Nesta quarta-feira, o tempo dobra sobre si mesmo. O relógio marcou 8h15, no Japão, e, como há 80 anos, o céu de Hiroshima se desfez em azul incandescente. Não é apenas uma cerimônia: é um ritual de memória. Ali, onde a bomba tocou o chão e o chão tocou o inferno, mais de 120 países se reuniram para lembrar o que não pode ser esquecido. A paz, tão frágil quanto o som de um sino, ecoa no ar como um pedido urgente.
O mundo gira, mas parece voltar ao mesmo ponto. Três dias depois de Hiroshima, Nagasaki também foi engolida pela luz. Setenta e quatro mil vidas apagadas em segundos. Os sobreviventes, os hibakusha, carregam no corpo e na alma as marcas de um tempo que não cicatriza. São vozes que desafiam o silêncio, que insistem em contar o que muitos preferem não ouvir.
Hoje, aos 93 anos, Setsuko Thurlow ainda fala com a força de quem viu o impossível acontecer. Ela lembra que há 16 mil armas nucleares prontas para repetir a história. A corrida armamentista não parou; apenas mudou de roupa. Os conflitos se multiplicam, e a ameaça atômica volta a rondar os noticiários como um velho fantasma que nunca foi exorcizado.
Os hibakusha sabem que a bomba não termina quando explode. Ela continua nos olhares desconfiados, nas políticas que os marginalizaram, nas dores que não têm nome. Eles pedem, com a urgência de quem já viu o fim, que o mundo escolha outro caminho. Porque só há uma forma de garantir que o céu não volte a cair: abolir, de vez, as armas que o rasgam.
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