Nesta quinta-feira (27), Paris se torna o epicentro de uma discussão crucial para o futuro da humanidade: a cúpula Nutrition for Growth (Nutrição para o Crescimento).
Em um cenário global marcado por crises alimentares, mudanças climáticas e conflitos armados, o evento reúne representantes de 76 países, além de organizações internacionais, sociedade civil, academia e empresas, com um objetivo claro: garantir uma alimentação adequada para milhões de pessoas.
Desde sua criação em 2013, a cúpula, realizada a cada quatro anos, tem sido um espaço para firmar compromissos financeiros e políticos que enfrentem a insegurança alimentar.
No último encontro, em Tóquio, 2021, foram prometidos 27 bilhões de dólares por 181 entidades. No entanto, especialistas alertam que o desafio é ainda maior: são necessários 13 bilhões de dólares anuais para alcançar uma nutrição adequada para todos.
Por que este encontro é vital?
A crise alimentar global foi agravada por eventos recentes, como a guerra entre Rússia e Ucrânia, que impactou a produção de alimentos e gerou inflação nas commodities. Além disso, as mudanças climáticas continuam a pressionar os sistemas agrícolas, com secas, esgotamento do solo e emissões de gases do efeito estufa.
Brieuc Pont, secretário-geral da cúpula, destaca a necessidade de repensar os modelos de produção de alimentos. “Precisamos preservar sistemas locais e reduzir a dependência de alimentos ultraprocessados e da produção industrial massiva”, afirma.
Soluções em pauta
Entre as iniciativas apresentadas, destaca-se o compromisso da empresa francesa Edenred, que pretende garantir 100 mil refeições ao Programa Mundial de Alimentação (WFP) até o final do ano. A estratégia envolve mobilizar usuários de seus cartões alimentação a doarem pequenas quantias no momento de suas refeições.
O que está em jogo
A cúpula também aborda o impacto da má alimentação na saúde global. Em tempos de crise, populações recorrem a alimentos ultraprocessados, ricos em calorias, mas pobres em nutrientes. A mudança desse cenário exige não apenas financiamento, mas também conscientização e políticas públicas eficazes.
Com a presença de líderes como o primeiro-ministro francês François Bayrou e a primeira-dama brasileira Janja Lula da Silva, o evento promete ser um marco na luta contra a fome e a desnutrição.
Em 2025, a insegurança alimentar continua sendo um desafio global significativo. De acordo com estimativas recentes, cerca de 733 milhões de pessoas enfrentam fome no mundo, o que equivale a aproximadamente uma em cada 11 pessoas. Além disso, cerca de 2,33 bilhões de pessoas
enfrentam insegurança alimentar moderada ou grave, um número que permanece alarmante desde o aumento observado durante a pandemia de COVID-19.
Esses números refletem uma combinação de fatores, como conflitos armados, mudanças climáticas, crises econômicas e inflação nos preços dos alimentos, que continuam a agravar a situação. É um problema que exige esforços globais coordenados para alcançar o objetivo de erradicar a fome até 2030.
Processados: um risco invisível à saúde

A alimentação moderna, muitas vezes dominada pelo consumo de alimentos processados e ultraprocessados, traz sérias consequências para a saúde. O que antes era exceção, como refeições ricas em nutrientes e feitas com ingredientes naturais, tornou-se um luxo em um mundo onde as escolhas alimentares são cada vez mais influenciadas pela conveniência, custo e publicidade.
A ausência de nutrientes essenciais no prato e o consumo excessivo de “porcarias” – ricos em gorduras saturadas, açúcares refinados, sódio e aditivos químicos – têm criado um terreno fértil para doenças crônicas. Entre os principais problemas de saúde relacionados à má alimentação estão:
Obesidade: O peso das más escolha
Alimentos ultraprocessados, como fast foods, refrigerantes e snacks, são densos em calorias, mas pobres em fibras, proteínas e vitaminas. Isso causa um desbalanço energético no organismo, levando ao ganho de peso. A obesidade, por sua vez, é um fator de risco para diversas condições, incluindo diabetes tipo 2 e hipertensão. Segundo a nutricionista Maria Antónia Campos, “o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados está diretamente ligado ao aumento da obesidade em todas as faixas etárias, especialmente entre crianças e adolescentes”.
