Sua figura transcende o papel de ex-presidente e assume o de catalisador de rupturas, tensionando instituições, contaminando o debate público e influenciando conexões internacionais questionáveis e perigosas que ameacam o regime democrático.
Esta análise é um chamado à reflexão sobre como um projeto personalista e autoritário pode resistir ao tempo e desafiar as estruturas democráticas, mesmo após deixar o poder.
O Supremo Tribunal Federal tem adotado medidas de contenção rigorosas, como uso de tornozeleira eletrônica, bloqueio de comunicação com diplomatas e restrições digitais — respostas necessárias diante de acusações gravíssimas.
Bolsonaro não é mero alvo político, mas réu — e principal liderança — por tentativa de golpe.
Suas movimentações revelam um padrão de ameaças diretas à estabilidade constitucional, num roteiro que passou pela destruição de políticas públicas, instrumentalização de órgãos de controle e flertes explícitos com o autoritarismo.
A gestão desastrosa que marcou seu governo deixou legados profundamente negativos: a fome voltou a assombrar milhões de brasileiros, a inflação corroeu salários, a pandemia foi tratada com negligência mortal. Em vez de combater desigualdades, Bolsonaro amplificou discursos de ódio, protegeu aliados e perseguiu opositores, enfraquecendo o pacto civilizatório sobre o qual se ergue qualquer república.
No plano internacional, o alinhamento ideológico com Donald Trump e o respaldo de grandes corporações de tecnologia expõem o Brasil a interesses escusos. A imposição de tarifas às exportações brasileiras — consequência da fricção política e da regulação digital — mostra como o bolsonarismo ultrapassou fronteiras e virou peça em um tabuleiro global de manipulação e desinformação.
A possibilidade de asilo político nos Estados Unidos não é apenas um insulto diplomático: é um alerta sobre como figuras autoritárias podem ser recicladas como mártires por narrativas conservadoras mundiais.
O bolsonarismo é o PCC da política, o ovo da serpente que chocou e ganha força para se reproduzir, agregando incautos e desinformados.
No campo eleitoral, o bolsonarismo deixou um espólio desejado por nomes como Tarcísio de Freitas e Romeu Zema, que tentam capturar a base radicalizada sem assumir os custos éticos e jurídicos.
Nenhum deles tem estatura para disputar a presidência. São políticos medíocres, patrocinados pelos interesses de uma elite que financiou a tentativa de golpe de estado.
Sobem sem nenhuma vergonha no palanque do golpismo e, ao lado de Bolsonaro, malafaias e caterva, discursam em apoio a um criminoso contumaz.
Ao fazerem isso, revelam mais sobre a fragilidade da nova direita do que sobre sua força. Falta projeto, sobram riscos à democracia. Quem tenta herdar esse capital político de Bolsonaro sem confrontar seus vícios incorre na mesma irresponsabilidade histórica.
Lula, nesse cenário, colhe dividendos políticos da desarticulação bolsonarista, mas enfrenta o desafio de se mostrar estadista: precisa liderar com pragmatismo, reconstruir pontes diplomáticas e restaurar a confiança nas instituições. O Brasil exige mais do que um contraponto — exige visão, ação e resgate da ética pública.
Bolsonaro foi presidente, mas seu legado é uma advertência. Cabe à sociedade, às instituições e à imprensa preservar a memória dos estragos e impedir que esse vírus letal volte a se vestir de esperança.


