Laira Vieira*
Kneecap (2024) não pede licença. Invade a tela como uma pedrada em uma vitrine colonial, cuspindo rimas em gaélico, debochando do imperialismo britânico e transformando a dor coletiva em provocação estética. O diretor Rich Peppiatt (One Rogue Reporter,) não entrega um longa; entrega um levante audiovisual. Sujo, caótico, intoxicado. Como deve ser toda narrativa que nasce da urgência de quem teve a própria história contada sempre por outros, em outra língua.
O trio protagonista, formado por Móglaí Bap (Naoise Ó Cairealláin), Mo Chara (Liam Óg Ó hAnnaidhl) e DJ Próvaí (JJ Ó Dochartaigh), interpreta a si mesmo com a crueza de quem nunca foi domesticado pela gramática da atuação. Eles não fingem; sobrevivem em cena. A trama, se é que esse caos comporta um nome tão cartesiano, narrando a gênese do grupo Kneecap, ícone do rap irlandês contemporâneo, desde o encontro improvável entre Bap e JJ num centro comunitário até a formação da banda, onde rima, vício e identidade se misturam sem alívio cômico nem redenção programada.
Mas a obra é muito mais que uma biografia fora da curva. É um acerto de contas com a herança britânica, essa ferida ainda aberta disfarçada de protocolo. A produção lateja à sombra do colonialismo, com a língua como campo de batalha. A cena em que um dos personagens exige um intérprete para se recusar a falar inglês com a polícia não é uma excentricidade. É resistência pura. O gaélico, sufocado por séculos de ocupação, retorna como instrumento de ataque. E não um símbolo inofensivo, mas uma afronta sonora, profana, quase pornográfica para ouvidos imperialistas. Uma fala antes castigada com vara em sala de aula agora explode em alto-falantes como se dissesse: estamos vivos e não esquecemos.
Para entender o que está em jogo, é preciso lembrar que a Inglaterra não colonizou apenas territórios. Colonizou vozes. Durante séculos, o gaélico foi proibido, ridicularizado, criminalizado. As Leis de Penalidade, os internatos, as políticas linguísticas imperialistas, tudo arquitetado para que os irlandeses se tornassem ingleses de segunda classe, gratos pela domesticação. Essa engenharia do esquecimento não apenas calou uma população, mas mutilou sua forma de pensar, de sentir, de existir.
É essa amputação histórica que Kneecap sutura com beat, palavrão e desobediência estética. A película se recusa a seguir as regras narrativas do cinema tradicional. E ainda bem! A montagem é febril, embriagada, como se o próprio roteiro estivesse chapado de indignação e ironia. A lucidez se mistura com delírios, memórias borradas, pesadelos opiáceos. Uma escolha visual que não aliena, mas aproxima. Belfast, como o longa mostra, nunca foi linear. É feita de buracos, crateras de bombas, lacunas na memória coletiva, pactos quebrados sob o verniz de acordos diplomáticos.

Há algo profundamente político, e deliciosamente insolente, no uso que o roteiro faz do humor. Não é risada para suavizar, mas para escancarar. Rir, aqui, é cuspir na cara da autoridade, é zombar do sistema que te rotula como ameaça. É rir da polícia, dos políticos, dos ingleses, dos irlandeses domesticados e de si mesmo. Esse riso sarcástico, muitas vezes amargo, é parente do mesmo riso que ecoa nas quebradas brasileiras, onde o funk e o rap também são acusados de degenerar a juventude, quando na verdade a salvam da invisibilidade.
Porque o paralelo é inevitável. O que o gaélico representa para os irlandeses, o que o hip hop representa para a Irlanda do Norte, é o que o português da quebrada representa para os jovens brasileiros. Em ambos os contextos, a elite finge que é ruído, que é bagunça, que é produto de degeneração cultural. Mas como escreveu Albert Camus, “não se pode criar sem alguma forma de revolta.” O que esses corpos fazem, ao cantar o que não era permitido nem falar, é reinstalar a própria dignidade no espaço público. O microfone é o novo fuzil. O beat, uma granada sorridente.
A escolha de Peppiatt por uma direção quase documental é tudo, menos neutra. Ao dar voz aos próprios personagens que encarna, ele não apenas respeita suas trajetórias, ele se alista na causa. Há cumplicidade, não paternalismo. Há sujeira, não assepsia visual. Há suor, não encenação. É linguagem que fede à realidade, e por isso, verdadeira.
Kneecap não quer agradar festivais europeus nem parecer cult em lista de curadoria pós-irônica. Quer incomodar. Quer ser pichado em muros, pirateado em pendrives, reproduzido em protestos. Existe à margem por decisão estética e política. É feio, como toda verdade que foi calada por tempo demais. É o som de quem nunca foi convidado à festa, mas invadiu o salão e ainda roubou a playlist.
Quando o longa chega ao fim — ao contrário da batalha para reviver a língua original do povo irlandês — o desconforto persiste. Não por falta de catarse, mas por excesso de lucidez. Não há epifania redentora, não há final feliz. Só a constatação de que, enquanto houver juventude transformando dor em arte e idioma em barricada, o império continuará com insônia. E que nunca durmam em paz com tanto barulho!
*Laira Vieira é Critica Cultural, Economista e Tradutora. Autora.




