Mulheres operárias no Brás, em São Paulo, uma época de quase nenhum direito. (Foto Acervo Histórico)


Desde 1900, as mulheres no Brasil vem, com muita luta e determinação, conquistaram direitos fundamentais que transformaram sua posição na sociedade. Mas ainda há muito o que conquistar.

Em 1932, o direito ao voto foi garantido pelo Código Eleitoral, e em 1934, a Constituição incorporou o voto feminino, ainda que facultativo. A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), de 1943, trouxe proteções como licença-maternidade e estabilidade no emprego durante a gestação.

Na década de 1960, a introdução da pílula anticoncepcional marcou um avanço na autonomia feminina. Em 1988, a Constituição Federal consolidou a igualdade de direitos entre homens e mulheres, proibindo discriminações salariais e garantindo proteção contra violência doméstica. A Lei Maria da Penha, de 2006, foi outro marco, criando mecanismos para coibir a violência de gênero.

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Mais recentemente, em 2015, a Lei do Feminicídio classificou o assassinato de mulheres por razões de gênero como crime hediondo. Em 2021, a Lei Mariana Ferrer reforçou a proteção contra violência moral em julgamentos de crimes sexuais.

Essas conquistas refletem a luta contínua das mulheres por igualdade e justiça, moldando uma sociedade mais inclusiva e equitativa.

Ao longo desta postagem, o BRASIL CONFIDENCIAL vai tratar de vários tópicos da luta pelos direitos da mulher, quem são as mulheres que vêm ajudando a moldar um país tão diverso como esse Brasil. Boa leitura!

Dia da Mulher foi criado em 1910 na Dinamarca

Foi resultado de uma conferência de feminista

Clara Zektin, a precursora do movimento que gerou o dia da mulher. (Reprodução colorizada)

O Dia Internacional da Mulher foi oficialmente criado em 1910, durante a Segunda Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, realizada em Copenhague, na Dinamarca. A proposta, feita pela ativista Clara Zetkin, tinha o objetivo de promover os direitos das mulheres e reforçar suas lutas por igualdade, direitos trabalhistas e condições dignas de vida. Em 8 de março de 1917, mulheres trabalhadoras de São Petersburgo, na Rússia, realizaram manifestações decisivas para o início da Revolução Russa. Desde então, essa data tornou-se simbólica e foi oficializada pela ONU em 1975.

O Dia da Mulher visa ressaltar a importância da equidade de gênero e destacar as conquistas das mulheres nas esferas sociais, econômicas, culturais e políticas. No Brasil, a celebração começou a ganhar força na década de 1970, impulsionada pelos movimentos feministas e pelas lutas por direitos trabalhistas, bem como pela crescente conscientização acerca do papel da mulher na sociedade. Foi nesse período que a data começou a ser consolidada como um momento de reflexão e valorização das mulheres no país.

Brasil tem 1, 5% mais mulheres que homens

São cerca de 108 milhões, cujo papel tem sido cada vez mais relevante na sociedade

Atualmente, a população feminina brasileira é estimada em aproximadamente 108 milhões, representando cerca de 51,5% do total, superando levemente a população masculina. O papel da mulher na sociedade moderna é diverso e fundamental, englobando posições de liderança, participação política, protagonismo acadêmico e contribuição na força de trabalho, além de desempenhar funções cruciais no ambiente familiar.

Na história do Brasil, desde o descobrimento, as mulheres tiveram um papel significativo, muitas vezes invisibilizado. Desde as indígenas que cuidavam de suas comunidades, até figuras históricas que desafiaram normas sociais. Entre as mais importantes estão Anita Garibaldi, guerreira e heroína da Revolução Farroupilha; Nísia Floresta, precursora do feminismo e da educação feminina; e Tarsila do Amaral, expoente do modernismo. Na contemporaneidade, nomes como Maria da Penha, com sua luta contra a violência doméstica, e Marta, ícone do futebol feminino, também se destacam.

O Dia da Mulher, portanto, não é apenas uma celebração, mas também um convite para refletir sobre a trajetória, os desafios e as conquistas das mulheres, reafirmando a luta por igualdade e justiça.

Como é comemorado o Dia Internacional das Mulheres

Na China, o Dia da Mulher tem programação festiva em todo o país. (Foto Agência Xinhua)

O Dia Internacional das Mulheres é um feriado nacional em muitos países, incluindo a Rússia, onde as vendas de flores dobram durante três a quatro dias ao redor de 8 de março.

Na China, muitas mulheres recebem meio dia de folga no 8 de março, conforme recomendado pelo Conselho de Estado.

Na Itália, o Dia Internacional das Mulheres, ou La Festa della Donna, é comemorado com a entrega de botões de mimosa. A origem desta tradição não é clara, mas acredita-se que tenha começado em Roma após a Segunda Guerra Mundial.

Na Itália, o dia de hoje é celebrado em Florença pelas jovens italianas. (Foto Reprodução TV)

Nos EUA, março é o Mês da História das Mulheres. Todos os anos, um pronunciamento presidencial homenageia as conquistas das mulheres americanas. Com a Trump não se sabe se isso vai ocorrer.

CORES

Roxo, verde e branco são as cores do Dia Internacional das Mulheres.

Roxo significa justiça e dignidade. Verde simboliza esperança. Branco representa pureza, embora seja um conceito controverso. As cores se originaram da União Social e Política das Mulheres (WSPU, na sigla em inglês) no Reino Unido em 1908.

No Brasil, 2 de cada 10 mulheres já foram ameaçadas de morte por parceiros

A violência contra a mulher é um problema muito grave no país. (Foto Instituto Patrícia Galvão)

No Brasil, duas em cada dez mulheres (21%) já foram ameaçadas de morte por seus parceiros atuais ou ex-parceiros românticos, e seis em cada dez conhecem alguém que passou por essa situação. Em ambos os casos, as mulheres negras (afrodescendentes e mestiças) aparecem em maior proporção. Os dados provêm do estudo “Medo, ameaça e risco: percepções e vivências das mulheres sobre violência doméstica e feminicídio”, realizado pelo Instituto Patrícia Galvão e a empresa Consulting do Brasil.

