Arte demonstra Trump em um avião lançando um míssel com Maduro fugindo da Venezuela. (Arte)


Trata-se da maior mobilização militar americana no Caribe em décadas, e a retórica de Washington não deixa margem para dúvidas: o objetivo oficial é combater o narcotráfico. No entanto, o deslocamento do superporta-aviões USS Gerald R. Ford e de uma dúzia de outros navios de guerra para águas próximas à Venezuela levanta a suspeita de que a recém-batizada Operação Lança do Sul possa ser o prelúdio para uma intervenção militar direta contra o regime de Nicolás Maduro.

Desde o final de agosto, o Mar do Caribe tornou-se palco de tensão geopolítica. A chegada do gigante naval USS Gerald R. Ford — o maior porta-aviões da Marinha dos EUA — e o subsequente anúncio do secretário de Defesa, Pete Hegseth, da “Operação Lança do Sul” (Southern Spear) reacenderam o debate sobre o futuro da Venezuela e a política externa do governo Donald Trump. O que está, de fato, acontecendo na “vizinhança” dos EUA? E quais são as reais intenções por trás do aumento drástico da presença militar americana na região?

Desde o fim de agosto, os EUA vêm mobilizando vários navios de guerra e posicionando embarcações em áreas próximas à costa caribenha da Venezuela. No início de setembro, o primeiro ataque mortal foi direcionado a um barco que, segundo autoridades dos EUA, estaria transportando drogas do país sul-americano para os Estados Unidos. De acordo com o governo americano, outros 19 ataques semelhantes ocorreram desde então, totalizando 20 incidentes.

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O governo dos EUA alega que o objetivo dos ataques a esses “barcos de drogas” no Caribe é interromper o tráfico de entorpecentes da América do Sul para os EUA. Em uma publicação na rede X, Hegseth afirmou que a operação, realizada em conjunto com o Comando Sul dos EUA — responsável pela América Central e do Sul — está “removendo narcoterroristas do nosso Hemisfério e protegendo nossa Pátria das drogas que estão matando nosso povo”. O próprio Hegseth afirma que a Operação Lança do Sul pretende eliminar “narcoterroristas”, termo que o presidente Trump também usou repetidamente em referência ao regime venezuelano. Maduro é acusado pelos EUA de liderar um cartel de drogas, o Cartel de los Soles, supostamente comandado por oficiais militares venezuelanos. Os EUA também ofereceram uma recompensa de US$ 50 milhões pela captura de Maduro — a maior recompensa desse tipo na história do país. O governo venezuelano rechaça as acusações de vínculos com o narcotráfico, com o ministro do Interior e da Justiça, Diosdado Cabello, afirmando que o Cartel de los Soles é uma “invenção” da Casa Branca.

O regime de Caracas, no entanto, enxerga a operação como uma provocação e uma ameaça direta à soberania nacional da Venezuela. O temor é que os EUA possam usar meios militares para derrubar o regime chavista liderado por Nicolás Maduro. Críticos do presidente dos EUA, Donald Trump, também suspeitam que essas operações sejam uma tática diversionista motivada por questões internas, como a pressão para divulgar a totalidade dos chamados “arquivos Epstein”.

Várias fontes apontam que os EUA já posicionaram uma dúzia de navios de guerra no sul do Caribe, incluindo destróieres, cruzadores, embarcações de desembarque e um submarino nuclear. Trump também ordenou que o maior porta-aviões do mundo, o USS Gerald R. Ford, deixasse o Mediterrâneo Oriental e se dirigisse ao Caribe. A força total, de cerca de 12.000 militares, seria excepcionalmente grande para a simples tarefa de interceptar lanchas que supostamente transportam drogas.

Até agora, o governo dos EUA não confirmou planos de ataques militares dentro da Venezuela. Mas Trump vem declarando que os dias de Maduro como presidente estão contados. Na sexta-feira (14/11), Donald Trump indicou que uma decisão oficial sobre como os EUA vão proceder pode ser anunciada em breve, mas também foi evasivo. “Eu não posso dizer o que seria, mas eu meio que me decidi” sobre a Venezuela, disse Trump a repórteres. Uma eventual ação militar em território venezuelano pode marcar a primeira intervenção unilateral direta dos EUA na América Latina em mais de três décadas. A última ocorreu em 1989, quando forças norte-americanas invadiram o Panamá para capturar o então ditador Manuel Noriega, acusado de chefiar uma quadrilha de tráfico de drogas — a iniciativa durou de dezembro de 1989 a janeiro de 1990 e ficou conhecida como Operação Justa Causa.

