Gudryan Neufert


Gudryan Neufert*

A noite de quarta-feira (6) não foi uma noite qualquer.

O torcedor brasileiro testemunhou algo raro: Flamengo e Palmeiras eliminados da Copa do Brasil na mesma fase — as oitavas de final.

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Sim, os dois gigantes — que dominam o futebol nacional há mais de uma década — caíram juntos, num tombo sincronizado digno de replay em câmera lenta (VAR incluído, naturalmente).

Desde 2009, pelo menos um dos dois marcava presença entre os oito melhores da competição. Às vezes, ambos. Era quase cláusula contratual. Em 2009, vale lembrar, Lula ainda era presidente, com popularidade nas alturas. Obama tomava posse nos Estados Unidos. E Donald Trump era apenas um milionário excêntrico com programa de TV e ego inflado — bem antes de se tornar personagem distópico da política global.

As redes sociais? Facebook e Twitter eram brinquedos de jovens universitários, e o WhatsApp sequer existia (sim, já houve esse mundo). A palavra “smartphone” ainda soava como jargão técnico, e o cinema celebrava Avatar, aquele filme azul que prometia mudar tudo — inclusive a bilheteria.

Na filosofia, Slavoj Žižek, o esloveno barulhento, vivia seu auge de visibilidade. Aparecia sempre com um cigarro nas mãos — apagado, claro — e dizia estar tentando parar de fumar. Mas era difícil largar o vício — tanto o do cigarro quanto o da exposição midiática.

Premonitório, Žižek cravou, em meio à crise de 2008:

“A grande lição da recente crise é que o sistema capitalista global está se aproximando de um ponto em que a promessa utópica da democracia liberal só pode ser sustentada por meios cada vez mais autoritários.”

Sentença que serve perfeitamente aos dias atuais. Mas, por falar em premonição, ninguém imaginava Palmeiras e Flamengo fora da Copa do Brasil numa mesma jornada.

Os dois times possuem os maiores orçamentos da América do Sul. Ambos projetam arrecadações superiores a R$ 1 bilhão em 2025. Bilhão com B maiúsculo. Recentemente, representaram o Brasil na Copa do Mundo de Clubes da FIFA. Foram longe, jogaram bem, posaram com os melhores.

E agora? Eliminados.

A explicação, no fundo, é simples: perderam seus craques. O Palmeiras, Estêvão — joia de chute seco e drible curto. O Flamengo, Gerson — meio-campista que respirava o jogo.

Nenhuma equipe — em nenhum esporte coletivo — sai ilesa ao perder sua grande estrela. Leva tempo para se adaptar. Alguns passam décadas procurando substitutos. O São Paulo, por exemplo, ainda não encontrou alguém que se aproxime de Rogério Ceni. E, nesta mesma quarta-feira, a ausência de um goleiro confiável custou caro: Rafael foi expulso logo no início contra o Athletico, Jandrei entrou, falhou no gol e ainda perdeu pênalti. Adeus, Tricolor.

Voltando à dupla protagonista: Palmeiras e Flamengo foram rápidos e se reforçaram bem, é verdade. Mas dinheiro — mesmo aos montes — nem sempre compra aquilo que se despediu.

O Flamengo, por exemplo, gastou 25 milhões de euros num jogador que bateu pênalti como se estivesse no treino de terça-feira. Errou. Não pode.

Pênalti não é loteria, como reza o folclore. É técnica e controle emocional. Exige concentração — como cirurgia, como advocacia, como qualquer profissão em que errar custa caro.

Mas e agora? Ficaremos órfãos de Flamengo e Palmeiras?

Não creio. Ainda há Libertadores e Brasileirão, onde ambos seguem vivos e favoritos.

Há poucos dias, um dirigente do Corinthians disse sonhar em ver o clube se transformar “num Flamengo”. Pegou mal. Cada clube tem sua grandeza e suas manias peculiares.

É esse o charme do futebol brasileiro — e argentino, e inglês também. Nem sempre quem tem mais dinheiro manda em tudo. E o Timão mostrou isso mais uma vez: no início do ano, já havia conquistado o Paulistão diante do maior rival.

Flamengo e Palmeiras vivem em outro patamar econômico, sim. Mas, no futebol brasileiro, time gigante pode viver em crise por mais de um quarto de século e ainda assim surpreender.

Esses dois, mesmo fora da Copa do Brasil, ainda têm onde brilhar. Mas, por ora, flamenguistas e palmeirenses vão acompanhar o torneio da poltrona de casa. Podem estar com um cigarro apagado nas mãos — igual ao Žižek.

O futebol ganha em emoção, perde em previsibilidade — e todos nós ganhamos história para contar na quinta-feira.

*Gudryan Neufert é jornalista, com passagens por TV Globo, TV Record e SBT, além de graduações em Jornalismo (PUC-PR) e História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).