Trump falou o que quis, fez ameaças a países amigos, usará a taxação de produtos como política econômica. (Reprodução TV)


O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, causou grande expectativa na segunda-feira (3), véspera de seu primeiro discurso no Congresso norte-americano a deputados e senadores, ao anunciar por meio de sua rede social que iria fazer grandes revelações ao povo norte-americano.


Porém, seu discurso de 1h40 minutos foi mais do mesmo, com uma mistura de mentiras e alucinações, ameaças e auto elogios, além, é claro, de culpar o ex-presidente Joe Biden pelo aumento no preço dos ovos.


Os parlamentares do bloco republicano o aplaudiram, mas os democratas o vaiaram. Houve até um deputado, Al Green, democrata texano, que protestou contra o presidente e foi expulso da sessão.

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Veja a seguir os principais pontos do discurso de Dionald Trump:

GUERRA COMERCIAL – DONALd Trump começou seu discurso falando detalhadamente sobre a decisão de promover uma guerra comercial contra países alinhados e/ou economicamente relevantes fornecedores de produtos para os americanos.


Discorreu sobre as tarifas de 25% sobre o México e o Canadá, e mais 10% sobre as importações chinesas.


Trump minimizou as potenciais consequências econômicas da guerra comercial, apesar de analistas de mercado afirmarem que as medidas tributárias do governo americano serão potenciais geradoras de inflação, pois causarão aumento generalizado de preços e serviços.

“As tarifas são sobre tornar a América rica novamente e tornar a América grande novamente”, declarou em discurso Trump. “E está acontecendo. E vai acontecer bem rápido. Haverá uma pequena perturbação, mas estamos bem com isso. Não será muito.”

SOBRE O BRASIL – Trump fez uma menção ao Brasil: “Em média, a União Europeia, China, Brasil, Índia, México, Canadá e inúmeras outras nações nos cobram tarifas muito mais altas do que cobramos deles, o que é extremamente injusto”.


Segundo o presidente norte-americano, as tarifas recíprocas aos parceiros comerciais dos EUA entrarão em vigor em 2 de abril.


“No dia 2 de abril, entram em vigor tarifas recíprocas, e qualquer tarifa que nos impuserem, nós também imporemos a eles… qualquer imposto que nos cobrarem, nós os taxaremos. Se usarem barreiras não monetárias para nos manter fora de seus mercados, então usaremos barreiras não monetárias para mantê-los fora do nosso mercado”.

AMEAÇA À GROENLÂNDIA -Trump disse no discurso: “Esta noite também tenho uma mensagem para o povo incrível da Groenlândia”. “Apoiamos fortemente o seu direito de determinar seu futuro. E se escolherem fazer isso, nós os receberemos nos Estados Unidos”, disse Trump, em um aceno aos 56 mil habitantes do país, a maioria do povo Inuit.


A ilha, a maior do mundo, é um território autônomo da Dinamarca.


Em outras ocasiões, Trump havia dito que a Dinamarca deve desistir de interferir no território para, em suas palavras, “proteger o mundo livre”.


Ele voltou a falar sobre o assunto no discurso no Congresso.


“Precisamos da Groenlândia para a segurança nacional e até mesmo para a segurança internacional. Estamos trabalhando com todos os envolvidos para tentar obtê-la. Realmente precisamos dela para a segurança global e acho que vamos obtê-la. Vamos obtê-la de um jeito ou de outro”, disse ele no Capitólio.


“Nós os manteremos seguros. E os faremos ricos.”


A Groenlândia é de importância estratégica para os EUA, pois fica na rota mais curta para a Europa. Além disso, contém reservas significativas de minerais e petróleo.

SOBRE UCRÂNIA E ZELENSKY – O presidente Trump disse que recebeu uma “carta importante” do líder da Ucrânia, no início de terça-feira, que parecia corresponder ao que Volodymyr Zelensky postou publicamente nas redes sociais.


