Câmara dos Comuns, da Inglaterra, onde parlamentares criticam posição de Israel. (Foto: Divulgação)


Em um discurso contundente diante da Câmara dos Comuns, o ministro das Relações Exteriores britânico, David Lammy, indicou que a escalada na Faixa de Gaza é “moralmente injustificável, totalmente desproporcional e contraproducente”. Segundo ele, “esta guerra deixa uma geração de órfãos e traumatizados, prontos para serem recrutados pelo Hamas”.

Por isso, Londres “suspendeu as negociações com o governo israelense sobre um novo acordo de livre comércio”, anunciou Lammy. De acordo com o ministro, o Reino Unido vai reexaminar a cooperação com Israel. “As ações do governo Netanyahu tornaram isso necessário”, reiterou o britânico, condenando também os atos de “colonos extremistas na Cisjordânia”.

Em comunicado, o Ministério das Relações Exteriores britânico anunciou sanções, incluindo restrições financeiras e proibições de viagens, a colonos israelenses por agressões na Cisjordânia. Entre as pessoas visadas estão Daniella Weiss, sionista ortodoxa de extrema-direita, considerada a líder dos extremistas. Duas organizações também são alvo das medidas.

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“As sanções ocorrem após um aumento dramático nas violências na Cisjordânia”, afirma ainda o documento. Desde 1º de janeiro de 2024, a ONU registrou mais de 1.800 ataques de colonos contra comunidades palestinas.

Segundo o governo britânico, Israel ocupava a 44a colocação entre os parceiros comerciais do Reino Unido em 2024. Os dois países trocaram 5,8 bilhões de libras (R$ 44 bilhões) em bens e serviços no ano passado. As negociações para concluir um acordo de livre comércio foram iniciadas em 2022.

O secretário de Estado britânico encarregado do Oriente Médio, Hamish Falconer, também indicou que a embaixadora de Israel, Tzipi Hotovely, será convocada. O objetivo, segundo ele, é protestar contra “a escalada totalmente desproporcional da atividade militar em Gaza”.

OBSESSÃO

Logo após os anúncios, Oren Marmorstein, porta-voz do ministro das Relações Exteriores de Israel, acusou Londres de ter uma “obsessão anti-israelense” e minimizou os anúncios. “As negociações sobre o acordo de livre comércio não estavam de forma alguma avançadas”, afirmou.

O ministério israelense das Relações Exteriores ainda indicou que “as pressões externas não afastarão Israel de seu caminho”, frisando que o objetivo do país é “defender sua existência e segurança contra inimigos que buscam destruí-lo”. “Se, devido à sua obsessão anti-israelense e a considerações políticas internas, o governo britânico estiver disposto a prejudicar a economia britânica, isso é seu direito”, reiterou.

Logo depois, o governo israelense convocou seus negociadores líderes no Catar “para consultas”, mas com a permanência de uma equipe em Doha. Já o Exército de Israel indicou que ampliará sua ofensiva terrestre e ocupará novas áreas na Faixa de Gaza.

Socorristas do enclave palestino contabilizaram a morte de pelo menos 44 pessoas em bombardeios israelenses nesta terça-feira. Desde o início da campanha militar lançada em represália aos ataques do grupo Hamas de 7 de outubro de 2023, Israel matou pelo menos 53.573 pessoas, a maioria civis, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, que a ONU considera confiável.

Também nesta terça, após quase três meses de bloqueio à ajuda humanitária, Israel indicou que 93 caminhões carregando suprimentos puderam entrar no enclave palestino. Segundo o Cogat, escritório do Ministério da Defesa israelense, entre os produtos enviados estão farinha, comida para recém-nascidos, equipamentos médicos e remédios.

A trágica situação humanitária na Faixa de Gaza levou a União Europeia (UE) a anunciar nesta terça-feira que revisará seu acordo de associação com Israel. “Lançaremos este exercício e, enquanto isso, cabe a Israel desbloquear a ajuda humanitária. Salvar vidas deve ser a nossa prioridade máxima”, disse a chefe da diplomacia do bloco, Kaja Kallas, ao final de uma reunião de ministros das Relações Exteriores da UE em Bruxelas.