O documento revela que seis em cada dez mulheres ameaçadas romperam com o agressor após a intimidação – uma decisão mais comum entre as vítimas negras do que entre as brancas. A pesquisa, contou com o apoio do Ministério das Mulheres e da deputada federal Luiza Erundina, do Partido Socialismo e Liberdade.

Embora 44% das vítimas tenham sentido um medo extremo, apenas 30% denunciaram à polícia e 17% solicitaram uma medida protetiva, mecanismo que ordena ao agressor manter-se afastado da vítima e proíbe seu contato com ela. Esses dados refletem outra realidade apontada na pesquisa: duas em cada três mulheres acreditam que os agressores de mulheres ficam impunes, e apenas um quinto considera que eles terminam na prisão.

Para a maioria das brasileiras (60%), a percepção de impunidade está relacionada ao aumento dos casos de feminicídio. Em um questionário online, respondido em outubro por 1.353 mulheres maiores de idade, 42% concordaram com a afirmação de que as mulheres ameaçadas de morte não acreditam que os agressores cumprirão suas ameaças, ou seja, não consideram que o risco de serem assassinadas seja real.

Ao mesmo tempo, 80% das entrevistadas opinam que, embora a rede de apoio às mulheres seja boa, não consegue cobrir toda a demanda.

Uma proporção similar destaca as campanhas para fomentar as denúncias e o uso de redes sociais como ferramentas poderosas para combater a violência.

Um dado também relevante é que 80% consideram que nem a justiça nem as autoridades policiais levam a sério as ameaças e denúncias formalizadas. Além disso, 90% acreditam que os casos de feminicídio aumentaram nos últimos cinco anos.

A trabalhadora doméstica Zilma Dias perdeu uma sobrinha em 2011. Não por causas naturais nem por acidente. Camila foi assassinada aos 17 anos por seu ex-companheiro, com quem teve uma filha e de quem tentava se separar. Como muitas vítimas, a jovem subestimou a possibilidade de que as agressões chegassem ao extremo. Ambas eram negras.

Quase todas as entrevistadas (89%) atribuem os feminicídios relacionados a parceiros atuais ou ex-parceiros aos ciúmes e à possessividade do agressor. Segundo Zilma, esse foi o caso de sua sobrinha. O agressor chegou a trancá-la em casa e, como é comum nos casos de violência doméstica, tentou isolá-la completamente, até mesmo de sua família, para que não tivesse a quem recorrer.

“Dizia que ele era um ‘mosca morta'”, comenta Zilma, explicando que sua sobrinha nunca avaliou seriamente o perigo que corria.

O assassino de Camila mudou-se de cidade após o crime, mas depois retornou e esperou o momento adequado para atacá-la. Quando a jovem passava por um cemitério, ele a matou com 12 facadas na frente de sua filha, Raíssa. O homem, de 25 anos, foi localizado após cometer outro delito, de falsificação de identidade. Foi condenado a 13 anos de prisão por feminicídio.

Zilma também foi vítima de violência doméstica, embora tenha conseguido escapar com vida. Durante sua relação, sofreu diferentes tipos de violência, desde psicológica até patrimonial. “Não sabia a quem recorrer. Deus me livre de chamar a polícia. Nem sequer contava à minha mãe que ele me batia. Quase todos os dias tinha feridas. Quando estava grávida, ele me batia. Chegou até a me acompanhar ao médico quando eu já tinha oito meses de gravidez, e eu estava cheia de hematomas. O médico me perguntou o que havia acontecido, e ele, ao meu lado, me ameaçava. Disse ao médico que havia caído”, lembra Zilma.

Até terminar a relação — algo que muitas vítimas temem por medo de serem assassinadas, como mostra o relatório do Instituto Patrícia Galvão —, Zilma perdoava seu ex. Essa sequência de pedidos de perdão, acompanhados de gestos amáveis por parte do agressor, seguidos do reinício das agressões, do agravamento destas e de sua consumação, é conhecida como “ciclo de violência” e explica por que muitas vítimas não conseguem rompê-lo e abandonar quem as agride.

A “gota d’água”, menciona Zilma, foi quando ele a agrediu pouco depois de se apresentar com uma amante na porta de sua casa e ser questionado por sua infidelidade.

Em 2014, outra sobrinha de Zilma entrou em contato com ela para contar uma notícia. O ex-companheiro da trabalhadora doméstica havia assassinado sua então parceira e a havia esquartejado. O caso apareceu na imprensa local. Ele foi condenado a cumprir 25 anos de prisão.

IBGE: Salário da mulher trabalhadora é sempre menor que o do homem

Operária atuando em linha de produção de indústria metalúrgica. (Foto Sindicato dos Metalúrgicos)

No Brasil, a desigualdade de gênero é uma realidade cruel. De acordo com o IBGE, em 2022, as mulheres brasileiras ganhavam, em média, apenas 78% do salário dos homens. E para as mulheres negras, a situação é ainda mais dramática: elas recebem apenas 44% do rendimento médio dos homens brancos.

Além disso, as mulheres negras são as mais vulneráveis ao desemprego, à informalidade e à pobreza extrema. E, segundo o Atlas da Violência de 2023, 61% das mulheres assassinadas no país são negras.

No entanto, há um dia no ano em que se tenta disfarçar essa realidade. No 8 de Março, Dia Internacional das Mulheres, as mulheres recebem flores, chocolates e homenagens em discursos vazios. Mas será que um dia de mimos pode apagar a exploração, o feminicídio e a desigualdade salarial?

A origem do Dia Internacional das Mulheres está fincada na insubmissão das operárias russas, que em 1917 ergueram suas vozes em Petrogrado. Mas a luta das mulheres negras no Brasil é diferente. Elas resistiram nos quilombos, empunharam a enxada na terra e hoje se apertam em barracos de lona e cimento nas favelas.

A luta das mulheres negras é uma luta contra a desigualdade, contra a exploração e contra o poder patriarcal. E é uma luta que precisa ser liderada pelas próprias mulheres negras.

