
No final da década de 1970, muitos analistas estavam prevendo a derrocada da economia dos Estados Unidos.
Porém, as décadas seguintes foram marcadas pela reafirmação da supremacia americana, com a manutenção de altas taxas de crescimento do país e o vitorioso enquadramento das potências Alemanha e Japão, que eram concorrentes.
Esse “enquadramento” não foi força de expressão, segundo especialistas.
Os Estados Unidos conseguiram fazer com que praticamente todos os países submetessem suas políticas econômicas à política monetária americana, obrigando-os a ajustes recessivos com consequências graves para a maioria das dinâmicas econômicas nacionais dos países desenvolvidos e em desenvolvimento.
Em 1971, o então presidente Richard Nixon anunciou a chamada Nova Política Econômica, acabando com o lastro do dólar, bloqueando transações americanas com ouro e estabelecendo, em 1976 o fim do regime de Bretton Woods. O regime de Bretton Woods foi um sistema monetário internacional estabelecido em 1944, na Conferência de Bretton Woods, nos EUA. O objetivo principal era criar um sistema estável de taxas de câmbio e promover o comércio internacional.
Ainda assim a inflação interna e as baixas taxas de juros contribuíam para a permanência do déficit e da desconfiança em relação ao dólar. Foi então que, já em 1979, Paul Volcker, então presidente do Fed, o banco central americano, concluiu o processo de recuperação do papel do dólar como moeda internacional elevando os juros americanos, numa tentativa clara de atrair fundos para ativos denominados em dólar.
Os programas armamentistas, de alto conteúdo tecnológico, visando dobrar a União Soviética e exaurir a capacidade financeira desse país, foram medidas de grande importância para a recuperação da hegemonia americana.
As consequências destas medidas, seja no campo monetário seja no campo estratégico-militar, foram de grande importância tanto para a reversão do risco de ruptura da supremacia americana, sobretudo após o término da Guerra Fria, como para a estrutura e dinâmica da economia mundial.
Quatro décadas depois de todo esse processo, em 2016, a vitória de Trump traz novamente as contradições e os problemas enfrentados pelos Estados Unidos.
Uma questão mais de fundo em toda essa discussão pode ser encontrada exatamente na forma como ainda nos anos 70 os Estados Unidos resolveram seus problemas e afirmaram sua hegemonia.
Naquele contexto, a supervalorização do dólar permitiu que o Fed retomasse o controle do sistema bancário privado internacional, atraindo os capitais internacionais que haviam migrado para fora dos EUA. Com isso surge a conjuntura do déficit orçamentário e o crescimento exponencial do déficit comercial americano, o que, de fato, não representa nenhum problema, nem naquela época, nem hoje. A economia detentora da moeda de referência mundial não enfrenta limitações estruturais para o déficit comercial, essa é a grande jogada do padrão dólar flexível.
A criação de um ambiente fortemente propício à expansão financeira criou na economia americana e também no mundo um amplo movimento de alavancagem no mercado de capitais. Surgiram diversos instrumentos financeiros para os quais fluiu o núcleo da riqueza nos EUA e também do resto do mundo, em detrimento da produção e da indústria. Nos anos 90 foi o presidente Bill Clinton quem estimulou ainda mais esse processo, com a desregulamentação do mercado financeiro que beneficiou e vem beneficiando apenas os 1% mais ricos.
A crise de 2008 é o ápice deste processo, por meio do qual desregulamentou-se completamente o mercado financeiro, gerando uma bolha especulativa cujas consequências estão sendo pagas por todos até hoje. A crise de 2008 também é o reflexo da dificuldade da economia americana em gerar riqueza através de ganhos salariais e do trabalho, o que resultou na expansão do crédito às famílias com baixíssimos rendimentos, criando as bases para o crash da bolsa.
Enquanto isso, do outro lado do mundo, na China, tudo mudava justamente a partir daquele segundo sentido que sustentou a hegemonia americana: a política do dólar forte e o deslocamento da produção manufatureira para a Ásia.
Ao contrário das economias latino-americanas, a China não seguiu a orientação neoliberal. Abriu sua economia de forma gradual e sob amplo controle do Estado. Atraiu investimentos diretos e, com política industrial e de investimento público fortes inseriu-se como produtora de artigos manufaturados para o mundo, ampliando o nível de emprego, dinamizando também o mercado doméstico e retirando milhões de pessoas da pobreza, rumo à urbanização. Esta dinâmica não poderia se dar sem o convite das empresas multinacionais e dos Estados — Japão e, sobretudo EUA — tendo como contrapartida não somente os mercados de demanda e oferta de bens, mas também o financiamento do governo e do balanço de pagamentos através, dentre outros, das amplas reservas acumuladas pelo Estado chinês.
Assim, percebe-se que a reafirmação da hegemonia americana, ainda no final do século XX, permitiu aos Estados Unidos manter o dólar como moeda mundial, sua liderança no campo militar e ainda na produção de alta tecnologia de alto valor agregado.
