Durante os anos mais críticos da pandemia de COVID-19, o médico infectologista Jean Gorinchteyn esteve à frente da Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo, assumindo o cargo em julho de 2020.
Sua gestão se estendeu até dezembro de 2022, período marcado por decisões complexas, embates políticos e ações emergenciais para conter o avanço do vírus no estado mais populoso do país. Era o governo de Jair Bolsonaro.
Gorinchteyn coordenou a ampliação de leitos hospitalares, a distribuição de insumos médicos e a organização da rede pública para atender à crescente demanda por internações.
Em meio à escassez de oxigênio e equipamentos, articulou parcerias com hospitais privados e institutos de pesquisa para garantir suporte à população.
Foi também um dos principais articuladores da campanha de vacinação em São Paulo, defendendo a ciência e a imunização em massa.
Em 2024, foi homenageado pela Assembleia Legislativa de São Paulo com o Colar de Honra ao Mérito Legislativo, reconhecimento por sua atuação técnica e humanitária durante a crise sanitária.
Agora, Gorinchteyn está enfrentando outro desafio como titular da Secretaria de Saúde de São Bernardo do Campo: os casos de intoxicação de pessoas após consumirem bebidas alcoólicas destiladas falsificadas, produzidas ou contaminadas com metanol e vendidas em bares e casas noturnas.
Na cidade, já foram registrados ao menos 30 casos sob investigação.
Nesta sexta-feira (3), o secretário participou do Jornal BC TV, do BRASIL CONFIDENCIAL, e abordou a questão de saúde pública causada pelo comércio de bebidas alcoólicas contaminadas ou feitas com metanol.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista conduzida pelos jornalistas Germano Oliveira e Camila Srougi com Jean Gorinchteyn:
Camila Srougi: Secretário, os casos mais recentes mostram que o metanol conseguiu entrar na cadeia de distribuição de bebidas de forma relativamente fácil. O que isso revela sobre a falha de fiscalização e o risco sistêmico para a saúde pública?
Jean Gorinchteyn: Bom, na verdade, o que estamos falando é que, diferente de uma grande fábrica, nós temos várias fabriquetas, centenas de fabriquetas que fazem essas alterações no fundo de quintal, nas suas garagens. E, com isso, elas acabam sendo muito mais pulverizadas, dificultando realmente a fiscalização.
O que se observou, especialmente em programas de fiscalização de estabelecimentos — como foi visto, por exemplo, em Americana —, é que é uma casa, com um aluguel do aspecto comercial da sua fachada e com relação a embalagens, sem ter garrafas, com todo o etiquetário e invólucros, garrafas, os vasilhames que ali estão, uma aparência muito próxima daquela original. Então, tudo isso, quando cai realmente no mercado paralelo, passa a ser um problema.
O que nós vimos é que esse tipo de comércio ganhou um profissionalismo muito maior. Eles estão com essas aparências externas muito mais próximas do produto original e acabam sendo comercializadas em grandes distribuidoras, como foi visto em uma das distribuidoras na cidade de Barueri. 1.200 garrafas foram apreendidas para exames. Mas essas garrafas foram adquiridas por vários estabelecimentos comerciais, tanto em São Paulo como na Grande São Paulo.
Então, isso dificulta cada vez mais essa fiscalização, que acaba, infelizmente, acontecendo de forma reativa. E hoje, com a utilização do metanol de uma forma absolutamente irresponsável, um produto que é altamente tóxico mesmo em pequenas doses, faz com que o impacto e o risco de saúde pública frente a esse contexto todo passem a ser muito pior.
Camila Srougi: Agora, secretário, existe uma preocupação de que o metanol possa estar circulando em muito mais bebidas do que se sabe até agora. Considerando que o senhor está, de certa forma, aí na linha de frente dessa questão, já dá para ter uma ideia de qual que é a dimensão desse problema?
