Trump discursa no Egito: uma paz sob fórceps. (Reprodução: TV)


O anúncio unilateral do “fim da guerra de dois anos em Gaza” pelo presidente estadunidense, Donald Trump, nesta segunda-feira (13), marca o ápice de uma operação de coação geopolítica, mais do que um genuíno esforço de paz. Vendido como um potencial “marco em seu legado”, o cessar-fogo imposto serve, antes de tudo, à agenda de política externa estadunidense, prolongando os “Acordos de Abraão” de seu primeiro mandato e tentando estabilizar a região sob parâmetros ditados pela Casa Branca e por Israel.

A visita de Trump a Israel e, em seguida, ao Egito, para a “cúpula da paz” em Sharm el-Sheikh, apenas sublinhou a fragilidade estrutural do acordo e a natureza da “paz” que se busca: uma capitulação árabe e palestina diante da pressão estadunidense e da força militar israelense.

Espetáculo da Vitória Unilateral

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Em Jerusalém, a encenação política foi evidente. Ao exortar Israel a “declarar vitória e parar de lutar”, após a libertação de reféns e o encontro com suas famílias, Trump validou integralmente a narrativa israelense. No Knesset, o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, ao elogiar o presidente por ter “conquistado a maior parte do mundo árabe para apoiar sua proposta”, revelou o cerne do plano: não uma paz de compromisso, mas o alinhamento regional forçado em torno de Israel.

Trump, em seu discurso, celebrou o “amanhecer histórico de um novo Oriente Médio”, citando a guerra com uma duração absurda de “3.000 anos” ou “500 anos”, o que despolitiza o conflito, transformando uma ocupação contemporânea em um fatalismo histórico.

Sharm el-Sheikh: O Vazio da “Cúpula de Paz”

O encontro no Egito, pomposamente intitulado “cúpula da paz”, foi notavelmente marcado pela ausência dos protagonistas do conflito. A recusa de Netanyahu, citando um feriado judaico, e a oposição de um líder árabe à sua presença, somadas à deliberada exclusão do Hamas, esvaziam a natureza do encontro. O Hamas, o ator que de fato controla Gaza e que perdeu a maior parte de seus membros, jamais seria incluído, pois a exigência do plano Trump – o desarmamento total – é inaceitável para uma organização que se autodenomina “Movimento de Resistência Islâmica” (Hamas), vista por muitos como a última linha de defesa contra a ocupação.

A ausência de ambos os lados em conflito na mesa de negociações ilustra que o objetivo da cúpula não era negociar a paz, mas sim legitimar um acordo pré-fabricado e pressionar os líderes árabes e mundiais a aderir ao plano de 20 etapas de Trump.

O Custo Humano e a Assimetria Negocial

Os termos imediatos do acordo, como a devolução de 20 reféns israelenses vivos em troca da libertação de 1.700 detidos palestinos, incluindo 250 condenados à prisão perpétua, são os pontos visíveis de uma profunda assimetria de poder. Enquanto o ministro da Defesa de Israel já alega descumprimento por parte do Hamas (em relação à devolução de corpos de reféns), a crise humanitária em Gaza – onde a necessidade de alimentos, medicamentos e abrigo é urgente – exige um foco imediato que desvia a atenção das questões políticas e da ocupação.

Os dados de baixas ressaltam o custo humano desproporcional do conflito, iniciado em 7 de outubro de 2023:

  • Cerca de 1.200 mortos e 251 reféns sequestrados em Israel (a maioria dos reféns libertada em cessar-fogos anteriores).
  • Pelo menos 67.800 palestinos mortos, em sua maioria mulheres e crianças, e 468 militares israelenses mortos em combate.
    Esta diferença brutal nos números expõe a natureza destrutiva da ofensiva israelense e a urgência de uma solução que aborde a causa profunda do conflito, e não apenas seus sintomas.

A Governabilidade de Gaza

A fragilidade do acordo reside na fase mais difícil: a governança de Gaza e a ausência de um caminho claro para uma solução de dois Estados, uma lacuna crucial notada por analistas como Brian Katulis, do Instituto do Oriente Médio. O plano Trump, mesmo com a promessa de um contingente de 200 soldados americanos para “impor boa conduta” e a participação de tropas árabes e muçulmanas (com a ressalva da Casa Branca de que não entrariam em Gaza), levanta sérias dúvidas sobre a soberania futura do território.

A aceleração do cessar-fogo, intermediada pelo enviado especial Steve Witkoff e Jared Kushner, foi cimentada pela pressão direta de Trump sobre Netanyahu, confirmada por um alto funcionário da Casa Branca: “Sem os Estados Unidos, Israel não existirá”, foi a advertência implícita. Esse tipo de “diplomacia” via chantagem, inclusive com ataques israelenses a um prédio do Hamas em Doha, Catar, em pleno processo negocial, mina a confiança árabe nos EUA e atesta que o sucesso do plano depende da coerção contínua.

Ao parabenizar Israel pela vitória, Trump deixou uma advertência a Netanyahu: “Eu disse: ‘Bibi, você será lembrado por isso muito mais do que se continuasse com isso'”. A busca por um Nobel da Paz, expressa publicamente por Trump, e a declaração forçada do fim da guerra (para vincular seu legado ao acordo) sugerem que a principal motivação é político-pessoal, e não a justiça ou a paz duradoura.

Enquanto a trégua se mantém “frágil” e as posições de Israel e Hamas permanecem distantes, a afirmação de Trump – “Daqui a algumas gerações, isso será lembrado como o momento em que tudo começou a mudar” – soa mais como a proclamação de uma ordem imperial do que o prenúncio de uma paz negociada e justa para o povo palestino.