O Movimento de Trabalhadoras e Trabalhadores por Direitos (MTD) é um exemplo disso. Majoritariamente composto por mulheres negras periféricas, o movimento luta por direitos e justiça social.

E no 8 de Março, o MTD vocifera: “Que todas nós estejamos vivas, livres e com direitos!” É um grito de luta, um grito de resistência e um grito de esperança.

As mulheres negras brasileiras são legadas de mulheres que não aceitaram a escravidão como destino. Dandara, Aqualtune, Luiza Mahin, Tereza de Benguela e Maria Felipa são apenas algumas das muitas mulheres negras que lutaram contra a opressão e pela liberdade.

E é essa luta que precisa ser lembrada e celebrada no 8 de Março. Não apenas com flores e chocolates, mas com ação, com luta e com resistência.

Maria da Penha, a vítima que inspirou a lei com nome de mulher

Maria da Penha Fernandes, vítima do próprio marido, ficou paraplégica. (Foto Divulgação)

Maria da Penha Maia Fernandes, nascida em 1º de fevereiro de 1945, em Fortaleza, Ceará, é uma farmacêutica e ativista brasileira que se tornou símbolo da luta contra a violência doméstica no Brasil. Atualmente com 80 anos, sua história de superação e coragem inspirou a criação da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), um marco na proteção às mulheres vítimas de violência.

Maria da Penha foi casada com o colombiano Marco Antonio Heredia Viveros, com quem teve três filhas. Durante o casamento, ela foi vítima de agressões físicas e psicológicas, culminando em duas tentativas de feminicídio. Em 1983, Marco Antonio atirou em Maria da Penha enquanto ela dormia, simulando um assalto. O disparo a deixou paraplégica. Após meses de internação e cirurgias, ao retornar para casa, ela foi mantida em cárcere privado e sofreu uma nova tentativa de assassinato, quando seu marido tentou eletrocutá-la durante o banho.

Esses episódios marcaram o fim do casamento e deram início a uma longa batalha judicial. Apesar das evidências, o caso demorou quase 20 anos para ser concluído, evidenciando a negligência do sistema judicial brasileiro em casos de violência doméstica. Em 2001, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos condenou o Brasil por omissão e ineficiência no julgamento do caso, o que impulsionou a criação de uma legislação específica.

A Lei Maria da Penha foi sancionada em 7 de agosto de 2006, estabelecendo medidas de proteção às mulheres, como a criação de juizados especializados e o aumento das penas para agressores. Além disso, a lei promove políticas públicas de prevenção e assistência às vítimas.

Maria da Penha fundou o Instituto Maria da Penha, que oferece suporte jurídico e psicológico às mulheres, e continua atuando como palestrante e ativista. Sua história não apenas trouxe visibilidade à violência doméstica, mas também inspirou milhares de mulheres a denunciarem seus agressores e lutarem por seus direitos. Seu legado é um exemplo de resiliência e transformação social.

O Instituto Maria da Penha (IMP) está localizado em Fortaleza, Ceará, com sede no bairro Edson Queiroz. O endereço é Rua Francisco Segundo da Costa, 87, Sala 04, CEP 60811-650. Para contato, os telefones disponíveis são +55 (85) 4102-5429 e +55 (85) 98897-6096.

O Instituto presta diversos tipos de atendimento, incluindo:

  • Orientação e suporte: Oferece apoio jurídico e psicológico para mulheres vítimas de violência doméstica.
  • Educação e conscientização: Promove palestras, workshops e cursos voltados para a prevenção da violência de gênero.
  • Projetos sociais: Desenvolve ações para empoderar mulheres e combater a violência doméstica, além de monitorar a aplicação da Lei Maria da Penha.
    Maria da Penha Maia Fernandes é a fundadora e presidente vitalícia do Instituto. Ela desempenha um papel essencial como símbolo de luta contra a violência doméstica e inspiração para as ações da organização. Sua história pessoal é a base para o trabalho do IMP, que busca transformar a sociedade por meio de conscientização e empoderamento feminino.

Atualmente, Maria da Penha continua ativa como palestrante e ativista, compartilhando sua experiência e promovendo a defesa dos direitos das mulheres. Sua vida é dedicada a garantir que outras mulheres não passem pelo que ela enfrentou, sendo um exemplo de resiliência e transformação social.

Violência contra a mulher: uma epidemia nacional

Cartaz de campanha institucional sobre a violência contra a mulher no Brasil. (Reprodução)

A violência contra a mulher no Brasil continua sendo um grave problema social, com dados alarmantes registrados em 2024. Segundo o Atlas da Violência, o país contabilizou um aumento significativo nos casos de violência doméstica e feminicídios. Em 2024, foram registrados 1.463 feminicídios, o maior número desde a criação da lei que tipifica esse crime, em 2015. Isso equivale a uma mulher assassinada a cada seis horas, evidenciando a persistência da desigualdade de gênero e da violência baseada em relações de poder.

Os estados com as maiores taxas de feminicídio incluem Mato Grosso, Acre e Rondônia, enquanto São Paulo e Ceará apresentaram os menores índices. No entanto, especialistas apontam para subnotificações em algumas regiões, o que pode mascarar a real dimensão do problema.

O contexto dessa violência está enraizado em questões culturais e estruturais, como a desigualdade de gênero, a normalização de comportamentos abusivos e a falta de políticas públicas efetivas. Apesar de avanços legislativos, como a Lei Maria da Penha e o Pacote Antifeminicídio, que aumentou as penas para crimes de gênero, a implementação dessas medidas ainda enfrenta desafios, como a falta de recursos e de integração entre os órgãos de proteção.

Outro ponto crítico é o acesso limitado a serviços de apoio, como delegacias especializadas, que muitas vezes não funcionam 24 horas, deixando vítimas desassistidas em momentos de emergência.

A luta contra a violência de gênero no Brasil exige ações multissetoriais, que vão desde a educação para desconstruir estereótipos até o fortalecimento das redes de apoio e a ampliação de políticas preventivas. A sociedade civil também desempenha um papel crucial, com movimentos e organizações que denunciam a violência e pressionam por mudanças efetivas. Apesar dos desafios, a resistência e a mobilização das mulheres continuam sendo uma força transformadora na busca por uma sociedade mais justa e igualitária.