Embora um ataque à Venezuela configurasse uma quebra da promessa de Trump de evitar novas guerras no exterior, ele poderia argumentar que a ação seria do interesse dos EUA. A publicação de Hegseth no X insinua algo nesse sentido: “O Hemisfério Ocidental é a vizinhança dos EUA — e nós a protegeremos”. Mas a força militar que os EUA posicionaram na região provavelmente seria pequena demais para uma invasão em larga escala de um país altamente militarizado, com 28 milhões de habitantes. As forças armadas e milícias da Venezuela somam mais de 300.000 pessoas. O cientista político alemão Günther Maihold, especializado em América Latina, considera mais provável que os EUA busquem uma “fragmentação do bloco de poder venezuelano” por meio de ataques seletivos e possíveis ações lideradas pela CIA, a Agência Central de Inteligência dos EUA.

O presidente Maduro vem intensificando sua retórica contra o que chama de imperialismo dos EUA e tenta mobilizar a população para defender a Venezuela contra uma possível invasão. Em meados de setembro, ele lançou um programa para mobilizar civis. Nesta semana, as forças armadas venezuelanas realizaram um grande exercício militar, envolvendo cerca de 200.000 pessoas. Maduro também anunciou que convocaria 4,5 milhões de membros da milícia do país. No entanto, analistas militares apontam que o poder das forças venezuelanas foi dilapidado nos últimos anos por sucateamento e problemas de financiamento, em meio à persistente crise econômica enfrentada pelo país.

Os ataques a supostos barcos de drogas são altamente controversos. Os EUA não forneceram provas sobre quem ou o que estava a bordo das embarcações afundadas, e os passageiros foram mortos sem representar ameaça discernível. Os aliados da Venezuela expressaram seu apoio de maneira previsível. O representante diplomático da China nos EUA afirmou que Pequim apoia fundamentalmente o combate ao crime transnacional, mas não à custa dos direitos humanos ou da segurança da navegação em águas internacionais. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse que o governo russo espera que não sejam tomadas medidas que possam desestabilizar a região, enfatizando que todas as ações devem estar alinhadas ao direito internacional.

Críticas às ações dos EUA também vieram de países aliados que fazem parte da Otan. À margem da reunião dos ministros das Relações Exteriores do G7 no Canadá, no início desta semana, o ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noel Barrot, expressou preocupação com as operações militares dos EUA no Caribe, afirmando que elas violam o direito internacional. Segundo fontes britânicas citadas pela emissora norte-americana CNN, o Reino Unido decidiu, há mais de um mês, parar de compartilhar informações de inteligência com os EUA que pudessem ser usadas para atacar embarcações no Caribe. Os britânicos também afirmaram que não querem participar do que consideram ações ilegais. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, negou ambas as alegações. A chefe de política externa da União Europeia, Kaja Kallas, também criticou indiretamente a situação na cúpula UE–CELAC, um encontro entre países latino-americanos e europeus no início de novembro, pedindo respeito ao direito internacional em tais operações militares. Um porta-voz do governo alemão fez comentários semelhantes em uma coletiva de imprensa nesta semana.

A Operação Lança do Sul, oficialmente um esforço antidrogas, é vista por críticos e por Caracas como um mecanismo de pressão e uma possível preparação para uma mudança de regime. O movimento de tropas, a retórica agressiva de Trump e as críticas de aliados internacionais indicam que as tensões no Caribe atingiram um ponto de inflexão perigoso.

A escalada militar dos EUA no Caribe, sob o pretexto de combater o narcotráfico, é vista por analistas como uma manobra do presidente Donald Trump para desviar a atenção de crises internas que ameaçam sua popularidade e estabilidade política. Entre os principais focos de desgaste estão a alta da inflação, que pressiona o custo de vida da população americana, e a crescente cobrança por transparência nos chamados “arquivos Epstein”, que envolvem figuras influentes e potencialmente comprometedoras para aliados do governo.

Além disso, Trump enfrenta críticas por sua condução da política migratória, tensões com o Congresso sobre cortes orçamentários e investigações sobre o uso político de agências federais. A Operação Lança do Sul, com o envio do porta-aviões USS Gerald R. Ford e milhares de militares à costa venezuelana, é considerada desproporcional para o combate a lanchas de traficantes, o que reforça a tese de que a Venezuela está sendo usada como “boi de piranha” para desviar o foco da opinião pública.

A retórica belicista contra Nicolás Maduro, somada ao silêncio estratégico sobre os escândalos domésticos, sugere uma tentativa de reposicionar a narrativa nacional em torno de um inimigo externo. Para críticos, trata-se de uma tática clássica de desvio de atenção em momentos de crise interna.