Marcos Clementino


Marcos Clementino*

A internet virou um tribunal sem toga, sem juiz imparcial e sem direito à defesa.
Generalizações são perigosas — e injustas.
Sim, existem homens que cometem crimes bárbaros, como o estupro. Assim como há mulheres que fazem falsas acusações. Mas nenhuma dessas realidades define o todo.
Está na hora de separar o joio do trigo com responsabilidade, empatia e discernimento.

Digo isso porque é urgente dar um basta nesse julgamento coletivo que tenta colar a pecha de estuprador em todo homem e de aproveitadora em toda mulher. Nenhum dos dois sexos deve carregar estigmas que pertencem, pontualmente, a um pequeno percentual de criminosos — de ambos os lados.
Homens e mulheres se somam. Não sei a quem interessa essa guerra dos sexos que tomou conta dos noticiários e do tribunal da internet.

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Para uma sociedade que se diz de bem e defende os valores da família, o debate precisa ir além das manchetes sensacionalistas e dos linchamentos virtuais.

Nos últimos anos, acusações de estupro envolvendo celebridades e figuras públicas têm acendido debates inflamados. Quando o acusado é um homem rico e famoso, a sociedade se divide: de um lado, os que clamam por justiça à vítima; do outro, os que suspeitam de armação para extorsão financeira ou destruição de reputações.

Casos como os de Neymar Jr., Daniel Alves e, mais recentemente, Otávio Mesquita e Juliana Oliveira, ilustram essa complexidade.
Em 2019, a modelo Najila Trindade acusou Neymar de estupro, mas a investigação foi arquivada por falta de provas — e ela própria passou a responder por denúncia caluniosa.
Já no caso de Daniel Alves, o Tribunal Superior da Catalunha anulou por unanimidade a sentença que o condenava a 4 anos e 6 meses de prisão, por estupro em uma boate de Barcelona. O julgamento teve quatro juízes — três deles mulheres.

O episódio envolvendo Otávio Mesquita e Juliana Oliveira reacendeu o debate sobre a linha tênue entre um comportamento inconveniente e um crime de fato. O caso ocorreu durante uma gravação do programa The Noite, no SBT, em 2016, mas veio à tona recentemente, gerando forte repercussão nas redes. Em meio à polêmica, o apresentador Danilo Gentili divulgou conversas da época que demonstram ter apoiado Juliana, inclusive com suporte jurídico. Segundo ele, a humorista preferiu não levar o caso adiante naquele momento.
Esse episódio escancara os limites do aceitável no ambiente televisivo — e o quanto condutas antes silenciadas ou relativizadas vêm sendo reavaliadas diante de uma consciência coletiva mais crítica.

O problema é que, em um mundo onde a palavra da vítima deve ser levada a sério (e deve mesmo), também existe espaço para oportunistas que se aproveitam do sistema judicial e da comoção virtual para obter vantagens financeiras ou vingança pessoal.
Reconhecer isso não significa desacreditar vítimas reais — mas sim defender que a presunção de inocência também é um direito fundamental.

Enquanto a opinião pública se divide em julgamentos passionais, os números de estupro no Brasil seguem alarmantes.
Em 2024, foram registrados 78.463 casos de estupro — uma média de 214 por dia e 9 por hora, segundo o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp).
Apesar da pequena queda de 4,54% em relação a 2023, os números continuam assustadores.

Entre as vítimas, 67.883 eram mulheres, mas 9.682 homens também sofreram esse crime.
São Paulo lidera em registros (14.827), seguido por Paraná (6.881) e Rio de Janeiro (5.375).
E o feminicídio continua sendo uma tragédia nacional. Em 2024, 1.387 mulheres foram assassinadas por razões ligadas ao gênero — média de quatro feminicídios por dia.

O dilema entre verdade e injustiça atravessa séculos. A própria Bíblia alerta sobre armadilhas de falsas narrativas e julgamentos precipitados:

  • Gênesis 39:7-20 — José é falsamente acusado de tentativa de estupro e acaba preso.
  • 2 Timóteo 3:1-5 — descreve tempos em que haveria pessoas caluniadoras e sem afeto por ninguém.
  • Provérbios 5:3-5 — adverte contra palavras sedutoras, mas enganosas.
  • Deuteronômio 22:25-27 — ensina que nem todo caso de violência é igual e que a justiça deve considerar o contexto com atenção.

Outro ponto essencial: onde estão os limites entre assédio e estupro? Até onde vai o comportamento inadequado — e quando ele cruza a linha do crime?

Com a evolução das leis e da percepção social, atos antes vistos como “brincadeiras” ou “paquera” passaram a ser tratados com mais rigor. A reforma do Código Penal ampliou a definição de estupro para qualquer ato libidinoso sem consentimento — o que inclui desde um beijo forçado até toques inapropriados.

Em 2023, a 6ª Turma do STJ reforçou que até um beijo roubado pode ser considerado estupro de vulnerável, dependendo do contexto.
Essa ampliação divide opiniões: para alguns, é um avanço necessário; para outros, um risco de excessos na criminalização.

Mas e no dia a dia?
Um like em rede social pode ser assédio?
Um sorriso, um elogio, um aceno?
O que para um homem parece paquera, para uma mulher pode soar invasivo ou até traumático.

Essa divergência de percepção é a raiz de muitos conflitos.
A dificuldade em estabelecer uma linha clara transforma esse tema em pauta constante — no trabalho, no transporte público, nos bares, nas redes sociais, nas conversas de família.

O grande desafio está em equilibrar liberdade individual e segurança coletiva. Evitar tanto o medo paralisante quanto a permissividade irresponsável.

Diante de tudo isso, o que a sociedade precisa é de justiça — mas também de equilíbrio emocional.
A polarização extrema não ajuda: prejudica tanto as verdadeiras vítimas, que clamam por acolhimento, quanto os inocentes, que merecem ampla defesa e julgamento com base em provas — não em achismos ou hashtags.

Mais do que uma guerra de gêneros, precisamos de um diálogo justo e respeitoso.
Homens e mulheres não são adversários.
São parceiros na construção de um mundo mais seguro, justo e empático.

Antes de comentar, cancelar ou compartilhar, lembre-se:
Você não estava lá.
Não viu.
Não é juiz, nem perito.
E a reputação de alguém pode não sobreviver a um clique impensado.

Justiça não se faz com fúria — se faz com escuta.
E talvez, entre tantos códigos e sentenças, a lição mais poderosa continue sendo a mais simples:
“Amai-vos uns aos outros.”

*Marcos Clementino é jornalista, ex-correspondente de TV na Europa; finalista do prêmio Walkley Awards de melhor cobertura de jornalismo investigativo em New South Wales, na Austrália, em 2012. Em 2017, recebeu o Troféu Periferia, considerado o “Óscar da Quebrada”, idealizado pela ORPAS – Obras Recreativas, Profissionais, Artísticas e Sociais, em reconhecimento ao seu trabalho e contribuição à comunidade. Ainda em 2017, seu legado foi eternizado no bairro de origem com um mural de grafite, o Feras do Campo Limpo, assinado pelo artista plástico Gerri Alves; é autor de três livros: Paris, Sexta-Feira 13, Olho Vivo, Faro Fino! e O Tubarão da Berrini; hoje é sócio-diretor da MMC Benefits, acionista da Eats For You e franqueado da Prudential do Brasil, e especialista no mercado de seguros.