Estupros, latrocínios, furtos e tentativa de homicídio contra mulher – números em alta em SP

Vitória Regina de Sousa, desaparecida por uma semana, foi encontrada morta, nua, degolada e com os cabelos raspados em Cajamar, na Região Metropolitana de São Paulo.

Os crimes de estupros, latrocínios, furtos e tentativas de homicídio aumentaram em janeiro de 2025 no estado de São Paulo, em comparação ao mesmo mês de 2024.

Já os homicídios dolosos e a lesão corporal seguida de morte ficaram estáveis. O número de roubos caiu.

Os dados são os últimos divulgados pela Secretaria de Segurança Pública.

O número de estupros em janeiro foi de 1.286, 7,5% superior ao registrado no mesmo mês de 2024 (1.196). Do total, 979 casos foram estupros de vulneráveis.

As delegacias de Defesa da Mulher (DDM) registraram 22 feminicídios nas cidades paulistas em janeiro. No mesmo mês de 2024, foram 24 crimes.

O número de latrocínios subiu de 17, em janeiro do ano passado, para 18, no primeiro mês deste ano.

A quantidade de ocorrências de furtos, em janeiro, atingiu 48.026, 3,2% acima do registrado no mesmo mês de 2024. Os casos de furto de veículos subiram de 7.699 em janeiro de 2024 para 7.729 em janeiro deste ano.

As tentativas de homicídio tiveram elevação de 14,3%, com aumento de 278 casos em janeiro de 2024 para 318, no primeiro mês de 2025.

O registro de homicídios dolosos ficou estável, com 215 casos em janeiro, o mesmo número do primeiro mês de 2024, o menor patamar da série histórica, iniciada em 2001, para meses de janeiro.

Os casos de lesão corporal seguida de morte também ficaram estáveis, com sete casos em janeiro, o mesmo número do primeiro mês em 2024.

O número total de roubos caiu de 17.622 em janeiro de 2024 para 15.972, no primeiro mês de 2025. Essa é a menor marca em 24 anos para meses de janeiro.

No entanto, os roubos de veículos aumentaram de 2.291 de janeiro de 2024 para 2.312, em janeiro deste ano.

Ministra das Mulheres defende revisão no atendimento a vítimas de violência

Vanessa Ricarte, jornalista, assassinada pelo ex-noivo no Mato Grosdo do Sul. (Fotos Reprodução)

A ministra das Mulheres, Cida Gonçalves (foto), defende a necessidade de revisão das regras de funcionamento da Casa da Mulher Brasileira e de outros serviços especializados no atendimento à mulher.

Segundo ela, a partir deste mês de março, a ONU Mulheres – entidade da Organização das Nações Unidas dedicada à igualdade de gênero e ao empoderamento das mulheres – realizará uma avaliação das regras e procedimentos de atendimento das dez Casas da Mulher Brasileira existentes no país.

“A partir deste monitoramento, vamos reestabelecer quais regras têm que ser colocadas não apenas nos serviços da casa, mas em todos os serviços especializados [de atendimento às mulheres]”, declarou Cida.

A ministra foi questionada sobre o assassinato da jornalista e servidora do Ministério Público do Trabalho Vanessa Ricarte, de 42 anos, morta a facadas pelo ex-noivo, o músico Caio Nascimento, no último dia 12, em Campo Grande (MS). Nascimento foi preso em flagrante.

A capital sul-mato-grossense foi escolhida, em 2015, para abrigar a primeira Casa da Mulher Brasileira inaugurada para atender mulheres vítimas de violência, com a proposta de reunir, em um único espaço, todos os serviços especializados (delegacia, juizado, defensoria, promotoria, equipes psicossociais etc). Desde então, a cidade é apontada como uma referência em relação a este tipo de política pública.

O feminicídio de Vanessa repercutiu em todo o país, causando indignação que, para a ministra, deve-se não só “à gravidade do feminicídio, mas também às falhas no atendimento” que a jornalista recebeu na Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher (Deam) pouco antes de ser morta.

“[Antes de ir à delegacia] A Vanessa foi à Casa da Mulher Brasileira, onde passou pelo atendimento psicossocial e denunciou ter [sido mantida] em cárcere privado, impedida de sair de casa, por dois ou três dias”, narrou a ministra.

“[Na sequência,] ela foi à delegacia, onde, segundo a delegada, não falou [sobre a] gravidade do seu caso. E a delegada, na hora de dar [a Vanessa] a medida protetiva [contra Nascimento], mandou ela voltar para casa a fim de pegar suas roupas”, acrescentou Cida, assegurando que este não é o procedimento previsto na Lei Maria da Penha.

“A lei prevê que um oficial de Justiça ou a Patrulha Maria da Penha acompanhe a vítima até em casa. [O que não ocorreu] E ao ir em casa, a Vanessa foi assassinada”, disse a ministra, frisando que, ao deixar a delegacia, a jornalista enviou um áudio para uma amiga relatando o atendimento recebido.

“Durou quatro minutos. E ela disse ter sido mal atendida”, comentou Cida, elencando possíveis falhas no atendimento dispensado à jornalista.

“A primeira: se ela [Vanessa] já tinha dito [ao receber atendimento] psicossocial [na Casa da Mulher Brasileira, que foi mantida em cárcere privado], a delegada [que a atendeu na Deam] tinha que ter aberto o sistema [informatizado] para dar continuidade ao atendimento. E ela não fez isso. Logo, não viu a parte [em que Vanessa denunciou o] cárcere privado. [A delegada] também não deve ter nem perguntado, nem investigado o suficiente para que ela [Vanessa] tivesse liberdade [para repetir os detalhes da denúncia]”, concluiu a ministra.

