A argentina Julieta Santamaría, de 26 anos, se tornou a primeira pessoa a completar os aproximadamente 4 mil quilômetros do Caminho da Mata Atlântica - (Fotos: Ana Momm/SOS Mata Atlântica)


Em uma jornada extraordinária que redefiniu os limites da resistência e da conexão com a natureza, a argentina Julieta Santamaría, de 26 anos, se tornou a primeira pessoa a completar os aproximadamente 4 mil quilômetros do Caminho da Mata Atlântica. Essa trilha de longo percurso serpenteia por áreas protegidas ao longo da Serra do Mar e parte da Serra Geral, atravessando cinco estados brasileiros: Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Por vários meses, Julieta enfrentou terrenos desafiadores, mudanças climáticas e travessias remotas, enquanto se imergia na beleza e na rica biodiversidade de um dos biomas mais ameaçados do planeta.

A motivação inicial para Julieta embarcar nessa aventura foi o desafio de encarar o desconhecido. Sem experiência prévia em acampamento solo ou montanhismo, a semente de viver perto da natureza, algo que ela sentia desde a Argentina, finalmente germinou. Com o tempo e os quilômetros percorridos, a jornada ganhou novos significados: ela descobriu que sua caminhada poderia inspirar outros a se conectar com a natureza, a perseguir seus sonhos e a entender que o essencial para alcançar metas muitas vezes já está dentro de nós. Essa percepção a levou a convidar pessoas para caminhar com ela, sempre promovendo a preservação ambiental e a prática de mínimo impacto. A decisão de iniciar a trilha foi quase instintiva; em novembro de 2023, ao descobrir o Caminho da Mata Atlântica, em apenas três dias ela mudou seus planos e sentiu um desejo avassalador de seguir em frente, uma sensação que a impulsionou com força total.

(Fotos: Ana Momm/SOS Mata Atlântica)

O maior desafio, segundo Julieta, foi mental. Passar tanto tempo sozinha, seja em meio à natureza exuberante ou em estradas aparentemente intermináveis, longe das pessoas e das redes sociais, a levou a uma profunda retrospectiva. Questões não resolvidas ressurgiam com intensidade, mas se transformaram em uma oportunidade de resolução, autoconexão e perdão. Com o tempo, ela atingiu um estado de presença plena, onde os pensamentos não mais a perturbavam, abrindo espaço para uma conexão mais intensa com a natureza, focada nos detalhes e sons. Essa experiência a fez valorizar o presente, algo que, em meio à ansiedade moderna, muitas vezes é negligenciado.

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A chegada ao fim da jornada foi um momento de profunda emoção e orgulho. Nos dias finais, Julieta aproveitou a solidão para processar tudo o que havia vivido e agradecer por ter completado os mais de 4 mil quilômetros em segurança. Os dois últimos dias, nos Parques Nacionais da Serra Geral e Aparados da Serra, foram compartilhados com amigos de diversos estados, simbolizando a união de pessoas desconhecidas em prol do Caminho da Mata Atlântica. A surpresa final, com a chegada de sua mãe e irmã da Argentina para entregar a placa de conclusão, selou uma missão que, embora percorrida por ela fisicamente, foi finalizada com o apoio de muitos, desde voluntários do projeto até desconhecidos que a acolheram ao longo do trajeto.

Ao longo do caminho, Julieta ficou surpresa com as paisagens e as mudanças no bioma. Ela observou o contraste entre áreas desmatadas e reflorestadas, notando a alteração na temperatura, o aumento de nascentes e a facilidade de encontrar animais em locais preservados. Desenvolveu um interesse por pássaros, tentando reconhecê-los pelo som e morfologia. As paisagens montanhosas, com vistas panorâmicas da cidade, céus estrelados e tapetes de nuvens, assim como os nasceres e pores do sol e da lua cheia, ficaram gravados em sua memória.

Apesar da beleza, houve momentos de medo, como os encontros com bandos de queixadas e javalis, mas todos terminaram bem, reforçando a ideia de que, muitas vezes, os animais sentem mais receio dos humanos.