Doenças cardiovasculares: O coração em alerta
Dietas ricas em gorduras trans e sódio, comuns nos ultraprocessados, promovem o aumento do colesterol ruim (LDL) e da pressão arterial. Isso sobrecarrega o sistema cardiovascular, elevando o risco de infartos e acidentes vasculares cerebrais (AVCs). O cardiologista Rodrigo Oliveira da Silva alerta: “A má alimentação é um dos principais fatores que contribuem para o aumento de doenças cardiovasculares, especialmente em populações vulneráveis”.
Tipos de câncer: Alerta na mesa
A ciência já correlaciona o consumo de alimentos processados a certos tipos de câncer, como o de cólon e reto. Conservantes químicos, como nitritos, usados em embutidos e carnes processadas, podem se converter em substâncias cancerígenas no corpo, alertam estudos. “A relação entre alimentos ultraprocessados e o aumento de casos de câncer é preocupante e exige atenção urgente das autoridades de saúde pública”, afirma a pesquisadora Talita Fukuzaki dos Santos
Falta de energia e comprometimento da qualidade de vida
Além de causar problemas de saúde a longo prazo, a falta de nutrientes no dia a dia compromete a disposição e a eficiência do organismo. Crianças que não têm acesso a uma alimentação balanceada, por exemplo, sofrem com dificuldades de aprendizagem e crescimento inadequado.
Como reverter esse cenário?
A solução passa pela conscientização e pela valorização de alimentos frescos e integrais. Promover dietas ricas em frutas, verduras, legumes, grãos integrais e proteínas magras é fundamental. Além disso, políticas públicas que incentivem a redução de impostos sobre alimentos saudáveis e regulem a propaganda de ultraprocessados podem fazer a diferença.
Enxergar o impacto da alimentação no presente é essencial para garantir um futuro mais saudável. O que colocamos no prato não é apenas questão de escolha, mas um investimento na nossa própria qualidade de vida. Afinal, somos aquilo que comemos – e podemos ser mais, se comermos melhor.
Aplicativos de delivery de alimentos: uma ameaça à saúde pública?

Um estudo realizado na cidade de São Paulo revelou que os aplicativos de delivery de alimentos promovem alimentos ultraprocessados e prejudiciais à saúde. O estudo é assinado pelas pesquisadoras da USP Luiza Rodrigues Dias, Juliana Aparecida Gama Baptista, Renata Bertazzi Levy e Maria Alvim Leite.
A pesquisa, que analisou as promoções oferecidas pelo aplicativo de delivery de alimentos mais utilizado no Brasil, encontrou que mais de 55% das ofertas eram de alimentos ultraprocessados.
Os alimentos ultraprocessados são aqueles que passam por um processo de transformação industrial e contêm ingredientes como açúcares, gorduras e sódio em excesso. Esses alimentos são associados a um aumento do risco de doenças crônicas não transmissíveis, como obesidade, hipertensão e diabetes.
A pesquisa também encontrou que as promoções de alimentos ultraprocessados eram mais comuns em bairros de menor nível socioeconômico. Além disso, os resultados mostraram que as promoções de alimentos ultraprocessados tinham preços mais altos do que as promoções de preparações culinárias.
“Os aplicativos de delivery de alimentos são uma ameaça à saúde pública”, afirma um especialista em nutrição. “Eles promovem alimentos ultraprocessados e prejudiciais à saúde, especialmente em bairros de menor nível socioeconômico.”
A pesquisa sugere que é necessário tomar medidas para promover a alimentação saudável e reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados. Isso pode incluir a criação de políticas públicas que incentivem a oferta de alimentos saudáveis em aplicativos de delivery e a educação nutricional para os consumidores.
“É importante que os consumidores estejam cientes dos riscos associados ao consumo de alimentos ultraprocessados e busquem opções mais saudáveis”, afirma o especialista. “Além disso, é necessário que os aplicativos de delivery de alimentos sejam regulamentados para promover a alimentação saudável.”
O estudo é um alerta para a necessidade de tomar medidas para promover a alimentação saudável e reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados. É importante que os consumidores, os aplicativos de delivery de alimentos e as autoridades públicas trabalhem juntos para promover a saúde e o bem-estar da população.