Brasileiras que se destacam na Ciência do país

Mayana Zatz, cientista na área genética, uma das brasileiras mais respeitadas na área de pesquisas. (Foto Acervo Pessoal)

No Brasil, várias mulheres têm se destacado na área científica, contribuindo significativamente para o avanço do conhecimento em diversas disciplinas. Aqui estão algumas delas:

  1. Mayana Zatz: Geneticista renomada, Mayana é professora da Universidade de São Paulo (USP) e diretora do Centro de Pesquisa sobre o Genoma Humano e Células-Tronco. Ela é reconhecida por suas pesquisas em doenças genéticas e terapias com células-tronco.
  2. Suzana Herculano-Houzel: Neurocientista, Suzana é conhecida por seus estudos sobre o cérebro humano e sua capacidade cognitiva. Ela desenvolveu uma técnica inovadora para contar neurônios, revolucionando o campo da neurociência.
  3. Vanderlan Bolzani: Química e pesquisadora, Vanderlan é referência em produtos naturais e biotecnologia. Ela também é uma defensora ativa da inclusão de mulheres na ciência.
  4. Adriana Alves: Geóloga e professora da USP, Adriana é especialista em vulcanologia e trabalha para aumentar a representatividade de mulheres negras na ciência.
  5. Jaqueline Goes de Jesus: Biomédica, Jaqueline ganhou destaque por liderar a equipe que sequenciou o genoma do coronavírus em tempo recorde no Brasil, contribuindo para o combate à pandemia.
  6. Helena Nader: Biomédica e presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Helena é referência em estudos sobre glicobiologia e tem contribuído para o avanço da ciência no Brasil.
  7. Lydia Beatriz Ferreira: Cirurgiã plástica e pesquisadora, Lydia é reconhecida por suas contribuições na área de regeneração tecidual e medicina regenerativa.
  8. Luciana Gatti: Pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Luciana é especialista em mudanças climáticas e no impacto do desmatamento da Amazônia sobre o aquecimento global.
  9. Angela Wyse: Bioquímica e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Angela é conhecida por suas pesquisas em neuroquímica e doenças neurodegenerativas.
  10. Sônia Guimarães: Física e professora do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Sônia é pioneira como a primeira mulher negra a se tornar doutora em Física no Brasil, inspirando novas gerações.

A trajetória de mulheres pioneiras em diversas áreas no país

Celina, a primeira mulher eleitora do Brasil, inspira campanha até hoje. (Reprodução)

Primeira mulher eleitora: Celina Guimarães Viana foi a primeira mulher a se registrar como eleitora no Brasil, em 1928, na cidade de Mossoró, Rio Grande do Norte. Isso foi possível graças à Lei Estadual nº 660, que permitiu o voto feminino no estado. Sua ação foi um marco para a inclusão das mulheres na política nacional.

Bertha Lutz: Cientista e feminista, ela liderou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. (Reprodução)

Luta pelo direito ao voto: Bertha Lutz foi uma das principais líderes do movimento sufragista no Brasil. Cientista e feminista, ela liderou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, que pressionou pela inclusão do voto feminino no Código Eleitoral de 1932, durante o governo de Getúlio Vargas.

Primeira mulher eleita para um cargo político: Alzira Soriano foi eleita prefeita de Lajes, no Rio Grande do Norte, em 1928, tornando-se a primeira mulher a ocupar um cargo executivo na América Latina. Sua eleição foi um marco, mesmo antes do sufrágio feminino ser garantido nacionalmente.

Primeira mulher oficial nas Forças Armadas: Dalva Mendes foi a primeira mulher a alcançar o posto de oficial-general nas Forças Armadas do Brasil, em 2012. Sua conquista simboliza a luta pela igualdade de gênero em um ambiente historicamente dominado por homens.

Primeira mulher presidente de uma empresa no Brasil: Tarciana Medeiros fez história ao se tornar a primeira mulher a presidir o Banco do Brasil, em 2023. Sua trajetória reflete a crescente presença feminina em posições de liderança no setor corporativo.

Primeira mulher reitora de universidade pública: Maysa Furlan assumiu, em 2025, o cargo de reitora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), sendo a primeira mulher a ocupar essa posição na instituição. Sua gestão é marcada pelo compromisso com a diversidade e a inclusão.

Escritoras que fizeram e fazem história no Brasil

Esta é uma lista parcial; o número delas é significamente maior

Esta é uma lista parcial de mulheres que se tornaram destaque na literatura nacional de todos os tempos:

Maria Firmina dos Reis (1822–1917): Considerada a primeira romancista brasileira, publicou Úrsula (1859), um dos primeiros romances abolicionistas do Brasil. Sua obra é pioneira na denúncia da escravidão.

Nísia Floresta (1810–1885): Escritora e educadora, foi uma das primeiras feministas do Brasil. Sua obra Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens (1832) é um marco no pensamento feminista.

Cecília Meireles (1901–1964): Poetisa renomada, autora de Romanceiro da Inconfidência (1953). Sua poesia é marcada por lirismo e profundidade filosófica.

Clarice Lispector, cuja obra tem ganhado fãs no exterior quase meio século após sua morte. (Foto Acervo)

Clarice Lispector (1920–1977): Uma das maiores escritoras do século XX, conhecida por A Hora da Estrela (1977) e Perto do Coração Selvagem (1943). Sua escrita introspectiva revolucionou a literatura brasileira.

Carolina Maria de Jesus (1914–1977): Autora de Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada (1960), trouxe à tona a realidade das favelas brasileiras, sendo uma voz importante da literatura marginal.

Rachei de Queiroz, primeira mulher a integrar a Academia Brasileira de Letras, quebrando a hegemonia masculina da ABL. (Foto Acervo)

Rachel de Queiroz (1910–2003): Primeira mulher a integrar a Academia Brasileira de Letras, escreveu O Quinze (1930), obra que retrata a seca no Nordeste.

Lygia Fagundes Telles (1923–2022): Autora de As Meninas (1973), explorou temas como política, feminismo e relações humanas. Foi indicada ao Prêmio Nobel de Literatura.

Cora Coralina (1889–1985): Poetisa e contista, destacou-se com Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais (1965), valorizando a cultura e o cotidiano do interior brasileiro.