A trilha transformou completamente a relação de Julieta com o meio ambiente. Hoje, ela se vê como um exemplo, feliz por ter conseguido aproximar outras pessoas da vivência na natureza. Acredita que ninguém cuida do que não conhece, e essa conexão é vital. Suas mudanças de hábitos incluem o uso de produtos livres de crueldade animal e veganos, a abstenção de carne, a separação de lixo e a coleta de resíduos na trilha. Julieta refuta a ideia de que suas ações individuais não fariam diferença, defendendo que nossos atos refletem quem somos e que, mesmo sem mudar o mundo inteiro, podemos colaborar para torná-lo melhor.

Momentos mágicos e simbólicos marcaram a jornada. Julieta relata sentir arrepios ao errar o caminho, interpretando isso como uma forma de comunicação da natureza. Houve também instantes em que seu corpo pedia para simplesmente parar, fechar os olhos e sentir o vento, ouvir uma cachoeira ou o canto dos pássaros, experiências simples que a preencheram de paz.

A preparação para a travessia foi um desafio à parte, já que Julieta não tinha experiência em trilhas de longo curso. Sua base esportiva – natação, handebol, musculação, crossfit e ciclismo como meio de locomoção – foi crucial para sua resistência. Entre novembro e fevereiro, ela intensificou pedaladas, natação, corridas e caminhadas com a mochila carregada. A logística, inicialmente planejada sozinha, precisou ser adaptada. Por ser uma trilha nova, a melhor abordagem foi planejar de cinco dias a uma semana, contando com o apoio de pessoas locais e da coordenação do Caminho Mata Atlântica, mantendo-se sempre adaptável às condições impostas pela natureza.

A jornada durou 195 dias de caminhada efetiva, totalizando cerca de seis meses e meio, embora o projeto completo tenha se estendido por quinze meses. Julieta contou com amplo apoio de voluntários, parceiros do CMA, desconhecidos, instituições como a Fundação Florestal e o ICMBio, associações, federações, lojas e grupos de trilheiros, que a acompanhavam e ofereciam ajuda pelas redes sociais. Os pernoites foram variados, incluindo pousadas, campings (inclusive selvagens), casas de desconhecidos, igrejas e até bares com quadras de futebol. Os itens indispensáveis em sua mochila eram barraca, saco de dormir, isolante, lanterna, fogareiro, panelas, gás, powerbank, e o Spot, um rastreador satelital que garantia sua localização e comunicação mesmo sem sinal, além de roupas e itens de higiene pessoal, priorizando sempre o essencial em detrimento do conforto.

Para quem sonha em percorrer esse caminho, Julieta enfatiza que não é uma trilha fácil, com um acúmulo de cerca de 120 mil metros de altimetria. Sua principal dica é priorizar a qualidade dos equipamentos, que podem evitar muitos problemas, e aproveitar cada lugar e pessoa encontrados no trajeto.

Julieta deseja que as pessoas compreendam que o Caminho da Mata Atlântica é muito mais que uma mega trilha; é um projeto de restauração ambiental. Construído coletivamente por voluntários, com uma governança participativa, ele se desenvolve graças à ajuda e articulação de todos que acreditam em sua missão. A visibilidade dessa trilha é crucial para a conservação da Mata Atlântica, pois aproxima as pessoas da natureza, incentivando-as a cuidar do que conhecem. Ela presenciou tanto ações de plantio de espécies nativas quanto crimes ambientais, como áreas queimadas, desmatamento, pastagens em locais de mata e a presença de caçadores e palmiteiros, o que reforça a importância do projeto como ferramenta de educação e mobilização ambiental, transmitindo a mensagem de cuidado e conscientização.

Como argentina, a conexão de Julieta com o bioma, majoritariamente brasileiro mas também presente em seu país e no Paraguai, foi profunda. Embora apaixonada pela Mata Atlântica brasileira, ela sentiu a vontade de conhecer mais a Selva Misionera, a parte argentina do bioma. Sua conquista, ela espera, transmita a mensagem de perseverança, foco, fé e autoconfiança, além da importância de preservar e se conectar com a natureza. A pergunta “o que posso fazer com isso?” ecoa em sua mente, impulsionando-a a continuar transmitindo essa mensagem. Julieta pretende escrever um livro sobre sua experiência e dar palestras em eventos maiores, já tendo compartilhado sua história em escolas e clubes de montanhismo. Ela acredita na importância de as mulheres ocuparem seus espaços e se sente grata por inspirar outras, especialmente as mais jovens, a seguir seus sonhos e realizar o que desejarem.