Segundo Kallas, a reunião ministerial desta tarde “mostra claramente que há uma grande maioria a favor da revisão do artigo 2 do nosso acordo de associação com Israel”. O texto se refere à necessidade de as partes signatárias do acordo se comprometerem a respeitar os direitos humanos.

Ao chegar à reunião, o ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares Bueno, anunciou que Madri, junto a outras três nações do bloco, assinou uma carta que pedia uma revisão do acordo. Para Albares, a situação humanitária na Faixa de Gaza é “insustentável, insuportável e desumana”. “O tempo das palavras acabou. É hora das ações”, ressaltou o ministro espanhol.

Ex-premiê francês convoca países ocidentais a isolarem Israel

Uma das principais vozes na França contra a guerra na Faixa de Gaza, o ex-primeiro-ministro Dominique de Villepin, fez um apelo nesta terça-feira (20) para que os países ocidentais reajam diante da intensificação dos ataques israelenses na Faixa de Gaza. Segundo ele, o “isolamento econômico e estratégico” de Israel pode ser uma saída para poupar o enclave palestino de uma limpeza étnica.
Em entrevista à emissora Franceinfo, Villepin denunciou o plano israelense para a Faixa de Gaza. “Após a reocupação, a segunda etapa será a deportação”, prevê, dizendo temer uma “depuração étnica” e “limpeza territorial”.

Para o ex-premiê, os líderes europeus têm consciência deste projeto, mas resistem em tomar medidas efetivas. Por isso, Villepin diz acreditar que três iniciativas que podem barrar a incursão israelense em Gaza: a suspensão imediata do acordo europeu com Israel, a imposição de um embargo sobre as armas europeias e a mobilização do Tribunal Penal Internacional para o julgamento de todo o governo Netanyahu e as principais autoridades militares do país.

“Se quiserem parar o que está acontecendo hoje, é preciso deixar claro para Israel que haverá um antes e um depois” da guerra na Faixa de Gaza, enfatizou.

Críticas a Macron

Villepin também não poupou críticas à atitude que o presidente francês, Emmanuel Macron, vem adotando diante do massacre da população de Gaza. “Qual credibilidade podemos ter sobre a questão ucraniana quando somos capazes apenas de assinar comunicados?”, questionou, referindo-se ao documento divulgado na segunda-feira (19) pela França, junto com Canadá e Reino Unido, condenando as operações no enclave palestino.

O comunicado conjunto é classificado por Villepin de “terrivelmente impotente”. No texto, Macron, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, e o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, ameaçam Netanyahu de “medidas concretas” caso não coloque um fim à sua ofensiva militar. “O que é preciso para que os dirigentes europeus, os dirigentes ocidentais, ajam na prática?”, questionou o ex-premiê.

Apesar das críticas de Villepin, a iniciativa do presidente tem forte repercussão na França. Para o jornal Le Monde, Macron lidera um movimento de condenação inédito contra a guerra na Faixa de Gaza, “acentuando a pressão a Israel”. A declaração ainda condena “a linguagem odiosa utilizada por membros do governo israelense e a ameaça de um deslocamento forçado de civis” e ressalta que os três países não permanecerão “de braços cruzados” enquanto “Netanyahu dá sequência às ações escandalosas”.

Advogado e diplomata, Dominique de Villepin foi ministro das Relações Exteriores e do Interior no início dos anos 2000, antes de ser nomeado primeiro-ministro durante o segundo mandato do presidente Jacques Chirac. Autodeclarado “da direita social”, ele é atualmente a personalidade política preferida na França, segundo pesquisa do instituto Ifop-Fiducial publicado na segunda-feira.

O ex-premiê vem conquistando a opinião pública com fortes declarações em defesa da população da Faixa de Gaza e sobre a crise diplomática entre a França e a Argélia. Villepin é apoiado tanto pela esquerda (55%) – principalmente pelos simpatizantes da esquerda radical França Insubmissa (65%) – quanto pela direita (55%), com 70% de opiniões positivas entre os simpatizantes do partido conservador Os Republicanos (70%).

O ex-primeiro-ministro, que ganhou atenção do mundo inteiro por um contundente discurso na ONU contra a guerra no Iraque em 2003, não confirma, mas deixa transparecer suas ambições para uma eventual candidatura às eleições presidenciais francesas de 2027.