (Foto Agência Gov)