Um grupo de 153 palestinos desembarcou na quinta-feira (13) no aeroporto OR Tambo, na África do Sul, após deixar a Faixa de Gaza em operação organizada por uma ONG pouco conhecida. Sem carimbos de saída nos passaportes, os passageiros ficaram retidos por cerca de dez horas na pista. Após intervenção do presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, 130 receberam vistos temporários de três meses. Os demais seguiram para outros países. O governo sul-africano anunciou investigação sobre o caso.
A operação teria sido conduzida pela organização Al Majd Europe, que se apresenta como entidade humanitária. Segundo relatos, mais de 320 palestinos foram retirados de Gaza em voos realizados em 27 de outubro e 12 de novembro.
Morador de Deir El-Balah, no centro da Faixa de Gaza, Wessam Bashir, 31, afirma ter pago US$ 3 mil à ONG para viajar com a família. “Aceitei pela minha esposa e meus filhos”, disse. Após enviar documentos, recebeu ligação de número norueguês com instruções para se apresentar em área entre Khan Yunis e Rafah. Segundo ele, foi orientado a alegar que integrava um contingente francês.
Outro passageiro, identificado como Ahmed*, 36, relata ter pago US$ 2 mil por pessoa em criptomoedas para uma conta privada. A maioria dos viajantes afirma ter desembolsado entre US$ 1.400 e US$ 2.000.
Os palestinos foram levados à passagem de Kerem Abu Salem, onde, segundo relatos, tiveram de abandonar as bagagens por ordem de militares israelenses. Após controle de segurança, seguiram para o aeroporto Ramon, em Eilat, no sul de Israel.
Os destinos finais variaram. Ahmed conta que recebeu documentos com reservas de hotel e supostos vistos para países como Índia, Malásia e Indonésia. “Descobrimos para onde iríamos dentro do avião”, disse. O voo, operado pela companhia romena Fly Yo, fez escala em Nairóbi antes de seguir para Joanesburgo.
Sem registro de saída de Israel nos passaportes, os passageiros foram inicialmente impedidos de entrar na África do Sul. A liberação ocorreu após pressão de ONGs e ativistas.
Entidade sob suspeita
Fundada em 2010, a Al Majd Europe afirma atuar em zonas de conflito. O site da organização, criado em fevereiro de 2025, exibe imagens que aparentam ter sido geradas por inteligência artificial. Apenas dois integrantes são mencionados: Adnan e Muayad. O endereço informado em Jerusalém Oriental é incompleto.
Uma das supostas beneficiárias da ONG, identificada como Mona, aparece em foto retirada de reportagem do jornal Middle East Eye, que mostra outra mulher, Abeer Khayat, 33, também síria.
Segundo o jornal israelense Haaretz, o responsável pela operação é Tomer Janar Lind, israelo-estoniano. A publicação afirma que o Escritório de Imigração Voluntária, vinculado ao Ministério da Defesa de Israel, teria delegado à ONG a tarefa de coordenar as saídas.
Procurada por e-mail, telefone e WhatsApp, a Al Majd Europe não respondeu à RFI (Rádio França Internacional). “Quando vi o site deles, não fiquei convencido”, disse Ahmed. “Mas depois de ouvir por conhecidos que várias viagens tinham dado certo, ficamos motivados.”
Há relatos de outros voos organizados pela ONG, o que levanta dúvidas sobre o envolvimento de autoridades israelenses. Os pontos de passagem são controlados pelo COGAT, órgão israelense responsável pelas fronteiras com Gaza. Em nota, o COGAT informou que os residentes deixaram o território após acordo com país terceiro, sem especificar qual.
Ausência de autoridades palestinas
Os passageiros relatam ausência de representantes palestinos durante o embarque. “Não havia ninguém do lado palestino quando chegamos. Nem Cruz Vermelha, nem ninguém, só os motoristas”, disse Bashir. “Vimos dois representantes da Al Majd do lado israelense após os controles, mas só isso. Pareciam palestinos”, afirmou Ahmed.
*Nome alterado a pedido do entrevistado.