O presidente da Ucrânia disse que estava pronto para trabalhar sob a “forte liderança” de Trump para acabar com a guerra e “ir à mesa de negociações o mais rápido possível para trazer uma paz duradoura mais perto”. “Agradeço que ele tenha enviado esta carta”, disse Trump aos parlamentares americanos.


Zelensky aceitou os termos americanos um dia depois de Trump suspender toda a ajuda militar ao sitiado aliado dos EUA.


Isso ocorreu após uma reunião acalorada na Casa Branca na semana passada, quando os dois líderes discutiram diante das câmeras de TV, antes de cancelar os planos de assinar um acordo de minérios que permitiria aos EUA lucrar com uma parceria econômica envolvendo os recursos naturais da Ucrânia.


Analistas diziam que Trump esperava anunciar durante seu discurso ao Congresso que o acordo havia sido finalmente fechado. Mas isso não aconteceu.

AGRADECIMENTO A ELON MUSK – Trump fez uma menção especial ao bilionário Elon Musk, que estava assistindo da galeria, no início de seu discurso.


Musk lidera a força-tarefa do recém-criado Departamento de Eficiência Governamental (Doge, na sigla em inglês) que demitiu dezenas de milhares de servidores públicos e cortou bilhões de dólares em ajuda externa e em programas em todo o governo federal.


O empresário da SpaceX e da Tesla, vestindo um terno escuro com uma gravata azul, levantou-se para receber aplausos da plateia de parlamentares.


“Obrigado, Elon”, disse o presidente. “Ele está trabalhando muito duro. Ele não precisava disso.”


Trump continuou listando alguns exemplos de gastos desnecessários que ele disse terem sido eliminados pela iniciativa de corte de custos de Musk, provocando risos dos republicanos.


“Oito milhões de dólares para promover LGBTQI+ na nação africana de Lesoto, da qual ninguém nunca ouviu falar”, disse Trump.


Os parlamentares democratas seguraram cartazes dizendo “Musk rouba” e “mentira”.


O Doge afirma já ter economizado US$ 105 bilhões, mas esse número não pode ser verificado de forma independente. Dados foram publicados mostrando economias de US$ 18,6 bilhões, mas erros contábeis foram relatados por veículos de imprensa dos EUA que analisaram os números.

AS VAIAS DOS DEMOCRATAS – Nos primeiros cinco minutos do discurso, o deputado democrata Al Green, do Texas, foi escoltado para fora da Câmara após se recusar a cumprir as exigências do presidente da Câmara de parar de importunar o presidente, tomando seu assento.
Enquanto Trump falava, outros democratas seguravam cartazes dizendo “Isso é mentira”.


Com os republicanos no controle da Casa Branca, Câmara dos Representantes e Senado, os democratas ainda não têm uma liderança clara no partido para tentar conter a onda de medidas do governo Trump.


Muitas mulheres democratas chegaram à Câmara vestindo terninhos rosa em protesto. Dezenas de seu partido — algumas delas usando as palavras “Resista” impressas nas costas de suas camisas — deixaram a Câmara durante o discurso do presidente.


“Não há absolutamente nada que eu possa dizer para fazê-los felizes”, disse Trump, aparentemente feliz com o rancor dos democratas.
A liderança democrata escolheu Elissa Slotkin — senadora de primeiro mandato do Michigan, Estado em que a vitória eleitoral de Trump foi relativamente apertada — para entregar a resposta oficial do partido às políticas do governo.


Ela acusou Trump de uma “doação sem precedentes para seus amigos bilionários” e alertou que “ele poderia nos levar direto para uma recessão”.

IMIGRAÇÃO PERSEGUIDA – Durante o discurso, Trump anunciou que renomeou um refúgio de vida selvagem do Texas em homenagem a uma garota de Houston que foi supostamente morta por imigrantes indocumentados.


Jocelyn Nungaray, de 12 anos, foi encontrada morta em junho de 2024 após ser dada como desaparecida. Alexis Nungaray, sua mãe, foi convidada pela primeira-dama Melania Trump a assistir ao discurso do presidente.


Na sua posse, em janeiro, Trump prometeu que seu governo começaria a deportar “milhões e milhões” de imigrantes com antecedentes criminais.


O número de migrantes cruzando ilegalmente a fronteira sul caiu no mês passado para o menor nível em pelo menos 25 anos.


Mas o presidente republicano teria ficado frustrado com o ritmo das remoções, que até agora não conseguiram superar os números de deportados durante o último ano de seu antecessor, Joe Biden.

OVOS E BIDEN – O aumento do custo dos ovos tem sido manchete nas últimas semanas nos EUA. Trump — que prometeu aos eleitores que acabaria com a inflação — deixou claro quem ele considerava responsável.


“Como vocês sabem, herdamos, da última administração, uma catástrofe econômica e um pesadelo de inflação”, disse Trump.
“Joe Biden, especialmente, deixou o preço dos ovos sair do controle — e estamos trabalhando duro para baixá-lo novamente.”


Os preços dos ovos dispararam sob Biden, pois seu governo ordenou que milhões de aves fossem abatidas no ano passado em meio a um surto de gripe aviária. Os preços continuaram subindo no começo da presidência de Trump.


A inflação anual subiu ligeiramente para 3% no mês passado, mas bem abaixo do pico de 9,1% em 2022.


Apenas um em cada três americanos aprova a forma como Trump lida com o custo de vida, de acordo com uma pesquisa da Reuters/Ipsos divulgada na terça-feira.

Afinal, o que quer Elok Musk?

Nos últimos dois meses, o bilionário da tecnologia dedicou seu tempo para promover o partido de extrema-direita da Alemanha em pelo menos duas dúzias de publicações na sua plataforma X, entrevistou o líder partidário e disse a seus 219 milhões de seguidores que essa era a “única esperança” para o país.


O apoio de Musk para o partido Alternativa para a Alemanha (AfD) teve pouca influência no impressionante segundo lugar do partido na eleição de 23 de fevereiro, segundo uma análise da Reuters, com base em suas publicações e dados de pesquisas, além de entrevistas com analistas políticos.


O desgaste de Musk entre europeus, por seu alinhamento com grupos neonazistas e fascistas, lhe traz consequências no campo empresarial.
Os europeus começaram uma verdadeira campanha de boicote aos carros da Tesla após o bilionário se associar ao presidente Donald Trump e começar a “se intrometer” em assuntos locais da Europa.


Conforme dados revelados pelo Ministério da Transição Ecológica e Coesão Territorial da França, as vendas da Tesla despencaram 63% em relação ao mesmo período de 2024.


Já no caso da Alemanha, país onde a empresa de Musk tem uma fábrica, a queda nas vendas de novos carros em janeiro foi de 59,5%. Na Noruega, as vendas caíram 37,9% e no Reino Unido o número foi de 7,8%.


Além disso, Um incêndio em uma concessionária da Tesla, em Toulouse, no sul da França, destruiu 8 veículos e danificou outros 4 na noite de domingo (2). Segundo o Ministério Público francês, há indícios de que o incêndio tenha sido criminoso. O órgão abriu uma investigação para apurar o caso. A estrutura da concessionária não foi atingida pelas chamas.


As autoridades investigam se o ataque está relacionado a um eventual atentado pessoal contra Elon Musk, proprietário da Tesla. O episódio vem em um momento de crescente polarização política na Europa, com Musk expressando apoio a partidos de direita e ao aumento das tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre produtos da União Europeia.


Os europeus se perguntam: para o empresário mais rico do mundo, vale a pena desgastar seus negócios ao defender grupos de extrema direita, fascistas e neonazistas, num continente que foi justamente devastado por essas ideologias na Segunda Guerra Mundial?