Hilda Hilst (1930–2004): Escritora e poetisa, conhecida por obras como A Obscena Senhora D (1982). Sua literatura é marcada por experimentalismo e profundidade psicológica.

Adélia Prado (1935–): Poetisa e prosadora, autora de Bagagem (1976). Sua obra reflete a espiritualidade e o cotidiano com sensibilidade única.

Marina Colasanti (1937–2025): Escritora e ilustradora, conhecida por Eu Sei, Mas Não Devia (1979). Suas obras abordam temas como feminismo e relações humanas.

Conceição Evaristo (1946–): Escritora contemporânea, autora de Ponciá Vicêncio (2003). Sua literatura dá voz à experiência da mulher negra no Brasil.

Zélia Gattai (1916–2008): Escritora e memorialista, autora de Anarquistas, Graças a Deus (1979). Suas obras geralmente retratam memórias pessoais e histórias familiares com um olhar atento sobre a imigração e as mudanças sociais no Brasil.

Dinah Silveira de Queiroz (1911–1982): Autora de A Muralha (1954), um romance histórico que narra a colonização do Brasil. Sua literatura explora momentos marcantes da história brasileira.

Tatiana Belinky (1919–2013): Conhecida por suas adaptações de clássicos para crianças e jovens, como Os 12 Trabalhos de Hércules. Sua obra contribuiu imensamente para a literatura infantojuvenil.

Ruth Rocha (1931–): Escritora infantojuvenil, autora de Marcelo, Marmelo, Martelo (1976), suas histórias são amadas por gerações de crianças e oferecem reflexões sobre valores e cidadania.

Lygia Bojunga (1932–): Autora premiada com o Hans Christian Andersen Award, suas obras como A Bolsa Amarela (1976) abordam temas como imaginação, liberdade e a complexidade das relações humanas.

Nélida Piñon (1937–2022): Escritora consagrada e membro da Academia Brasileira de Letras, autora de A República dos Sonhos (1984). Sua literatura combina narrativa poética e histórica.

Ana Maria Machado (1941–): Escritora e acadêmica, autora de João e Maria (1977) e vencedora do Prêmio Hans Christian Andersen. É uma das maiores vozes da literatura infantojuvenil brasileira.

Marcia Tiburi (1970–): Escritora e filósofa, autora de Como Conversar com um Fascista (2015). Sua obra dialoga com temas sociais, políticos e filosóficos contemporâneos.

Eliane Brum (1966–): Jornalista e escritora, autora de A Vida que Ninguém Vê (2006), sua literatura mescla jornalismo e narrativas pessoais, retratando realidades ignoradas.

Fernanda Young (1970–2019): Escritora e roteirista, autora de Vergonha dos Pés (1998). Sua obra explora de forma irreverente temas relacionados à vida urbana e às relações humanas.

Patrícia Melo (1962–): Escritora e roteirista, autora de O Matador (1995). Sua obra aborda violência urbana e questões sociais de forma impactante.

Simone Campos (1983–): Autora contemporânea, escritora de A Vez de Morrer (2014), sua obra explora a subjetividade humana e desafios da sociedade moderna.

Nise da Silveira, uma rebelde com causa

Nise da Dilveira, uma a médica revolucionária. que deu voz à loucura. Única mulher entre 157 homens, que se formou em medicina. (Foto Acervo)

“Ninguém hoje, no Brasil, que se interesse pelas questões ligadas à expressão artística ou à psiquiatria, ou a ambas, pode ignorar a contribuição de Nise da Silveira. Contribuição essa que é marcada, de um lado, pela coragem intelectual de romper com o estabelecido e, de outro, pela identificação profunda com o sofrimento do seu semelhante.”

As palavras escritas por Ferreira Gullar, em 1996, já eram válidas 50 anos antes e permanecem verdadeiras até hoje. Assim ele começa seu livro Nise da Silveira – Uma Psiquiatra Rebelde, biografia da médica que revolucionou o tratamento psiquiátrico, nascida em Maceió, no dia 15 de fevereiro de 1905, há exatos 120 anos.

A “coragem” mencionada por Gullar se revelou logo cedo, quando ela decidiu cursar medicina em 1921, apesar de se sentir mal ao ver sangue e de ser a única mulher entre mais de 150 homens na sua turma na Faculdade de Medicina da Bahia. Nise tinha apenas 15 anos. Um ano depois de concluir o curso, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se especializou em neurologia e psiquiatria e passou a trabalhar na unidade pública de saúde mental então denominada Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental. Mas, assim como muitos intelectuais, ela foi presa pelo governo Vargas acusada de envolvimento com a causa comunista e foi afastada do serviço público até 1944.

A parte mais conhecida de sua trajetória começa neste mesmo ano, quando ela consegue ser reintegrada aos quadros públicos e assume um posto no Centro Psiquiátrico Pedro II, no bairro de Engenho de Dentro, na zona norte do Rio de Janeiro. Os quase 2 anos que Nise passou no cárcere aprofundaram nela a “mania de liberdade”, termo que ela iria repetir muitas vezes posteriormente, e também a importância de não se deixar consumir pelo vazio.

E o Pedro II guardava muitas semelhanças com a prisão. Eram mais de 1 mil pacientes, de ambos os sexos e de todas as idades. A maioria tinha diagnóstico de esquizofrenia crônica e, para muitos, o hospital tinha uma porta de entrada, mas não de saída.

Os pacientes viviam enclausurados, em condições insalubres, sem realizar nenhuma atividade criativa e eram submetidos a tratamentos reconhecidos atualmente como violentos, mas completamente aceitos e disseminados entre os psiquiatras de todo mundo naquela época, como a lobotomia, o eletrochoque e a terapia de choque por insulina. Mas Nise não era como todo mundo. Bastou assistir a uma sessão de eletrochoque e ver os efeitos danosos da terapia com insulina, para que a médica se recusasse a aplicar esses “tratamentos”, o que lhe rendeu o título de “rebelde” que ela fez questão de nunca mais abandonar.