Jean Gorinchteyn: Nós estamos no epicentro desse grande problema. São Bernardo do Campo hoje registra 30 casos de intoxicação exógena por metanol. Tivemos 4 óbitos, e o quinto agora está sendo considerado, pois abrimos o protocolo de morte encefálica de uma outra paciente. Portanto, devemos caminhar para ter 5 casos de óbito, mostrando claramente que a nossa região é uma região que tem que ter essa atenção.
E o que nós vimos é que os destilados são as únicas bebidas que estão comprometidas. Em 89 a 90% dos casos, nós observamos que a vodca — seja ela vodca tradicional, seja ela vodca acompanhada de alguns sabores, especialmente vodca de limão — foram os produtos mais comprometidos. Não vimos outros tipos de bebida com qualquer comprometimento.
Mas, efetivamente, essas bebidas se mostraram como mais prevalentes, como indicadores, sejam pelos próprios pacientes — aqueles que tiveram a condição de verbalizar — ou das pessoas da família ou amigos que estiveram juntos nesses bares ou encontros em que acabou sendo feita a ingestão desse produto por essa paciente ou esse paciente. Então, volto a dizer que quase 90%, além de se tratar de destilados, são principalmente produtos voltados à vodca como sendo os mais característicos.
Germano Oliveira: Doutor Jean, os hospitais da sua cidade têm os antídotos necessários para o tratamento ou o senhor ainda está tendo grande dificuldade? A gente sabe que o governo federal está, inclusive, determinando a importação. Como é que o senhor pretende resolver essa questão dos antídotos na sua cidade?
Jean Gorinchteyn: Primeiro que nós temos uma estrutura hospitalar muito bem montada. A pré-hospitalar: nós temos 35 unidades básicas de saúde, 11 unidades de pronto atendimento espalhadas pela cidade, e nós temos 5 hospitais, sendo que 4 deles são hospitais de média e altíssima complexidade, com mais de 120 vagas de unidades de terapia intensiva. Então, nós temos uma estrutura já montada, com recursos humanos bem estabelecidos, que podem fazer o acolhimento desses pacientes. Tanto é que o fazem, recebendo inclusive casos graves da própria região.
O que nós fizemos foi unificar, centralizar todos os atendimentos no Hospital de Urgência e Emergência (HU). Portanto, qualquer paciente que tem o seu diagnóstico — suposto, porque temos um primeiro momento em que avaliamos a possibilidade de se tratar de um paciente em risco — e a confirmação de um caso suspeito (aquele que tem história de ingestão de bebida alcoólica, mais os sintomas), traz, portanto, a necessidade de abertura de uma ficha que nós chamamos de notificação compulsória.
Só vamos ter um caso suspeito sendo considerado um caso confirmado a partir do momento em que temos os exames toxicológicos de sangue e de urina que confirmem a presença do metanol. Por isso, temos a necessidade de uns dias a mais para que essas confirmações realmente acabem acontecendo.
Mas, centralizamos todos esses casos suspeitos, que são imediatamente encaminhados para o Hospital de Urgência e Emergência, com toda a equipe muito bem treinada para iniciar os primeiros atendimentos, seja numa fase inicial, seja numa fase avançada.
Lembrando que, numa fase em que já temos alterações neurológicas, alterações visuais com perda da visão ou alterações metabólicas — principalmente apresentando uma quantidade de ácido muito grande no sangue —, imediatamente é feita não apenas a hemodiálise, em que esse sangue é trocado, higienizado, depurado, fazendo com que tanto o metanol quanto os seus componentes metabolizados sejam retirados, mas também utilizado o etanol — que nada mais é do que o álcool etílico a 99% — que é feito numa diluição junto com soro glicosado. Então, tudo isso está à nossa disposição. Nós temos mais de 400 ampolas disponibilizadas. Vamos ter um repositório feito agora no início da próxima semana, garantindo que não haja desassistência.
