
A ex-ministra da Justiça da França, Christiane Taubira, lançou um duro alerta sobre a crise das instituições multilaterais e defendeu uma nova arquitetura de governança global que parta da Amazônia e de seus povos. “A floresta não é um deserto. É um espaço de vida, cultura e história”, afirmou durante a 8ª Conferência FAPESP, em São Paulo.
Amazônida e militante histórica, Taubira criticou a forma como organismos internacionais tratam a região. “Fala-se em proteger ‘o pulmão do mundo’, mas as Nações Unidas pensam em proteger a Amazônia como se fosse um lugar deserto, ignorando que há vidas e modos de existência enraizados ali”, disse.
Com a COP30 se aproximando em Belém, suas ideias ganham força como convite ao diálogo e à reimaginação das estruturas que moldam o mundo — partindo da floresta, e não apenas olhando para ela de fora. “A Amazônia é plural. É uma grande entidade geográfica, fragmentada em nove histórias nacionais diferentes. Existem vidas nas Amazônias, cidades muito modernas, que ainda preservam tradições”, afirmou.
Durante a conferência, Taubira evocou uma frase atribuída a Nelson Mandela: “O que vocês fazem por nós sem nós, vocês fazem contra nós”. Ela relembrou sua atuação como militante em Caiena, na Guiana Francesa, durante a Rio 92, quando se opôs à criação de um parque nacional que abrangeria 40% do território guianense. “Lutei para que não fosse chamado de parque nacional, como são chamados os parques da França, onde não há ninguém vivendo dentro deles. Eu estava preocupada com a preservação ao mesmo tempo que se respeitassem os modos de vida das pessoas que viviam naquele ambiente”, contou. Anos depois, já como deputada, o parque foi criado com o nome de Parque Amazônico da Guiana.
Com 19 anos de atuação no Parlamento francês e cinco no europeu, Taubira foi responsável por legislações que reconhecem a escravidão como crime contra a humanidade, proíbem minas terrestres e responsabilizam os testes nucleares franceses. Entre 2012 e 2016, como ministra da Justiça no governo de François Hollande, liderou reformas como a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo e o fortalecimento do combate à corrupção.
Sua ligação com o Brasil se estreitou em 2025, ao assumir a 12ª Cátedra José Bonifácio da Universidade de São Paulo (USP). A partir dessa experiência, desenvolveu a pesquisa “Sociedades amazônicas: Realidades plurais, um destino comum?”, que resultou no livro recém-lançado Amazônias: Espaço Vivo, Social, Político. A obra, coordenada por Taubira e organizada por Camila Perruso e Djamila Delannon, reúne contribuições de nomes como a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, o advogado Pedro Dallari, o ex-primeiro-ministro francês Laurent Fabius, a historiadora franco-tunisiana Sophie Bessis e o antropólogo indígena Almires Martins Machado. O livro será apresentado na COP30 com o objetivo de dar visibilidade aos povos da região durante o encontro multilateral.
Para Taubira, as estruturas de poder global estão ultrapassadas. “A governança multilateral que temos hoje é um reflexo do mundo pós-Segunda Guerra, um clube de aproximadamente 60 países em um cenário de impérios. O mundo de hoje, com suas 195 nações, tornou essa arquitetura impotente e incapaz de assegurar uma ordem mundial”, afirmou.
Além da política, a ex-deputada também é poeta. Para ela, a poesia é uma ferramenta essencial para a construção da justiça social. “Quando o debate político se torna áspero, é a poesia que nos permite compreender o outro e fazer a justiça social. A poesia nos convida a ir constantemente em direção ao outro e a reconhecer que o outro carrega um pouco de nós.”
Em sua visão, a linguagem também é central nesse processo. “A língua é mais do que meras palavras, é o imaginário, uma forma de dizer o mundo”, concluiu.
A íntegra da conferência “A Amazônia Contemporânea e os Desafios da Justiça Social” está disponível no YouTube: youtu.be/fVwsTBQYH6U.


