Navio com alumínio exportado pelo Brasil para os Estados Unidos.l (Foto: Divulgação)


O setor brasileiro do alumínio projeta perdas que podem ultrapassar R$ 1,15 bilhão até o final de 2025 devido às recentes sobretaxas impostas pelos Estados Unidos.

A Associação Brasileira do Alumínio (ABAL) divulgou nesta quinta-feira (31) uma análise preliminar da nova Ordem Executiva americana, que, apesar de não ser cumulativa à alíquota de 50% já vigente, trará impactos financeiros significativos e poderá gerar desequilíbrios em toda a cadeia de suprimentos global.

Em 2024, os EUA representaram o terceiro maior destino das exportações brasileiras de alumínio, totalizando US$ 773 milhões (cerca de R$ 4,2 bilhões). A ABAL estima que aproximadamente um terço desse volume estará sujeito à sobretaxa de 50%, inviabilizando o acesso de diversos produtos brasileiros ao mercado americano.

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Impacto nas exportações

Somente no primeiro semestre de 2025, as exportações brasileiras de produtos de alumínio afetadas pela Seção 232 já registraram uma queda de 28% em comparação com o mesmo período de 2024, resultando em uma perda de US$ 46 milhões (R$ 350 milhões).

Com a elevação da tarifa para 50% e a ampliação do escopo da lista recíproca, as projeções indicam que os prejuízos totais ao setor podem alcançar US$ 210 milhões (mais de R$ 1,15 bilhão).

Apesar de a alumina, insumo essencial para a produção de alumínio primário, ter sido isenta das tarifas, a ABAL alerta para os “riscos sistêmicos”.

O Brasil exportou 1,3 milhão de toneladas de alumina para os EUA em 2024, um volume crucial para a produção de cerca de 90% do alumínio primário americano.

A forte integração produtiva entre os países do Atlântico levanta preocupações de que os efeitos das tarifas se estendam a produtos não sobretaxados, devido aos desequilíbrios gerados em etapas distintas da cadeia.

“A ruptura da complementaridade regional pode afetar o abastecimento, redirecionar fluxos comerciais e comprometer a previsibilidade de operações industriais nos três países”, destaca a ABAL.

Disputa global

Outro efeito colateral apontado pela associação é a intensificação da disputa global por sucata de alumínio. As tarifas têm tornado os preços da sucata mais competitivos, gerando uma corrida por esse insumo e acendendo alertas sobre o risco de escassez de metal pós-consumo.

Regiões como a União Europeia e o Brasil, onde o alumínio reciclado é estratégico para a transição energética e a economia circular, são particularmente vulneráveis.

A ABAL enfatiza que esse cenário ameaça diretamente a sustentabilidade da cadeia de reciclagem e compromete investimentos feitos na construção de uma vantagem competitiva. A associação reitera a necessidade de um debate amplo sobre os impactos das medidas tarifárias, que considere a relevância estratégica de setores como o alumínio para as transições energética, econômica e industrial, buscando soluções que fortaleçam as vantagens competitivas e a resiliência das cadeias produtivas globais.

Confira a nota da ABAL na íntegra:

ABAL estima prejuízo de R$ 1,15 bi para o setor do alumínio com sobretaxas dos EUA e alerta para riscos sistêmicos

São Paulo, 31 de julho de 2025 – A Associação Brasileira do Alumínio (ABAL) informa que, após análise preliminar da nova Ordem Executiva publicada pelo governo dos Estados Unidos (com força de decreto presidencial), a nova tarifa recíproca não será cumulativa à alíquota de 50% vigente desde junho, imposta com base na Seção 232.

O documento também estabelece uma lista de produtos isentos de ambas as medidas, entre os quais se destaca a alumina, insumo essencial para a produção de alumínio primário e outras aplicações industriais. Entretanto, ficaram de fora das exceções, e, portanto, estarão também sujeitas à sobretaxa, as exportações de bauxita, hidróxido de alumínio, e cimento aluminoso.

Apesar de a não cumulatividade representar um alívio parcial, os impactos diretos das medidas já são expressivos. Em 2024, os Estados Unidos foram o terceiro principal destino das exportações da indústria brasileira de alumínio, atrás apenas de Canadá e Noruega, respondendo por 14,2% das vendas externas do setor, o equivalente a US$ 773 milhões (cerca de R$ 4,2 bilhões). Estima-se que cerca de um terço desse total esteja atualmente sujeito à sobretaxa de 50%, o que tornará inviável o acesso de vários produtos ao mercado americano.

Somente no primeiro semestre de 2025, as exportações brasileiras de produtos de alumínio sujeitas à Seção 232 recuaram 28% em comparação com o mesmo período de 2024 – uma perda de US$ 46 milhões (R$ 350 milhões), já sob impacto das tarifas anteriores de 10% (vigentes até 12 de março) e de 25% (entre 12 de março e 3 de junho). Com a elevação para 50% da Seção 232 e ampliação do escopo tarifário da lista recíproca, os prejuízos totais ao setor poderão alcançar US$ 210 milhões (mais de R$ 1,15 bilhão), considerando os efeitos diretos já contabilizados e as estimativas para até o final do ano.

Risco Sistêmico: ruptura da complementariedade na cadeia de suprimento

Mesmo com a exclusão da alumina das tarifas, a ABAL alerta para efeitos indiretos relevantes sobre toda a cadeia de suprimento. Em 2024, o Brasil exportou cerca de 1,3 milhão de toneladas de alumina para os Estados Unidos, volume utilizado na produção de aproximadamente 90% do alumínio primário americano. O insumo também é exportado ao Canadá, responsável por 64% da transformação do alumínio primário canadense — metal que, por sua vez, abastece uma parcela importante da demanda industrial dos EUA.

Considerando a forte integração produtiva entre os países do Atlântico, há risco de que os efeitos das tarifas se estendam a produtos não sobretaxados, devido aos desequilíbrios gerados em etapas distintas da cadeia. A ruptura da complementaridade regional pode afetar o abastecimento, redirecionar fluxos comerciais e comprometer a previsibilidade de operações industriais nos três países.

Efeito colateral: disputa global por sucata

Além dos impactos diretos sobre etapas específicas, a ABAL chama atenção para efeitos colaterais mais amplos, que já estão se desenhando no mercado global. O escalonamento tarifário tem pressionado os preços internacionais do alumínio, gerando incertezas que podem ampliar a volatilidade macroeconômica e precipitar uma desaceleração global motivada pela instabilidade comercial — com impactos sobre produção, investimentos e consumo.

Outro reflexo importante diz respeito às alterações na dinâmica de arbitragem geradas pela tarifa de 50% sobre o alumínio primário, que têm tornado os preços da sucata de alumínio mais competitivos, impulsionando uma disputa global por esse insumo. Essa corrida por sucata vem acendendo alertas sobre o risco de escassez de metal proveniente de material pós-consumo, especialmente em regiões como a União Europeia e o Brasil, onde o alumínio reciclado é uma fonte estratégica para a transição energética e pilar da economia circular.

Esse cenário compromete os investimentos feitos na construção de uma vantagem competitiva, fundamental à segurança de suprimento do metal, e ameaça diretamente a sustentabilidade da cadeia de reciclagem. O setor já vinha acompanhando com preocupação as mudanças nos fluxos de comércio de sucata, que, mesmo antes da atual escalada tarifária, já apontava para um processo contínuo de desvio de matéria-prima valiosa para o exterior — e escoamento de um recurso essencial à reindustrialização verde do país.

Diante desse cenário, a ABAL reforça a importância de que o debate em torno dos impactos das medidas tarifárias e da definição de um plano de mitigação não se restrinja a uma análise pontual ou exclusivamente comercial. É importante considerar a relevância estratégica de setores integrados às transições energética, econômica e industrial — como o alumínio — e construir soluções que fortaleçam nossas vantagens competitivas e a resiliência das cadeias produtivas, buscando oportunidades de fortalecer as relações de complementaridade entre países parceiros, preservando o equilíbrio, a previsibilidade e o desenvolvimento sustentável das relações comerciais globais.

Sobre a ABAL

Fundada em maio de 1970, a Associação Brasileira do Alumínio (ABAL) representa todos os elos da cadeia produtiva do metal, da mineração de bauxita às aplicações do alumínio, incluindo a sua reciclagem. Entre outras atividades, produz e divulga as estatísticas do setor, auxilia na elaboração e na aplicação de normas técnicas, gera e difunde conhecimento sobre o alumínio, incentiva seu uso, além de contribuir com a capacitação profissional do setor. A ABAL trabalha por uma indústria do alumínio cada vez mais competitiva, inovadora, sustentável e integrada.