Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante conversa com a imprensa. Parque da Cidade – Belém (PA) - Reprodução


Em esforço diplomático para destravar as negociações da COP30, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou a quarta-feira (19) reunido com representantes de países e setores da sociedade civil, mas saiu sem avanços concretos. A presidência brasileira da conferência adiou para esta quinta-feira (20) a divulgação de uma nova versão do documento-base, diante da dificuldade em costurar consenso sobre o abandono dos combustíveis fósseis — tema central da cúpula do clima em Belém.

Lula se encontrou com delegações da União Europeia, África, países insulares e emergentes, além de governadores, prefeitos, empresários e ambientalistas. Em declaração à imprensa no início da noite, defendeu que cada país trace seu próprio caminho para reduzir a dependência de petróleo, carvão e gás, mas reforçou a urgência de uma transição energética global.

“É preciso mostrar que estamos falando sério. Não queremos impor nada a ninguém, mas precisamos começar a pensar em como viver sem os combustíveis fósseis”, afirmou o presidente, ao lado da primeira-dama, Janja da Silva.

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O petista alertou que a credibilidade das lideranças mundiais está em jogo e que a crise climática ameaça a própria sobrevivência da humanidade. Ele prometeu levar o debate aos fóruns do G7 e do G20, mas evitou detalhar os resultados de sua participação na COP30 até agora.

A chamada “Decisão Mutirão”, que reúne os pontos mais sensíveis da conferência — como financiamento climático, adaptação e o mapa do caminho para o fim dos fósseis —, era esperada para ontem. Mas, segundo o presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, as conversas seguem travadas.

“A COP já produziu documentos importantes, mas ainda há temas complexos em aberto”, disse Corrêa do Lago.

A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e a CEO da COP30, Ana Toni, acompanharam Lula nos encontros. Marina, que lidera a proposta brasileira de redução da dependência de fósseis, disse acreditar em um consenso até o fim da conferência, na sexta-feira (21).

“Ninguém quer impor nada. Mas todos precisamos encontrar formas de caminhar juntos”, afirmou a ministra.

A proposta brasileira enfrenta resistência de países produtores de petróleo, como Arábia Saudita e Rússia. Nações africanas também exigem garantias de financiamento para a transição energética. A China, ator-chave nas negociações, ainda não sinalizou apoio.

Por outro lado, mais de 80 países — entre eles Colômbia, Quênia, Reino Unido e Alemanha — apoiam a iniciativa. A União Europeia entregou formalmente uma proposta de roteiro para o fim dos fósseis à presidência da COP.

Para ambientalistas, a fala de Lula tem peso simbólico, mas precisa se traduzir em compromissos concretos.

“Queremos planos de ação reais, com metas para superar os fósseis e zerar o desmatamento”, cobrou Carolina Pasquali, diretora-executiva do Greenpeace Brasil.

A expectativa é que os 195 países cheguem a um acordo até o encerramento da conferência, nesta sexta-feira.