A decisão dos Estados Unidos de impor uma tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras, anunciada em 9 de julho, tem gerado intensos debates e grande preocupação nos setores econômicos do Brasil.
O assunto tem sido pauta diária e objeto de entrevistas em diversos veículos de comunicação, incluindo o portal Brasil Confidencial e o Jornal BC TV, transmitido via internet e redes sociais.
Diante da evolução contínua do cenário, o BC TV convidou o economista Ulisses Ruiz de Gamboa, da Associação Comercial de São Paulo, para analisar os impactos do “tarifaço” — que entra em vigor em 1º de agosto — nos setores produtivos e no varejo da maior cidade do país. A entrevista foi conduzida por Camila Srougi e Germano Oliveira nesta quinta-feira (24).
O economista afirmou que o cenário atual exige muita cautela por parte do governo brasileiro e urgência na busca por uma solução diplomática com o governo norte-americano.
Gamboa foi enfático ao destacar a desigualdade de forças entre Brasil e Estados Unidos, a primeira e a oitava economias do planeta, respectivamente.
Uma das primeiras perguntas feitas por Camila e Germano abordou uma entrevista publicada pelo portal da BBC News Brasil nesta quinta-feira (24), com o Prêmio Nobel de Economia Paul Krugman. Krugman afirmou, entre outras coisas, que o Brasil terá que retaliar os Estados Unidos, pois não vê, neste momento, qualquer boa vontade de Donald Trump em negociar com o Brasil, como tem feito com outros países.
Uma matéria completa com as declarações de Krugman está publicada no portal Brasil Confidencial.
Na opinião de Gamboa, no entanto, o Brasil não deveria retaliar, embora tenha legislação com esse instrumento de pressão, pois correria o risco de sofrer sanções ainda maiores dos Estados Unidos.
“Eu acho que nós não temos cartas para retaliar, porque nos arriscaremos a sofrer sanções maiores ainda, que podem afetar muito mais a economia brasileira de forma negativa. É uma briga. Na verdade, vai se criar uma guerra desigual”, declarou o economista. Gamboa ressaltou a importância dos Estados Unidos como o segundo principal parceiro comercial do Brasil, mas ponderou que a recíproca não é verdadeira para os EUA.
Negociação
Para Ulisses Gamboa, a saída para o Brasil é a negociação. Ele relembrou o comportamento do presidente dos EUA, citando o uso da ameaça de aumento de tarifas como ferramenta de barganha em outras ocasiões.
“Se a gente olhar o comportamento anterior do presidente [dos EUA], ele tem usado a ameaça de aumento de tarifas para negociar vários pontos. Então, assim, de alguma forma, a gente teria que negociar, teria que ter uma solução diplomática”, pontuou.
O economista alertou para as consequências de uma possível retaliação brasileira. “Uma retaliação poderia significar que o governo americano aumente ainda mais as tarifas, ou que o governo americano aplique sanções ao Brasil — sanções estas que seriam muito negativas para a economia brasileira”, explicou.
Ao ser questionado sobre a possibilidade de o Brasil seguir o exemplo da China, que conseguiu negociar uma redução de tarifas após uma imposição inicial de 34% por parte dos EUA, Gamboa foi categórico: “Não dá para comparar o Brasil com a China.” Ele destacou que a China possui matérias-primas raras cruciais para a economia americana, conferindo-lhe um poder de barganha incomparável. “A China é uma potência e tem poder de barganha”, disse.
Nióbio: A Única “Carta na Manga”
O economista da Associação Comercial reconheceu que a única “carta na manga” do Brasil é o nióbio — um elemento químico metálico de grande interesse para a indústria aeroespacial americana, utilizado no desenvolvimento de componentes de foguetes e aeronaves, na fabricação de supercondutores e aceleradores de partículas, na indústria automobilística (para ligas de aço), em reatores nucleares e em equipamentos de processamento químico.
Existem concentrações significativas de nióbio em Minas Gerais, Goiás e na Amazônia. O Brasil detém cerca de 98,4% das reservas mundiais de nióbio, seguido pelo Canadá com 1,11%. Segundo o economista, o nióbio seria a principal “carta na manga” dos negociadores e do governo brasileiro.
De acordo com Gamboa, em outras áreas, o Brasil não conseguiria ter êxito, já que os produtos mais exportados para os Estados Unidos são minérios de ferro e alumínio, carne e café, suco de laranja e aviões da Embraer.
“A única carta na manga que o Brasil tem é o nióbio, que é vital para a indústria aeroespacial americana. Mas o Brasil tem um café. O americano vai tomar café colombiano. Substitui. Nós não temos um monopólio de algo que seja vital para a economia americana. O nióbio é a nossa única carta”, afirmou. “Não dá para negociar. Estamos falando de jogo de cartas. Então, não é o momento de pedir para jogar truco, como disse o presidente Lula.”
Mercado Interno e Inflação
E qual será o impacto do “tarifaço” e do desestímulo às importações de produtos brasileiros pelos americanos?
Segundo Gamboa, num primeiro momento, os produtores afetados pelas tarifas podem “desovar” seus produtos no mercado interno, o que poderia levar a uma redução nos preços de itens como carne e suco de laranja.
Contudo, o economista alertou para o cenário em caso de retaliação brasileira com o aumento das tarifas de importação. Ele destacou que 90% do que o Brasil importa dos Estados Unidos são insumos.
“Isso vai provocar um fortíssimo aumento nos custos de produção no caso brasileiro. Então, esse é outro ponto além da escalada da guerra comercial que a retaliação pode gerar. A gente se prejudica mais ainda”, enfatizou.
Tal aumento nos custos de produção geraria pressão sobre a inflação, obrigando o Banco Central a manter juros mais altos por mais tempo, desacelerando a economia e impactando negativamente a geração de renda e emprego no Brasil.
Varejo: Efeito Indireto
Questionado sobre dados da Associação Comercial de São Paulo que indicam uma queda nas vendas do varejo em decorrência do impasse, Gamboa explicou que a instituição está acompanhando a situação. Ele ressaltou que o impacto no varejo brasileiro seria indireto.
“Na medida em que as nossas exportações caírem, a atividade econômica associada a esses setores vai cair também. A geração de renda vai cair, o emprego vai cair. A queda da renda vem na sequência, pode afetar o emprego. Isso tudo fará com que o varejo se prejudique”, afirmou.
Embora a Associação Comercial ainda esteja estimando esse efeito indireto, o economista garantiu que “certamente viria um efeito negativo”. Estudos indicam que os três setores mais afetados em termos de redução do emprego seriam o agrícola, o industrial e o varejo — sendo este último impactado de forma mais indireta.
📺 Assista à entrevista completa com o economista Ulisses Ruiz de Gamboa:





