O relógio marcava 8h15 da manhã quando o céu de Hiroshima foi rasgado por um clarão branco-azulado.
Era o dia 6 de agosto de 1945. A bomba atômica “Little Boy”, lançada pelos Estados Unidos, explodiu sobre a cidade japonesa, matando instantaneamente dezenas de milhares de pessoas e inaugurando uma nova era — a era nuclear.
O horror daquele dia ainda ecoa, 80 anos depois. E, paradoxalmente, enquanto o mundo presta homenagens às vítimas, cresce o temor de que a ameaça nuclear esteja mais viva do que nunca.
Testemunha do apocalipse
Setsuko Thurlow tinha apenas 13 anos quando sobreviveu ao bombardeio. Hoje, aos 93, sua memória é uma das últimas vozes vivas da tragédia. “Senti como se estivesse flutuando no ar. A onda de choque nos lançou para longe. Depois, vi pessoas que não pareciam mais humanas — pele pendurada, olhos nas mãos, membros faltando”, relatou em entrevista à DW.
Thurlow perdeu familiares, mas dedicou sua vida à luta contra as armas nucleares.
Tornou-se uma das principais ativistas da Campanha Internacional para a Abolição de Armas Nucleares (ICAN), vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2017. “Ainda temos 16 mil dessas armas. É uma loucura, até mesmo um crime”, alerta.
Cerimônia e compromisso
Desde 1947, o Sino da Paz toca em Hiroshima às 8h15 do dia 6 de agosto. A cerimônia anual homenageia os mortos e renova o apelo pela abolição das armas nucleares. O Japão, por meio de sua Constituição da Paz de 1946 e dos Princípios Não Nucleares adotados em 1967, comprometeu-se a não travar guerras nem possuir armamento nuclear.
O historiador Takuma Melber, da Universidade de Heidelberg, define essas cerimônias como um “evento de memória cultural central” para o Japão. “A mensagem de paz ainda é mantida. O apelo por ‘guerra nunca mais’ continua vivo.”
A nova corrida armamentista
O cenário atual é alarmante. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri), os gastos militares globais em 2023 foram os maiores desde o fim da Guerra Fria. A previsão para 2025 é de um aumento de 9,4%. As principais potências nucleares — Estados Unidos, Rússia e China — estão investindo pesadamente na modernização de seus arsenais.
A Rússia lidera o ranking com 5.459 ogivas nucleares, seguida pelos Estados Unidos com 5.177. China, França, Reino Unido, Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte completam a lista de países com armas nucleares.
Dan Smith, diretor do Sipri, alerta: “Após um longo período de redução, estamos começando a ver sinais de que essa tendência está se revertendo. O desarmamento nuclear de longo prazo está chegando ao fim.”
Japão e Alemanha: entre o pacifismo e a pressão geopolítica
O Japão, embora não possua armas nucleares, é protegido pelos Estados Unidos, que mantêm cerca de 54 mil militares no país. A crescente tensão com vizinhos como China e Coreia do Norte tem levado alguns políticos japoneses a reconsiderar a política de não proliferação. Embora os três princípios — não posse, não produção e não importação — ainda estejam em vigor, há quem defenda a criação de um arsenal limitado.
Na Europa, a guerra na Ucrânia reacendeu o debate sobre o acesso da Alemanha a armas nucleares. O deputado Jens Spahn, da CDU/CSU, propôs discutir a participação alemã no arsenal nuclear da França ou do Reino Unido. Atualmente, estima-se que 20 bombas nucleares americanas estejam armazenadas em Büchel, na Alemanha, sob controle dos EUA, mas com possibilidade de lançamento por aviões alemães.
O especialista Nico Lange observa: “Se você não é uma potência nuclear, realmente tem alguma influência? No caso de um possível uso, Japão e Alemanha não teriam liberdade para agir. Os Estados Unidos teriam a palavra final.”
O alerta que não pode ser ignorado
No 80º aniversário das bombas de Hiroshima e Nagasaki, restam poucos hibakusha para contar suas histórias. Mas a mensagem permanece urgente. “Os políticos ainda estão construindo mais. Em vez de um Estado com armas nucleares, como era o caso na época, agora são nove países. Temos que interromper esse processo!”, clama Thurlow.
A memória de Hiroshima não é apenas uma lembrança do passado. É um chamado para o presente — e um alerta para o futuro.
Representantes de 120 países estarão hoje em Hiroshima

O lançamento da bomba atômica pelos Estados Unidos matou cerca de 140 mil pessoas e deixou marcas profundas não apenas na paisagem da cidade de Nagasaki, mas na vida dos sobreviventes — os hibakusha — que, oito décadas depois, ainda lutam contra o estigma, a exclusão e a negligência estatal.
Três dias após Hiroshima, Nagasaki também foi atingida, com mais 74 mil mortos. Os dois ataques, únicos na história em tempos de guerra, aceleraram o fim da Segunda Guerra Mundial, mas inauguraram uma era de medo nuclear e sofrimento silencioso.
Hoje, Hiroshima é uma metrópole moderna com 1,2 milhão de habitantes. No centro da cidade, as ruínas do Domo da Bomba Atômica permanecem como símbolo da destruição e da memória. “É importante que muitas pessoas se reúnam nesta cidade atingida pela bomba atômica, pois as guerras continuam acontecendo pelo mundo”, afirma Toshiyuki Mimaki, copresidente da Nihon Hidankyo, associação de sobreviventes laureada com o Prêmio Nobel da Paz em 2024.
Discriminação invisível
Apesar da reconstrução física, os hibakusha continuam enfrentando barreiras sociais e institucionais. Muitos foram marginalizados por medo da radiação. Matsuyoshi Ikeda, que tinha 7 anos em 1945, lembra: “Muitos sobreviventes dos bombardeios tiveram grandes dificuldades para encontrar trabalho. As empresas desconfiavam deles”.
A discriminação também atingiu as mulheres. Tomoko Matsuo, de 92 anos, relata: “Felizmente não foi o meu caso, mas os estudos comprovam de forma incontestável que muitas sobreviventes nunca conseguiram se casar. Os homens imaginavam que, por causa da radiação, elas seriam inférteis”.
Além do preconceito social, há o que os sobreviventes chamam de “discriminação de Estado”. Milhares de pessoas que estavam nas cidades nos dias dos bombardeios não são oficialmente reconhecidas como vítimas, por não estarem dentro do perímetro definido pelo governo. Isso as impede de acessar cuidados médicos gratuitos. “Essa discriminação geográfica não faz sentido, já que até pessoas que estavam a dois quilômetros do ponto de impacto foram afetadas pela radiação”, critica o prefeito de Nagasaki, Shiro Suzuki.
Cerimônia global e apelo pela paz
Nesta quarta-feira (6). Hiroshima recebe representantes de 120 países e regiões, além da União Europeia, em uma cerimônia que marca os 80 anos do ataque. Pela primeira vez, Palestina e Taiwan estarão presentes, apesar de não serem oficialmente reconhecidos pelo Japão. Potências nucleares como Rússia, China e Paquistão estarão ausentes, mas o Irã confirmou presença.
“A existência de líderes políticos que querem aumentar seu poder militar para resolver conflitos, inclusive por meio da posse de armas nucleares, dificulta a construção da paz mundial”, declarou o prefeito de Hiroshima, Kazumi Matsui, referindo-se às guerras na Ucrânia e no Oriente Médio.
No sábado (9), Nagasaki também espera um número recorde de países. A presença da Rússia será simbólica, marcando seu retorno às cerimônias desde a invasão da Ucrânia em 2022. Já a exclusão do embaixador de Israel no ano passado levou os Estados Unidos a boicotarem o evento. “Este ano, queremos que os participantes venham e vejam diretamente a realidade da catástrofe que uma arma nuclear pode causar”, afirmou um representante da cidade.
Memória como resistência
A Nihon Hidankyo continua pressionando o governo japonês para reconhecer todos os sobreviventes e garantir assistência médica. “Espero que os representantes estrangeiros visitem o Museu Memorial da Paz e compreendam o que aconteceu sob a nuvem atômica em forma de cogumelo”, declarou Mimaki.
Enquanto o mundo observa Hiroshima, os hibakusha pedem mais do que homenagens: exigem justiça, reconhecimento e o fim das armas nucleares. “Da minha parte, não vou ceder e continuarei a insistir junto às autoridades para que mudem sua posição”, reforça o prefeito de Nagasaki.
Oitenta anos se passaram e o mundo não aprendeu nada

Masako Wada, secretária-geral adjunta da Nihon Hidankyo, organização de sobreviventes que foi laureada com o Prêmio Nobel da Paz em 2024, resumiu a sensação de muitos ao dizer à BBC: “Nada foi aprendido com a nossa experiência, e corremos um risco maior hoje do que no passado”. Toshio Tanaka, que tinha 6 anos quando a bomba de Hiroshima explodiu, compartilha do mesmo temor. Ele acredita que os conflitos atuais, como os da Ucrânia e do Oriente Médio, mantêm viva a ameaça de uma guerra nuclear, levando-o a temer o fim do planeta.
