Marcos Clementino*
Na quinta-feira, 13 de março de 2025, o humorista Sérgio Mallandro foi vítima de um assalto em São Paulo, em frente a um hotel na Rua Augusta. O motoqueiro, disfarçado de entregador de delivery, roubou seu celular e óculos enquanto ele falava ao telefone. Embora o incidente tenha sido um reflexo da crescente violência urbana na capital paulista, o que mais chamou atenção foi a reação nas redes sociais. Em meio ao ocorrido, começaram a surgir comentários polarizados, com algumas pessoas culpando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto outras atribuíram a culpa ao governador do Estado, Tarcísio de Freitas.
Curiosamente, no mesmo dia, eu trocava mensagens com o filho mais velho do humorista, Sergio Tadeu, que estava esquiando nos Alpes austríacos, na encantadora cidade de Innsbruck. Em 2019, durante uma premiação no Havaí, tive o prazer de conhecê-lo. Naquela ocasião, minha esposa Fernanda Dias e eu, aproveitamos a energia única daquele lugar para renovar nossos votos de casamento na linda praia de Haleiwa, com a presença do nosso filho Thomas. Já Sergio Tadeu e a sua esposa Carol Malheiros oficializaram a união deles, um dia depois. Posteriormente, nasceu a filha do casal. A pequena Eva, hoje com 4 anos.
O episódio do assalto a Mallandro, no entanto, me fez refletir sobre a polarização que envolve figuras públicas e, em especial, sobre a questão da identidade política no Brasil. No caso do humorista, o que começou como um simples relato de um evento infeliz se transformou em um campo de batalha ideológica nas redes sociais.
Nos últimos anos, muitos associaram Mallandro ao apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro, um rótulo que o próprio humorista negou publicamente, dizendo nunca ter declarado seu voto. Em 2024, a revista Veja trouxe uma matéria em que, embora tenha sido “rotulado” de bolsonarista, Mallandro reafirma que nunca se posicionou abertamente de forma partidária. No entanto, nas redes sociais, esse rótulo ainda é atribuído a ele, gerando um debate acirrado. Por outro lado, muitos apoiadores de Bolsonaro começaram a acusá-lo de ser eleitor de Lula, e memes da campanha presidencial começaram a circular, como “faz o L”, “Governo do amor acabou com o Brasil”, entre outros. E, em resposta, as críticas passaram a ser direcionadas ao governador Tarcísio de Freitas.
Esse jogo de acusações e retaliações em torno de Mallandro é um reflexo da radicalização política que tomou conta do Brasil nos últimos anos, principalmente desde as disputas acirradas das eleições de 2014 entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB). A política, que já foi um espaço para o debate de ideias, agora se transformou em uma guerra de narrativas, onde a lealdade a um grupo é mais importante do que uma reflexão racional sobre o país.
Hoje, muitos brasileiros, cegos por suas ideologias, não conseguem mais enxergar as falhas de seus candidatos ou reconhecer as qualidades dos adversários. A política no Brasil se tornou uma verdadeira “torcida organizada”, onde se apoia a vitória de um time a qualquer custo, sem considerar o que é melhor para o país. É como no futebol: se o jogador do seu time cai na área adversária, é pênalti, mesmo que você não tenha visto a jogada claramente. Se a falta é do time oposto, o juiz é chamado de “ladrão”. A política virou exatamente isso: uma disputa em que a razão foi deixada de lado em favor de uma guerra ideológica.
Então, a questão que surge é: o “Mallandro” no Brasil é de esquerda ou de direita? A resposta não é simples. Se fosse apenas uma questão de posicionamento ideológico, seria fácil de resolver. No entanto, a verdadeira questão é que o “Mallandro” não se encaixa nas caixinhas de esquerda ou direita. Ele é um reflexo de como a política foi reduzida a uma batalha de identidades, onde a figura pública acaba sendo desvirtuada e rotulada de acordo com o interesse de quem a observa.
Sérgio Mallandro, em sua essência, nunca foi uma figura que se alinhou publicamente a um espectro político específico. Ele sempre foi, acima de tudo, um humorista. Assim, devido à polarização extrema que tomamos como sociedade, qualquer posicionamento, mesmo que neutro, é automaticamente atribuído a um lado. O “Mallandro” no Brasil, portanto, não é de esquerda ou de direita. Ele é, na verdade, um símbolo de como a política brasileira se distorceu para um terreno onde a reflexão e o debate foram deixados de lado em favor de uma divisão que, muitas vezes, beira a irracionalidade.
Esse fenômeno vai além de qualquer posição ideológica. Ele revela a fragilidade do debate político no Brasil, onde se tornou mais importante se alinhar a um grupo do que analisar criticamente os caminhos que o país deve seguir. E é exatamente essa a grande questão: a polarização não apenas limita a política, mas também impede que o Brasil evolua para uma verdadeira democracia, onde a troca de ideias e a construção de soluções para os problemas do país se sobreponham à militância cega.
*Marcos Clementino é jornalista, ex-correspondente de TV na Europa; finalista do prêmio Walkley Awards de melhor cobertura de jornalismo investigativo em New South Wales, na Austrália, em 2012. Em 2017, recebeu o Troféu Periferia, considerado o “Óscar da Quebrada”, idealizado pela ORPAS – Obras Recreativas, Profissionais, Artísticas e Sociais, em reconhecimento ao seu trabalho e contribuição à comunidade. Ainda em 2017, seu legado foi eternizado no bairro de origem com um mural de grafite, o Feras do Campo Limpo, assinado pelo artista plástico Gerri Alves; é autor de três livros: Paris, Sexta-Feira 13, Olho Vivo, Faro Fino! e O Tubarão da Berrini; hoje é sócio-diretor da MMC Benefits, acionista da Eats For You e franqueado da Prudential do Brasil, e especialista no mercado de seguros.