A direção do hospital, então, relegou à Nise uma atividade considerada de segunda classe, a terapia ocupacional. Em entrevista a Ferreira Gullar, publicada no mesmo livro, Nise conta que a ocupação dos pacientes era “varrer, limpar os vasos sanitários, servir os outros doentes”. A médica então criou uma sala de costura e depois um ateliê de pintura.

“A inovação consistiu exatamente em abrir para eles o caminho da expressão, da criatividade, da emoção de lidar com os diferentes materiais de trabalho”, explicou a médica ao escritor.

A partir daí, a revolução começou, inclusive com os nomes. Nise se recusava a chamar os internos de pacientes e preferia o termo “clientes”.

Durante as oficinas, os tratava com afeto, e não com indiferença. O setor de terapia ocupacional chegou a ter 17 atividades diferentes, e ela também utilizava os pátios, onde os “clientes” eram colocados para tomar sol, em um local para festas e outras atividades coletivas. E o resultado dessas atividades era cuidadosamente guardado ou registrado pela médica, como material de pesquisa.

Poucas pessoas conhecem esse material tão bem quanto Luiz Carlos Mello. O atual diretor do Museu de Imagens do Inconsciente – fundado por Nise – trabalhou com a médica por 26 anos, contribuindo com suas pesquisas e com a organização do seu gigantesco acervo, reconhecido como Memória do Mundo pela Unesco. Ele conheceu Nise em 1974, quando entrou no Pedro II como estagiário, “muito jovem e muito tímido” e começou a participar do seu grupo de pesquisas. Mas só se tornou seu colaborador em 1975, ano em que a médica foi aposentada compulsoriamente por completar 70 anos.

“Quando eu cheguei, o acervo já tinha quase 200 mil obras. Foi a fase reflexiva dela, de pegar o saber, os conhecimentos dela e transformar em livros, cursos, documentários. Ela tinha um rigor de trabalho impressionante e um conhecimento universal extraordinário, então gerou muitos frutos”, lembra Luiz Mello.

Segundo o diretor do museu, os resultados da terapia ocupacional orientada por Nise foram rápidos e visíveis, mas ainda assim ela enfrentou resistência durante toda sua carreira: “Ela criava um ambiente sem grades. Os clientes eram chamados pelo nome, uma das bases do trabalho dela era a relação afetiva. E em qualquer doença, não só a doença mental, com um ambiente favorável, o prognóstico é melhor”.

As obras produzidas pelos clientes revelavam emoções que eles não conseguiam organizar e exprimir em palavras, e com o passar do tempo, comprovavam também sua melhora. Em outros casos, atestavam o malefício das terapias tradicionais. Um dos exemplos mais contundentes é o de Lúcio Noeman, que esculpia guerreiros em gesso com muita técnica e precisão, mas foi submetido a uma lobotomia, e depois disso só conseguia produzir figuras disformes.

“Segundo a psiquiatria da época, a principal característica da loucura é a perda da unidade do indivíduo. Mas no atelier eram feitas imagens de mandalas em círculos, o que era uma contradição na própria doença, porque o círculo, por excelência, é o símbolo da unidade. Foi aí que ela escreveu uma carta ao Jung [psiquiatra e psicoterapeuta suíço], com fotografias, perguntando se realmente eram mandalas e por que elas apareciam em tão grande quantidade na produção deles. Menos de um mês depois, ele respondeu dizendo que realmente eram mandalas e que corresponderiam às forças auto-curativas da psiquê. Então, se a pessoa vive um estado de confusão mental, de dissociação, existem forças no inconsciente que contrabalanceiam isso, que buscam a unidade, a reestruturação”, destaca Luiz Carlos Mello.

Em uma carta seguinte, Jung escreveu: “O signatário desta carta convida a senhora doutora Nise da Silveira a se juntar ao semestre de verão de 1957 do Instituto C. G. Jung – Zurique”, o que deu início a uma profícua relação de Nise com os pesquisadores do instituto – ela chegou a ser analisada por uma de suas discípulas, a psicoterapeuta Marie-Louise von Franz – e com o próprio Jung. A partir daí, Nise se tornou grande disseminadora das teorias de Jung no Brasil, e seus trabalhos também ganharam maior dimensão internacional.

Nise também foi pioneira na terapia com animais, algo que hoje é largamente utilizado, com evidências científicas da sua efetividade. De acordo com Luiz Mello, essa ideia partiu da observação atenta dos clientes.

“Nise sempre gostou de bicho. E um doente chegou para ela com um cachorro machucado e perguntou se poderia cuidar desse cachorro. A doutora Nise deu condições e começou a observar que, à medida que o bicho melhorava, o paciente também melhorava”, recorda Luiz Mello.

Inconformada com a grande reincidência de pacientes internados – que chegava a 70% -, Nise também se lançou a um empreendimento que Luiz Mello considera uma antecipação, em mais de 30 anos, dos centros de Atenção Psicossocial, que hoje são as grandes âncoras do serviço público de saúde mental do Brasil. A Casa das Palmeiras, fundada pela médica em 1956, atendia pessoas com transtornos mentais de forma gratuita, sem internação, aplicando a reabilitação ocupacional que ela criou. O local permanece aberto até hoje, mas depois de enfrentar dificuldades financeiras, passou a cobrar mensalidade dos pacientes.

Legado

Por todas essas rebeldias, Nise é tida como uma grande inspiração do movimento de reforma psiquiátrica, que ganhou força no Brasil nos anos 80. Mas um dos principais expoentes dessa luta, o pesquisador sênior da Fundação Oswaldo Cruz Paulo Amarante, diz que a médica desconfiava da proposta de acabar com os manicômios.

Assim como muitas pessoas importantes na história da psiquiatria, ela achava que seria possível existir uma instituição em regime controlado, de uma maneira humanizada. E ela tinha medo: ‘Você vai dar alta pra pessoa e ela vai pra onde? Vai comer aonde? Ela vai ser vítima de violência'”, explica Amarante.

Amarante passou a ter contato frequente com Nise ao ser convidado para planejar a extinção justamente do Hospital Psiquiátrico Pedro II, e fez questão de consultar a médica, iniciando uma verdadeira jornada para convencê-la a apoiar o movimento antimanicomial, o que ficou mais fácil depois que alguns discípulos de Nise embarcaram no projeto.