Germano Oliveira: Eu imagino, né, doutor Jean, que as equipes de vigilância sanitária da prefeitura devem estar intensificando a fiscalização em bares e adegas aí da cidade. Agora, o senhor acha que é suficiente as equipes que o senhor tem à disposição para fiscalizar todo mundo, ou ainda teria que ter um reforço na cidade, dado que vocês estão virando aí uma central desses ataques?
Jean Gorinchteyn: O que nós temos é uma força-tarefa, juntando várias secretarias: Secretaria da Saúde, Secretaria da Segurança Pública, Secretaria de Assuntos Jurídicos, em associação às polícias Civil, à Guarda Civil Municipal. E, dessa maneira, trouxemos junto o Procon para auxiliar também nessas demandas.
De uma forma conjunta, todas essas secretarias, junto com o Centro de Vigilância Sanitária, estão fazendo inspeções em todos os estabelecimentos que tiveram alguma referência — seja por parte dos pacientes ou de seus acompanhantes, familiares ou amigos — de onde esses pacientes fizeram a ingestão desse produto.
São feitas investidas nestes locais. Nos estabelecimentos, são questionados quanto à aquisição desses produtos, oferta de nota fiscal, para nós termos a ideia da origem. São apreendidas garrafas e parte dos conteúdos que ali existam, para serem levados para análise toxicológica.
Há avaliação e inspeção de cada uma dessas garrafas, no sentido de saber se existe alguma modificação de rótulo, alguma alteração na tampa, no lacre desses produtos, ou rompimento das adesivações das garrafas.
Então, tudo isso tem sido feito no sentido de garantir que esses estabelecimentos possam também fornecer de onde fizeram aquisição desses produtos, para que possamos continuar essa investigação junto com a própria polícia, chegando a esses criminosos que estão atentando contra a nossa população.
Portanto, isso tem sido feito. Foi feito hoje em vários estabelecimentos, ontem em vários estabelecimentos, e vários deles foram interditados. Todos que tiveram alguma condição de anormalidade, que não revelaram ou que trouxeram algum produto que pudesse gerar questionamento, foram absolutamente interditados — mesmo que temporariamente — para que estejamos garantindo a tranquilidade das pessoas. As pessoas têm o direito de estar saindo, adquirindo os seus produtos, mas sempre com muita segurança.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:

Quem é Jean Gorinchteyn
O médico infectologista Jean Gorinchteyn, 56 anos, iniciou neste ano uma nova etapa em sua carreira profissional ao assumir a Secretaria de Saúde de São Bernardo do Campo.
Formado pela Universidade de Mogi das Cruzes, Gorinchteyn acumula mais de 28 anos de experiência na medicina. Especialista em infectologia, possui mestrado em doenças infecciosas pela Coordenação dos Institutos de Pesquisa da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. É também professor universitário na mesma instituição onde se graduou.
Sua atuação clínica inclui passagens por dois dos mais respeitados hospitais do país: o Instituto de Infectologia Emílio Ribas e o Hospital Israelita Albert Einstein, ambos em São Paulo.
Ao longo de sua carreira, destacou-se pela abordagem técnica e humanizada no tratamento de doenças infecciosas.
Jean Gorinchteyn ganhou projeção nacional ao assumir a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo durante a gestão de João Doria. À frente da pasta, coordenou ações estratégicas no enfrentamento à pandemia, incluindo campanhas de vacinação, ampliação de leitos hospitalares e comunicação transparente com a população.
Sua atuação foi marcada pela defesa da ciência e pela busca constante por soluções eficazes diante da crise sanitária. Tornou-se uma das vozes mais respeitadas no debate público sobre saúde.
Além da atuação médica e política, Gorinchteyn é embaixador do Instituto Trata Brasil, organização dedicada à promoção do saneamento básico como ferramenta de transformação social. Em suas falas, destaca o impacto da falta de infraestrutura sanitária na saúde de crianças e adolescentes, especialmente nas periferias urbanas.