Mas a partir da crise de 2008, quando o país vinha crescendo a taxas baixas, as contradições mais profundas aparecem de forma cada vez mais evidente. A forte financeirização e todos seus malefícios em termos de concentração de renda, aliada à mudança na divisão internacional do trabalho, faz com que a economia americana não consiga crescer e gerar renda para as camadas médias, nem de sustentar o sonho americano de ascensão e riqueza. Mais além, o baixo crescimento, com desemprego e inflação remontam à estagflação dos anos 70, condições materiais que ciclicamente voltam a acirrar o conflito distributivo. A classe média americana — a mais prejudicada de todo esse processo — foi exatamente o grupo que garantiu a eleição de Trump.
Além de todas as notícias tristes em torno da nova era Trump — ascensão do nacionalismo, da xenofobia e do preconceito — resta a certeza de que será muito difícil para o novo presidente superar todas essas contradições e expandir o volume de emprego e renda para a população. Assim como sua oponente, ele não parece disposto a enfrentar a concentração de renda e a acumulação financeira. Nenhum dos dois poderia enfrentar a China, dada a complexa complementaridade das duas economias hoje, em termos comerciais e financeiros.
Detroit: a destruição do sonho americano
Das inúmeras ruínas do Século 20 que revelam a decadência de Detroit, a mais grandiosa é a antiga fábrica da Packard, a marca que foi símbolo máximo dos carros de luxo americanos até a Segunda Guerra Mundial e que desligou suas linhas de montagem em 1958. A estrutura de 325 mil metros quadrados é um monumento involuntário ao período áureo da industrialização dos Estados Unidos, quando a cidade era conhecida como a capital mundial do carro.
Nos anos 50, Detroit produzia metade dos veículos vendidos no planeta e tinha 1,85 milhão de habitantes, o que fazia dela a quarta maior cidade americana. Desde então, sua população caiu de maneira constante e hoje está em 685 mil pessoas – redução de 65%.
A indústria automobilística enfrentou a concorrência dos japoneses e coreanos, passou por uma dolorosa reestruturação e se globalizou, espalhando linhas de produção por todas as partes do planeta, o que reduziu Detroit a uma posição coadjuvante.
Em 2013, dos quase 2,7 milhões de veículos que a General Motors vendeu nos Estados Unidos, apenas 4% foram produzidos em Detroit. A maior montadora americana mantém sua sede na cidade, no Renaissance Center, um conjunto de sete torres às margens do rio Detroit. Mas apenas uma de suas 11 fábricas americanas permanece na antiga capital do automóvel.
Indústrias de outros setores também desapareceram, no processo que tirou dos EUA o posto de maior nação manufatureira do mundo. Mas em Detroit o movimento foi especialmente perverso. Entre 1970 e 2007, a cidade perdeu 80% de suas fábricas e 78% das lojas de varejo. O êxodo deixou para trás casas desabitadas, edifícios vazios, escritórios desertos, escolas obsoletas e levou à redução cada vez maior da receita de uma prefeitura obrigada a administrar uma área geográfica que não encolheu com a população.
O desequilíbrio financeiro foi agravado por alguns governos desastrosos e outros corruptos, que contribuíram para empurrar Detroit à insolvência, com uma dívida de US$ 18 bilhões. No dia 3 de dezembro de 2013, ela se tornou a maior cidade americana a entrar em concordata, dando início a um processo de negociação com credores que será acompanhado de perto por municípios como Chicago e Los Angeles, que enfrentam problemas semelhantes em seus deficitários fundos de pensão.
A eleição de Trump explica o que acontece na sociedade americana: imersos em alguns dos piores indicadores sociais dos Estados Unidos, os moradores procuraram no candidato Republicano uma tábua de salvação. O porcentual de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza é de 36%, mais que o dobro da média de 15,7% do Estado de Michigan. Apenas 12,2% da população concluiu a faculdade, comparado a 25,3% no Estado. O índice de desemprego é de 16,2%, quase dez pontos porcentuais acima dos 7% registrados nacionalmente.
Mas é na estrutura urbana que a decadência se revela a olho nu. O governo estima que há pelo menos 78 mil casas e edifícios vazios na cidade. Números oficiais mostram que 40% dos postes de iluminação não funcionam.
Carl Miller mora em um bairro que é o retrato da desolação. Do outro lado de sua calçada estão os restos mortais de duas casas incendiadas depois de terem sido abandonadas. Logo serão demolidas, mesmo destino das que existiam no passado ao seu redor.
“Esse bairro era lindo”, lembra Miller, que vive na casa onde sua mãe passou grande parte de sua vida. Na rua, não há nenhum poste de luz público. “À noite não dá para ver nada por aqui.” A escuridão e os espaços vazios acobertam usuários de drogas e delinquentes e contribuem para que Detroit seja a mais violenta cidade do país entre as que possuem mais de 200 mil habitantes. A ocorrência de crimes violentos é cinco vezes maior do que a média nacional.
A casa ao lado da de Donald Mitchell está abandonada. Depois dela, há dois terrenos vazios e mais casas abandonadas. Mitchell vive no mesmo lugar há 25 anos e diz que a situação melhorou um pouco com a destruição de muitas das casas que estavam desocupadas. Mas esse é só o começo do que deve ser um longo processo de recuperação. “As coisas estão melhorando lentamente. Acho que vai demorar de cinco a dez anos para Detroit voltar a ser a grande cidade americana que foi no passado.”


