O governador bolsonarista Tarcísio de Freitas, louvando Jesus, com a bandeira de Israel nas costas.(Reprodução: Redes Sociais)


Durante a 33ª edição da Marcha para Jesus, realizada em São Paulo nesta quinta-feira (19), data religiosa católica de Corpus Christi, o governador Tarcísio de Freitas e o prefeito Ricardo Nunes participaram do evento em um clima de forte apoio a Israel. Tarcísio apareceu enrolado na bandeira israelense e cantou louvores ao lado de líderes religiosos e políticos.

O evento, organizado pela Igreja Renascer em Cristo, reuniu milhares de fiéis no centro da capital paulista e contou com sete trios elétricos tocando músicas gospel. Muitos participantes também carregavam bandeiras de Israel, em meio à atual guerra envolvendo o país contra o Irã e o genocídio de civis palestinos na Faixa de Gaza.

A data coincidiu com o aniversário de 50 anos de Tarcísio, que foi homenageado com um “parabéns pra você”. O prefeito Ricardo Nunes, acompanhado da família, destacou que a Marcha chega à sua 33ª edição — “a idade de Cristo”.

Continua depois da publicidade

Por que Evangélicos Insistem em Louvar a Bandeira de Israel?

Nos últimos anos, tornou-se comum ver a bandeira de Israel tremulando em eventos evangélicos no Brasil — especialmente em manifestações ligadas à direita e à extrema direita. A Marcha para Jesus, por exemplo, frequentemente exibe esse símbolo ao lado de discursos políticos e religiosos.

Mas por que um país de maioria judaica, com uma religião distinta do cristianismo, se tornou um ícone tão presente no imaginário evangélico brasileiro?

Para muitos evangélicos, especialmente os de vertente neopentecostal, Israel representa o cumprimento de profecias bíblicas. A fundação do Estado de Israel em 1948 é vista como um marco escatológico — um sinal do fim dos tempos e da segunda vinda de Cristo. Essa leitura literal da Bíblia aproxima espiritualmente os fiéis do estado judeu, mesmo que este não compartilhe da fé cristã.

A Religião de Israel: o Judaísmo

Israel é o único país do mundo com maioria judaica. Cerca de 82% da população israelense segue o judaísmo, enquanto apenas 2% são cristãos. O judaísmo é uma religião monoteísta milenar, baseada na Torá, e não reconhece Jesus como o Messias. Para os judeus, o Messias ainda está por vir — o que marca uma das principais divergências com o cristianismo, que vê Jesus como o Filho de Deus e salvador da humanidade.

Antagonismos e Aproximações entre Judaísmo e Cristianismo

Historicamente, o cristianismo surgiu do judaísmo, mas as duas religiões se separaram nos primeiros séculos da era cristã. O ponto central de ruptura foi a figura de Jesus: enquanto os cristãos o veem como o Messias prometido, os judeus o consideram um profeta ou até mesmo um falso messias. Essa diferença teológica gerou séculos de tensão, perseguições e desconfiança mútua.

Apesar disso, muitos evangélicos brasileiros não veem contradição em apoiar Israel. Pelo contrário: acreditam que essa aliança espiritual é uma forma de “abençoar o povo escolhido” e, por consequência, receber bênçãos divinas.

A Instrumentalização Política da Fé

O uso da bandeira de Israel também tem um componente político. Líderes evangélicos e políticos conservadores brasileiros, como os que participaram da Marcha para Jesus, utilizam esse símbolo para reforçar uma identidade comum entre cristãos e judeus — uma “frente de fé” contra o que consideram inimigos em comum, como o islamismo radical, o comunismo ou o secularismo.

Além disso, há uma estratégia de aproximação com o governo israelense e com o eleitorado evangélico, que vê em Israel um aliado espiritual e político. Viagens de pastores a Jerusalém, encontros com autoridades israelenses e o uso de símbolos judaicos em cultos são parte dessa construção simbólica e diplomática.