O bombardeio atômico foi o ponto culminante de uma escalada de conflito. Após o ataque a Pearl Harbor, os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial e, em 1945, optaram por usar a recém-desenvolvida arma nuclear para forçar a rendição do Japão. A decisão de bombardear Hiroshima e Nagasaki continua a ser um dos tópicos mais controversos da história. Alguns historiadores a veem como uma medida necessária para salvar vidas, enquanto outros a classificam como um ato desnecessário e profundamente imoral, que ceifou a vida de dezenas de milhares de civis.
No dia 6 de agosto de 1945, o bombardeiro B-29 Enola Gay sobrevoou Hiroshima e lançou a bomba apelidada de “Little Boy”. Às 8h15 da manhã, a cidade se transformou em um inferno. A explosão, equivalente a 15 mil toneladas de TNT, gerou uma onda de calor de mais de 4.000 °C, obliterando edifícios e vaporizando pessoas em um raio de 4,5 quilômetros. Estima-se que, somente naquele dia, entre 50 mil e 100 mil pessoas morreram.
Três dias depois, no dia 9 de agosto, a história se repetiu em Nagasaki. A bomba “Fat Man”, que explodiu com uma força ainda maior do que a de Hiroshima (21 mil toneladas de TNT), deixou quase 40% da cidade em ruínas. A topografia montanhosa de Nagasaki limitou a área de destruição, mas não a tragédia humana. As estimativas sobre o número total de mortos nas duas cidades até o final de 1945 variam, mas as mais conservadoras apontam para mais de 110 mil vítimas.
Os sobreviventes não enfrentaram apenas a devastação imediata. A exposição à radiação causou uma série de problemas de saúde a longo prazo, como náuseas, vômitos, queda de cabelo e, em anos posteriores, um aumento dramático nos casos de leucemia e outros tipos de câncer. Além das cicatrizes físicas, o impacto psicológico foi avassalador. Muitos hibakusha sofreram de estresse pós-traumático e foram marginalizados pela própria sociedade, estigmatizados por sua aparência e pelo medo de que a radiação pudesse ser contagiosa.
“Homens, mulheres e crianças estavam quase nus, com roupas queimadas. Eles caminhavam em silêncio, com os braços estendidos e a pele queimada descamando pendurada nas pontas dos dedos. Pareciam fantasmas ou zumbis”, recordou Toshio Tanaka, que carregou esse trauma por décadas.
A Invisibilidade das Vítimas Coreanas
Uma parte menos conhecida dessa história é o alto preço pago pelos coreanos. Na época, a Coreia era uma colônia japonesa, e muitos coreanos haviam sido levados para o Japão para trabalhos forçados. Estima-se que cerca de 140 mil coreanos viviam em Hiroshima e que aproximadamente 20% das vítimas imediatas eram coreanas.
Dos cerca de 70 mil coreanos expostos à bomba, 40 mil morreram no final daquele ano. Os sobreviventes que retornaram à Coreia, agora livre do domínio japonês, foram estigmatizados em sua própria terra. Sem assistência adequada e lutando contra doenças inexplicáveis, como câncer e problemas genéticos, eles foram esquecidos e abandonados.
“Ninguém assume a responsabilidade”, desabafou Shim Jin-tae, um sobrevivente de 83 anos que vive em Hapcheon, uma cidade que se tornou o lar de muitos sobreviventes coreanos, conhecida como a “Hiroshima da Coreia”. A falta de reconhecimento e desculpas formais por parte dos governos americano e japonês, bem como a negligência do governo sul-coreano por muitos anos, aprofundou a dor dessas vítimas.
Uma Corrida Contra o Tempo e o Esquecimento
Hoje, os sobreviventes, em sua maioria na faixa dos 90 anos, estão morrendo a um ritmo de cerca de 10 mil por ano. Em uma década, a memória viva do que aconteceu em Hiroshima e Nagasaki poderá ser extinta. Para ativistas como Masako Wada, esse é um cenário assustador, não só pela perda dos testemunhos, mas porque a ameaça de novas tragédias nucleares persiste.
Os hibakusha defendem a abolição imediata de todas as armas nucleares, rejeitando a teoria da dissuasão nuclear. Eles acreditam que o uso desses artefatos desumanos jamais pode ser justificado. “Meu medo é que, antes que a nossa geração se vá, tenhamos novos hibakusha”, disse Wada. Sua mensagem é um apelo urgente para a humanidade: as lições de Hiroshima e Nagasaki não podem ser esquecidas.
Como podemos garantir que a história dessas vítimas seja lembrada e que a ameaça de um novo ataque nuclear não se torne uma realidade?

VEJA UM VÍDEO QUE RETRATA O MOMENTO EM QUE A BOMBA FOI LANÇADA, EM 1945:
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