Esses medicamentos, destinados a quem tem diabetes tipo 2, só podem ser comprados com prescrição médica. (Foto: Reprodução)


A explosão no uso de medicamentos injetáveis à base de semaglutida, como Ozempic e Wegovy, para perda de peso tem sido acompanhada por um aumento alarmante de relatos de efeitos colaterais potencialmente fatais, muitos dos quais não foram detectados nos ensaios clínicos iniciais.

Embora raros, especialistas sublinham que essas complicações podem surgir, especialmente quando o uso não é supervisionado por um médico.

Desde 2017 no mercado americano, esses “imitadores” do hormônio GLP-1, que induz a saciedade, conquistaram o público. O Ozempic, inicialmente para diabetes tipo 2, e seu similar Wegovy, aprovado para perda de peso em 2021, tornaram-se populares. No Brasil, porém, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a semaglutida exclusivamente para diabetes tipo 2, tornando sua prescrição para emagrecimento um uso “off label”.

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Apesar dos ensaios clínicos terem atestado a segurança e eficácia para uso comercial, desde a chegada desses medicamentos ao mercado, uma série de novas complicações tem sido relatada por pacientes. Inicialmente, o Ozempic ganhou notoriedade por efeitos colaterais desagradáveis como náusea, diarreia e outros problemas digestivos. Relatos mais recentes incluem alterações na visão, disfunção erétil e mudanças de humor, além da flacidez na pele decorrente da perda de peso.

No entanto, o que mais tem preocupado os profissionais de saúde são os relatos de doenças graves após o uso prolongado. Um órgão regulador do Reino Unido, por exemplo, destacou efeitos colaterais potencialmente fatais de pancreatite aguda, uma inflamação do pâncreas, após pelo menos dez mortes terem sido associadas a essa condição entre usuários britânicos. Penny Ward, médica e professora no King’s College London, Reino Unido, alertou à DW que “os efeitos colaterais mais preocupantes incluem pancreatite e impactos em distúrbios musculoesqueléticos.”

No Brasil, em abril deste ano, a Anvisa também emitiu um alerta, indicando que dados de notificação no VigiMed sinalizaram um número de eventos adversos relacionados ao uso das canetas emagrecedoras acima da média global. Em resposta, a agência passou a exigir a retenção de receita para a venda do fármaco, tal como ocorre com antibióticos. A medida, segundo a Anvisa, visa “proteger a saúde da população brasileira, especialmente porque foi observado um número elevado de eventos adversos relacionados ao uso desses medicamentos fora das indicações aprovadas pela Anvisa.”

Efeitos Colaterais Pós-Comercialização: Uma Realidade “Não Incomum”

Um estudo abrangente publicado na revista Nature Medicine em janeiro de 2025 analisou sistematicamente os riscos à saúde relatados por mais de 215 mil pessoas usando medicamentos GLP-1 para diabetes. A pesquisa revelou riscos adicionais não identificados nos ensaios clínicos, incluindo um aumento de 11% no risco de artrite e um impressionante aumento de 146% no risco de pancreatite. Também foram relatados riscos maiores de pressão baixa, tontura ou desmaios, e problemas renais como pedras e inflamação. O estudo também corroborou os riscos já conhecidos de diversos distúrbios gastrointestinais, reforçando investigações anteriores.

Conforme a professora Penny Ward, não é incomum que reações adversas adicionais sejam identificadas após a entrada de um produto no mercado. “Efeitos colaterais mais raros podem surgir à medida que mais pacientes utilizam esses medicamentos na prática clínica. Simplesmente porque um número muito maior de pessoas está sendo tratado em comparação ao incluído nos ensaios clínicos”, afirmou Ward. Ela ressaltou a importância do monitoramento contínuo da segurança dos medicamentos no mercado.

A Urgência por Mais Pesquisas e a Preocupação com a Visão

No ano passado, surgiram relatos preocupantes de cegueira após a administração do Wegovy, que contém o mesmo princípio ativo do Ozempic. Pesquisadores investigaram esses casos e descobriram uma associação entre o uso da semaglutida e um aumento do risco de Neuropatia Óptica Isquêmica (NAION), uma doença que afeta o nervo óptico. A Anvisa também identificou casos semelhantes, exigindo a inclusão desse efeito colateral na bula.

Embora a NAION seja rara, afetando cerca de 10 em cada 100 mil pessoas, um estudo publicado na revista JAMA Ophthalmology revelou que pessoas com diabetes que usam semaglutida têm quatro vezes mais chances de desenvolver a doença do que a média da população. “Essa pesquisa sugere uma associação entre o tratamento com semaglutida e uma forma de neuropatia óptica que ameaça a visão, mas isso idealmente deveria ser testado em estudos maiores”, pontuou Graham McGeown, professor honorário de fisiologia na Queen’s University Belfast, Reino Unido.

Especialistas são unânimes na necessidade de muito mais pesquisas em populações representativas para compreender melhor os efeitos colaterais da semaglutida e seus riscos reais. Karolina Skibicka, neuroendocrinologista da University of Calgary, Canadá, destacou a importância de dados sobre “quem toma o medicamento para obesidade, pois precisa de uma dose maior do que quem tem diabetes e o usa por mais de dois anos.” Skibicka enfatizou ainda a urgência de estudos que incluam mulheres, que “apresentam efeitos colaterais únicos a muitas terapias farmacológicas, e ainda assim, na maioria dos estudos, elas costumam ser sub-representadas em várias fases de testes.”

Benefícios Superam Riscos se o Uso For Conforme a Prescrição

Apesar das crescentes preocupações com novos efeitos colaterais, Karolina Skibicka ressaltou à DW que “a lista de benefícios desse fármaco, quando usado como prescrito na bula, ainda é significativamente maior e mais impactante do que os riscos.” Por essa razão, Skibicka considera “improvável” que o surgimento de efeitos colaterais raros, mas graves, justifique novas recomendações mais restritivas para a prescrição de GLP-1.

Pesquisadores têm identificado inclusive efeitos colaterais “benéficos” da semaglutida quando administrada conforme a bula. Estudos indicam que seu uso está associado a um menor risco de demência e doença de Alzheimer. Além disso, investigações estão em andamento para avaliar se essas drogas podem ser eficazes no tratamento de transtornos relacionados ao consumo de substâncias químicas.

O estudo da Nature de janeiro de 2025 também relatou redução nos riscos de distúrbios de coagulação sanguínea, doenças cardiorrenais e metabólicas, e várias condições respiratórias em pacientes diabéticos que usam a semaglutida. Os autores especulam que o medicamento pode trazer benefícios secundários por atuar em várias partes do corpo e por tratar a obesidade, um fator que contribui para diversos problemas de saúde.