Lindolfo Paoliello
Lindolfo Paoliello


Lindolfo Paoliello*

Ana Maria resolveu, em uma D.R., meu martírio ao buscar o ponto de vista com o qual abrir minha contribuição ao site Brasil Confidencial. Foi uma só estocada: “Você não alcança o que lhe digo”. Stop! Estanquei. Mas já a havia perdido.

Você deve estar dando tratos à bola, mas vá de leve,  eu também estou. O que me leva a recorrer a um amor perdido se o que está em questão é escrever sobre o contexto em que vivemos? Antigos amores são assim: surgem dentre as nuvens para nos abrir os olhos. E isto tem toda importância. Vai me dizer que é desimportante ser conduzido a tomar consciência daquilo que não é capaz de alcançar? É isso aí: assim como quem não quer nada, estou revelando a missão do cronista. Vamos agora ao que importa.

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Tempos atrás eu me convenci de que o fato de três palavrinhas em língua inglesa permanecerem em uso no Brasil, sem tradução para o português, vinha acumulando prejuízos consideráveis ao nosso país. Por isso eu acreditava que a ideia contida em cada uma delas não era praticada, ou era exercida com falhas. “Policy”, “compliance” e “accountability” me incomodavam e, observando-se o contexto de então, a ninguém mais. Eu estava convencido de que, se traduzidas e percebida a crucial importância do seu sentido, as entranhas dos problemas brasileiros se exporiam às claras. E seriam saneadas.

No entanto, a recorrente tradução de “policy” por “política” deixa as coisas confusas, e acabam inapropriadas e inoperantes as políticas públicas que ao se verem alvo da política partidária (em inglês “politics”) costumeiramente acabam na polícia (“police”), que confusão! Ao passo que, se exercitada a tão falada “policy” no sentido que lhe é dado nos dicionários de língua inglesa, a “orientação selecionada dentre alternativas, e considerando determinadas condições, destinada a guiar decisões presentes e futuras”, abriria a ação sinérgica para a prática das duas outras preciosas palavrinhas.

A segunda das quais – “compliance” – entrou em definitivo grafada em inglês na nomenclatura das organizações, onde nem sempre é posta em prática como manda o figurino, deixando passar problemas administrativos, legais e institucionais. Questões capazes de serem resolvidas com o exercício do sentido original da palavra, em inglês “conformidade com as exigências oficiais”.

“Accountability”, inspiradora da saudável atitude de prestar contas, é alvo de um curioso estudo de Anna Maria Campos, intitulado “Accountability: quando poderemos traduzi-lo para o português?”, publicado na Revista de Administração Pública de fevereiro a abril de 1987. Nesse estudo, ela revela que no seu primeiro dia de aula na Universidade do Sul da Califórnia (Pós-Graduação em Administração Pública), apesar de seus conhecimentos avançados em língua inglesa que lhe renderam a bolsa de estudos da OEA, não ter conseguido acompanhar a discussão sobre “accountability”, incapaz de traduzir a palavra para o português.

Desisti da ideia de tradução”, ela escreveu, “e ao longo dos anos fui entendendo que faltava aos brasileiros não precisamente a palavra, ausente na linguagem comum como nos dicionários. Na verdade, o que nos falta é o próprio conceito, razão pela qual não dispomos da palavra em nosso dicionário”.

Merece atenção a sua conclusão: “Quando a indigência política for superada e o institucional fortalecido, é provável que surja o conceito e, só então, a palavra para traduzi-lo. Por enquanto, qualquer tentativa apressada de cunhar uma palavra (em português) seria desprovida de significado, pois não faria parte da nossa sociedade”.

De tudo, fica a percepção, de certa forma amarga, de que não é a tradução de “policy”, “compliance” e “accountability” que nos faz falta. Mas tomar a consciência, ou quem sabe, caberia bem aqui-alcançar os significados originais dessas palavras. E praticá-los.

*Lindolfo Paoliello é Jornalista e da área de Comunicação Corporativa. Foi Presidente da Associação Comercial de Minas Gerais. Autor

1 COMENTÁRIO

  1. Excelente a cronica ( ou artigo?) de Lindolfo Paoliello.
    Lacan nos diz que ” ao nascimento da palavra corresponde a morte da coisa”, portanto, se não existe a coisa nao ha como existir a palavra ou sera que no Brasil a coisa morreu antes de ser batizada? Nao deixando registro. Esta ai a provocação p outra cronica, Lindolfo!
    Parabens aos criadores do Brasil Confidencial, dando lugar à palavra e à coisa.

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