Filipe Colaço*
A inteligência artificial tem destacado um protagonista emergente em 2025: os Agentes de AI — sistemas inteligentes que não apenas respondem a comandos, mas tomam decisões, interagem com plataformas, executam fluxos de trabalho e aprendem com o contexto em tempo real. Trata-se de uma nova geração de inteligência artificial aplicada, orientada à ação e profundamente integrada ao dia-a-dia corporativo.
Ao contrário dos chatbots tradicionais ou assistentes virtuais com funções limitadas, os Agentes de AI operam com autonomia definida dentro de domínios específicos, desempenhando funções como triagem de candidatos, reprogramação de entregas, prospecção de clientes ou análise de relatórios. Esses agentes combinam modelos de linguagem avançados (LLMs), motores de decisão, interfaces com sistemas empresariais (como ERPs e CRMs) e memória contextual — permitindo-lhes agir com mínima intervenção humana.
Segundo o recente estudo da McKinsey “Global Survey on AI Agents”, mais de 48% das grandes empresas globais testaram Agentes de AI nos últimos 12 meses em funções operacionais, e 21% já reportaram impacto direto em KPIs como tempo, custo ou qualidade. Esse movimento de adoção vem com diferentes níveis de maturidade. Embora nem todos os exemplos a abordar em seguida correspondam a agentes com plena autonomia, muitos já evidenciam um caminho claro de evolução para soluções cada vez mais inteligentes, proativas e decisivas dentro das organizações.
No Brasil, esse movimento ganha velocidade, com grandes empresas e multinacionais aplicando agentes em áreas como finanças, cadeia de suprimentos, RH, saúde e marketing.
O Grupo Boticário, por exemplo, tem adotado IA generativa para descrever automaticamente milhares de imagens de produtos no seu e-commerce. O foco é melhorar a acessibilidade para usuários com deficiência visual e otimizar o SEO. Embora o processo envolva revisão humana, fluxos de trabalho como este podem ser parcialmente conduzidos por agentes criativos com potencial de escalabilidade e evolução.
A Ambev, por outro lado, tem recorrido a soluções mais próximas de agentes completos: algoritmos internos monitoram variáveis como clima, volume de pedidos e restrições logísticas para reprogramar rotas de entrega em tempo real — gerando reduções consistentes em custos operacionais. Trata-se de um exemplo de agente autônomo especializado com impacto direto na produtividade.
No setor de recursos humanos, a Embraer aplica IA no recrutamento de estagiários, em parceria com a plataforma Gupy. A IA é capaz de realizar a triagem e priorização de candidatos, atuando sobre perfis comportamentais e alinhamento com requisitos da vaga. Embora supervisionado por humanos, um agente digital pode assumir tarefas operacionais repetitivas desta natureza, potenciando ganhos em agilidade e inclusão.
A Dasa, referência em medicina diagnóstica, utiliza algoritmos de IA para interpretar exames de imagem, sugerindo relatórios preliminares que são posteriormente validados por especialistas. A possibilidade de atuação conjunta entre médicos e agentes de IA potencia a redução do tempo de resposta clínica e libera os humanos para casos complexos, sobretudo em regiões com menor densidade (ou disponibilidade) de profissionais.
Além dos ganhos operacionais, Agentes de AI podem ser utilizados em processos de onboarding e formação corporativa. Empresas estão a testar agentes para adaptar conteúdos de integração com base no perfil do colaborador, função e histórico prévio, criando jornadas personalizadas de aprendizagem. Isso representa uma nova forma de gerir conhecimento organizacional — mais responsiva, escalável e centrada no indivíduo.
Na área comercial e de marketing, Agentes de AI atuam hoje como verdadeiros pré-vendedores digitais. Em empresas B2B e fintechs, esses sistemas mapeiam leads com base em sinais públicos, interagem com potenciais clientes e agendam reuniões para os executivos de contas. Sem contratar profissionais adicionais é possível aumentar a conversão graças à ação coordenada desses agentes.
Segundo estimativas e pilotos conduzidos por firmas com a EY, organizações que integram agentes com equipas híbridas (humanos e IA), podem atingir ganhos operacionais superiores a 20%, sobretudo em funções e processos de suporte. Ainda que os números variem por sector, a tendência é clara: os agentes já estão a acelerar a produtividade de forma estruturada.
O potencial é inegável, mas também exige prudência. O uso ético da IA, a definição clara de limites de autonomia e a integração segura com sistemas críticos são temas centrais para qualquer empresa que queira escalar esses agentes com confiança. O relatório da Gartner “Future of Work 2025” alerta que, sem uma estrutura de governança robusta, o uso de agentes pode amplificar vieses ou falhas operacionais.
Em conclusão, mais do que substituir profissionais, os agentes reposicionam o papel do ser humano na organização — tornando-o mais analítico, mais estratégico e mais criativo. O futuro do trabalho não será apenas digital, nem apenas humano. Será coordenado por inteligências complementares, em ambientes onde algoritmos e pessoas colaboram em tempo real para resolver problemas complexos com agilidade e escala.
É nesse novo modelo que reside a verdadeira vantagem competitiva das organizações do futuro!
*Filipe Colaço é Engenheiro Civil pela Universidade Nova de Lisboa, MBA pela Henley Business School, Inglaterra, e Director da Consulting Services EY Angola. Tem 18 anos de experiência em companias multinacionais, como a Deloitte e Boston Consulting Group, com projetos em Energia, Agronegócios, Mineração, Construção e Sector Público





