Palowa Mendes*
Meu amigo se foi!
Quando ele subiu àquela sacada em 13 de março de 2013 e se declarou Francisco, algo me disse: “Reanime-se, será diferente.”
Sempre fui crítica à Cúria Católica, ao Estado Católico e a todas as suas atrocidades, ao poder tóxico baseado na culpa. Nasci sob o Concílio Vaticano II, idealizado por João XXIII e implementado por Paulo VI — aliás, foi no ano de meu nascimento que a “Renovação dos Ritos” e a “abertura da Igreja”, como diziam, foi promulgada. Sou filha de uma família católica não praticante e simpática à Umbanda, como milhares de famílias pobres deste país, que batizavam seus filhos na Santa Igreja, mas buscavam proteção contra doenças do corpo e da alma nos terreiros, onde remédios ancestrais eram partilhados.
Cresci sob a influência da Conferência de Medellín, o grande encontro de bispos latino-americanos que vivenciavam as ditaduras nas Américas e as mazelas sociais impostas pelo regime. Miséria, fome e analfabetismo assolavam o Sul Global. Claro que só entendi o significado da Conferência de Medellín, seus avanços e sua influência nos movimentos sociais muito depois. Eu vivia no Estado de Exceção brasileiro e, como a maioria do povo, via a “Revolução” (como era chamada) apenas como sinônimo de violência, enquanto a Igreja parecia um refúgio de caridade para os vulneráveis.
Na minha comunidade, a Paróquia de São Geraldo era um centro de apoio. Meu avô paterno era contribuinte, e o Padre Francisco — figura controversa, misto de assistente social e guardião dos “bons costumes” — garantia o pão diário aos carentes. Foi ele quem abriu as portas para o Movimento Eclesial de Base (MEB) no bairro.
Um ano após a morte de João Paulo I, o papa que me marcou ao declarar: “Ninguém tem direito de reservar para seu uso exclusivo o que é supérfluo, quando a outros falta o necessário”, descobri, através das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), apresentada por Fatinha e Roberto Carvalho, o significado de Medellín, do Concílio Vaticano II, da Populorum Progressio, da Teologia da Libertação e do livro Batismo de Sangue, que me revelou os horrores da Ditadura. Aos 13 anos, aprendi algo revolucionário: “Temos direitos e devemos lutar por eles!”
Conheci Dom Helder, Frei Betto, Leonardo Boff, Dom Eugênio Sales, Ivone Gebara, Dom Evaristo Arns, Maria Clara Bingemer, Gustavo Gutiérrez e Zilda Arns. Chorei a morte de Dom Oscar Romero e Irmã Dorothy, assim como a de João Paulo I, cuja semelhança com Francisco o tornou, para mim, um mártir da brevidade.
Com João Paulo II e Bento XVI, veio a desilusão: a Igreja que retrocedeu, rancorosa, dominadora, reacionária, da “Família Tradicional”, do Banco do Vaticano, da perpetuação da miséria e dos escândalos de pedofilia. Afastei-me do catolicismo, mas mantive viva a militância social aprendida nas CEBs.
E o que isso tem a ver com Francisco?
Dom Jorge Bergoglio reacendeu minha esperança. Em seu olhar, revivi Francisco e Clara de Assis, Dom Helder, Dom Oscar Romero, Irmã Dorothy, Chico Mendes e Desmond Tutu. Laudato Si’, Fratelli Tutti e Dixit ecoaram ao mundo que a Pachamama (nossa Casa Comum) pede socorro, que somos irmãos, e que o amor e a solidariedade são os verdadeiros laços com Cristo.
Chico, como Jesus, calçou suas sandálias (no caso, sapatos pretos), despiu-se de luxos e percorreu o mundo com humildade, pregando tolerância, empatia, fraternidade, inclusão e amor. Assim como Francisco de Assis, ele não foi apenas um papa: foi um irmão.
Viveu a grandiosidade de ser um pequeno ser entre todos os seres do cosmos, assumindo a tarefa de um beija-flor fazendo sua parte no tortuoso caminho da humanidade. Talvez por ser luz contra o ódio e exemplo contra a ganância, tenha sido tão atacado — até dentro da Santa Madre Igreja. Talvez, como Jesus, ele fosse maior que a Cúria, e por isso tão odiado por alguns e amado por tantos.
Em tempos de apologia ao ódio e ao retrocesso, a luz de Bergoglio fará falta. Seu “esperançar” num mundo solidário nos guiava.
Chico, partiste no dia após a Páscoa — símbolo da ressurreição —, e tenho certeza de que Jesus, vivo, estava ao teu lado. Nas areias da praia eterna, as pegadas de Cristo e Francisco de Assis agora têm, ao lado, as marcas de seus sapatos pretos.
Que tua luz e teu humanismo ecoem!
Ave, Papa Francisco!
Serás sempre nosso guia rumo à fraternidade! Obrigada por tanto Chico, meu grande amigo!
*Palowa Mendes é Advogada, Ambientalista, Militante Social, e Assessora Parlamentar