“A gente trabalhava não para melhorar o hospício, mas para acabar com aquilo, superar aquele modelo. E ela tinha uma experiência pessoal com a Casa das Palmeiras, então a gente usava isso [para convencê-la]: ‘Olha, Nise, a gente quer fazer várias Casas das Palmeiras, locais onde as pessoas passam o dia, fazem atividades, não é obrigatório, não têm que dormir, não ficam presa, entendeu?’”

Ele também levou diversos estudiosos favoráveis à causa para conhecerem Nise, até que a desconfiança da médica se desfez. “Foi uma pena ela não poder assistir aquela instituição deixar de ser um hospital psiquiátrico”, lamenta Amarante.

Nos anos 2000, o hospital foi rebatizado e passou a se chamar Instituto Municipal Nise da Silveira, diminuindo sua capacidade ao longo dos anos, até a realocação dos últimos internos em residências terapêuticas, em outubro de 2021. Desde então, a sua enorme área de 79 mil metros quadrados funciona como parque, com atividades esportivas, artísticas, culturais e de lazer e abriga ainda o Museu de Imagens do Inconsciente. O instituto também mantém atividades de reabilitação psicossocial e de promoção da saúde mental.

Apesar da batalha, Amarante reafirma que Nise é uma grande inspiração. “No Brasil, ela foi a primeira pessoa a recusar-se a fazer uma psiquiatria baseada na violência. E a Nise tinha essa formação filosófica, humanista, e era uma pessoa comprometida com os direitos humanos, com a liberdade, e os direitos das pessoas”.

E o movimento antimanicomial acabou reforçando ideias que Nise já defendia. “Nós temos que mudar as relações que a sociedade tem com essas pessoas, por isso a gente faz um grande investimento em atividades de arte e cultura. E a gente conseguiu questionar a teoria da irreversibilidade da doença mental. A maior parte daquelas pessoas que estavam nos manicômios, que se dizia que eram crônicas por causa da doença, nós mostramos que a institucionalização, a falta de direito, de protagonismo, de possibilidade de exercer a cidadania, é que criava essa cronicidade”

Nise da Silveira continuou trabalhando durante toda a sua vida e morreu em 30 de outubro de 1999, já com 94 anos de idade. Sua trajetória parece confirmar uma reflexão que ela escreveu, assim que chegou à casa de Jung para conhecê-lo: “Nosso plano de desenvolvimento está inserido dentro de nós. Se nós desviamos dele – e esses desvios são sempre trabalho do consciente – “sobressai” a neurose. Reencontrar o seu plano pessoal de desenvolvimento é a cura.”

Maria Bonita, a primeira-dama do sertão

Maria Bonita, mulher de Lampião, em foto colorizada. Virou figura mitológica para o nordestino. (Reprodução)

Maria Gomes de Oliveira, mais conhecida como Maria Bonita, nasceu em 8 de março de 1911, no povoado de Malhada da Caiçara, na Bahia. Filha de pequenos agricultores, Maria Bonita cresceu em um ambiente rural e, aos 15 anos, foi obrigada a se casar com José Miguel da Silva, um sapateiro. O casamento, marcado por brigas e insatisfação, terminou quando Maria conheceu Virgulino Ferreira da Silva, o famoso Lampião, em 1929. A partir desse encontro, sua vida mudou radicalmente.

Maria Bonita foi a primeira mulher a integrar o cangaço, um movimento de banditismo social que desafiava as autoridades e os coronéis do sertão nordestino. Ao lado de Lampião, ela viveu uma vida nômade, enfrentando as adversidades do sertão e os constantes confrontos com as forças policiais. Apesar das dificuldades, Maria Bonita se destacou por sua coragem e determinação, tornando-se uma figura central no bando. Ela também foi pioneira ao abrir espaço para outras mulheres no cangaço, que passaram a acompanhar seus companheiros.

A trajetória de Maria Bonita e Lampião chegou ao fim em 28 de julho de 1938, quando o bando foi emboscado pela polícia na Grota de Angicos, em Poço Redondo, Sergipe. Maria Bonita, Lampião e outros nove cangaceiros foram mortos e decapitados. Suas cabeças foram expostas como troféus, um ato que chocou a população da época.

Hoje, Maria Bonita é reverenciada no Nordeste não como uma bandoleira, mas como uma figura histórica que simboliza resistência e transgressão às normas sociais de sua época. Sua imagem é celebrada em músicas, literatura e manifestações culturais, sendo vista como um ícone da cultura nordestina. Para muitos, Maria Bonita representa a força e a coragem das mulheres sertanejas, que enfrentam adversidades com determinação e resiliência. Sua história continua a inspirar gerações e a ocupar um lugar de destaque na memória coletiva do Brasil.

Na política, mulheres ainda são minorias

Mas aos poucos vão ocupando cargos eletivos, com destaques de atuação

Sedes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, em Brasília. Legislativo aos poucos vem sendo ocupado por parlamentares mulheres. (Foto Câmara dos Deputados)

Em 2025, a representatividade feminina na política brasileira ainda enfrenta desafios, mas tem mostrado avanços significativos.

Na Câmara dos Deputados, das 513 cadeiras, 91 são ocupadas por mulheres, representando 18% do total.

No Senado, das 81 cadeiras, 16 são ocupadas por mulheres, o que equivale a 19,75%.

No âmbito estadual, apenas duas mulheres foram eleitas governadoras: Fátima Bezerra (PT), no Rio Grande do Norte, e Raquel Lyra (PSDB), em Pernambuco.

Em relação às prefeituras, 727 mulheres foram eleitas prefeitas, representando 13% dos 5.569 municípios brasileiros.

Esses números refletem um crescimento na participação feminina na política, mas ainda há um longo caminho a percorrer para alcançar a paridade de gênero. A presença de mulheres em cargos políticos é essencial para garantir uma representação mais justa e equitativa, e a luta por maior inclusão e igualdade continua sendo uma prioridade para movimentos e organizações feministas no Brasil.