
A carapaça de uma tartaruga-gigante que viveu entre 10,8 e 8,5 milhões de anos na Amazônia foi encontrada no Acre, surpreendendo pesquisadores pela sua idade e excelente estado de preservação.
Trata-se de um fóssil raro da Stupendemys geographicus, a maior tartaruga de água doce que já existiu.
Uma Descoberta Excepcional na Amazônia
Imagine encontrar uma tartaruga tão grande que seu casco sozinho poderia ter quase 3 metros de comprimento. Foi exatamente isso que aconteceu na região de Boca dos Patos, em Assis Brasil, no Acre. Um fóssil de Stupendemys geographicus, uma tartaruga-gigante que viveu durante o período geológico conhecido como Mioceno, foi descoberto em um estado de conservação impressionante.
O Mioceno é uma época geológica que se estendeu de aproximadamente 23 milhões a 5 milhões de anos atrás. É um período conhecido por sua rica fauna aquática e terrestre, além de ser o berço de diversas linhagens amazônicas que conhecemos hoje.
“Nós encontramos uma carapaça da maior tartaruga de água doce que já existiu, a Stupendemys geographicus”, revela a paleontóloga Annie Schmaltz Hsiou, da Universidade de São Paulo (USP), que estuda a região há quase 20 anos. O pedaço encontrado, que corresponde à parte de trás da carapaça a partir da cintura, já mede cerca de 1,70 metro de largura. “A gente estima que esse casco, especificamente, chegaria a quase 3 metros de comprimento. A carapaça está entre as mais bem preservadas já encontradas dessa espécie – um registro espetacular dessa supertartaruga que viveu durante o Mioceno na Amazônia brasileira”, completa.
Por que essa Descoberta é Tão Importante?
A região sudoeste da Amazônia é conhecida por sua riqueza em fósseis há mais de 150 anos, mas encontrar materiais tão bem preservados é raro. “A questão é que, em geral, encontramos fósseis muito fragmentados”, explica Carlos D’Apolito Júnior, da Universidade Federal do Acre (Ufac). Segundo ele, é comum achar apenas pedaços de carapaças ou ossos soltos, principalmente de animais menores. “Encontrar animais grandes assim, bem preservados, foi uma surpresa”, afirma.
Essa descoberta abre novas portas para a pesquisa. “Agora será possível comparar com registros de outros lugares, como, por exemplo, da Venezuela, que tem um material mais completo dessa espécie. Vamos poder decifrar, finalmente, se é a mesma espécie ou se existia uma diferente”, diz D’Apolito Júnior. Ele compara a importância desse achado com a descoberta, em 1986, de um crânio inteiro do Purussaurus brasiliensis, um jacaré gigante que também viveu na Amazônia. Essas descobertas nos ajudam a entender como era a vida na região milhões de anos atrás, em um período muito mais quente e com vastos rios e lagos.
O Mioceno é crucial para entender a formação da biodiversidade amazônica. “Portanto, quanto mais nos aprofundarmos nesse intervalo geológico, mais vamos entender como se formou a biodiversidade na Amazônia e como as mudanças climáticas causaram extinções e transformações na região”, pontua Hsiou.
Os Desafios da Expedição “Boca dos Patos”
A logística para chegar ao local da escavação foi um verdadeiro desafio. A equipe, composta por 16 pessoas (dez pesquisadores, cinco barqueiros e uma cozinheira), levou um dia inteiro navegando pelo rio até o ponto da descoberta. “O rio seco é a principal dificuldade. A gente ia parando muito para empurrar o barco até achar um pedacinho mais fundo e conseguir navegar”, lembra D’Apolito Júnior.
A expedição tinha um prazo apertado de seis dias, pois o nível da água poderia baixar ainda mais, dificultando o retorno. Felizmente, a sorte estava ao lado dos pesquisadores: “Tivemos uma sorte danada, porque esse fóssil foi encontrado no primeiro dia”, comemora D’Apolito Júnior.
A coleta do material durou quatro dias, envolvendo a escavação, a preparação do casco com uma “jaqueta” de gesso para protegê-lo, a retirada e o transporte fluvial até a cidade de Assis Brasil – uma viagem de cerca de sete horas de barco – e, finalmente, a ida para a Universidade Federal do Acre, em Rio Branco. “Se a gente não tivesse encontrado a tempo, o material fatalmente teria sido perdido. Quando chove e o leito seco do rio alaga, a água vai levando tudo. Não sobraria nada ou muito menos do estado preservado em que encontramos a carapaça”, projeta o pesquisador.
A Importância da Comunidade Local
O transporte da tartaruga foi possível graças a uma base improvisada feita com madeira cortada pelos barqueiros, muitos deles ribeirinhos e moradores de Assis Brasil. A interação com as comunidades locais é um dos pilares do projeto.
“A parceria com eles é fundamental para descobrirmos novos fósseis e novas espécies que nunca antes foram descritas – ou que só os saberes das comunidades tradicionais e originárias tinham conhecimento. Agora a gente pode trazer luz sobre o que realmente aconteceu na proto-Amazônia e também compreender como é a relação desses povos com os fósseis”, afirma Hsiou.
Uma das propostas do trabalho é justamente reconhecer e valorizar o conhecimento dos moradores que indicam localidades fossilíferas, oferecendo a eles e suas comunidades treinamento sobre a preservação do patrimônio paleontológico regional. “Já temos um certo conhecimento sobre o entendimento dos indígenas do Alto Rio Juruá com os fósseis”, conta a pesquisadora. “Sabemos do respeito que eles têm aos fósseis que encontram na beira dos rios. Há uma certa devoção a esse material. Nossa intenção é aprofundar ainda mais a educação ambiental e a conscientização da importância da preservação, tanto da biodiversidade atual quanto da pretérita. Eles são os guardiões desses locais.”
Durante a expedição, a equipe também teve contato com a comunidade indígena Manchineri da Aldeia dos Patos. “Fomos pedir licença e mostrar que estávamos por ali. Não trabalhamos na terra indígena em si, mas eles foram lá acompanhar o nosso trabalho de escavação”, relata D’Apolito Júnior.
Próximos Passos da Pesquisa
O fóssil da Stupendemys geographicus foi levado para o campus-sede da Universidade Federal do Acre, em Rio Branco. Lá, passará por análises científicas e, posteriormente, será incorporado à coleção de fósseis da Ufac. Uma das diretrizes do edital Expedições Científicas, que financia o projeto, é justamente que o material coletado seja catalogado e preservado em instituições amazônicas, garantindo a proteção do patrimônio local.
“A coleção da Ufac tem quase 10 mil fósseis e a grande maioria foi descoberta em locais próximos. Com a ida a lugares mais remotos, a gente aumenta a chance de encontrar materiais que ainda não existem no acervo ou que, embora já conhecidos, estejam mais bem preservados e tragam mais informações taxonômicas. Assim vamos entender melhor como era a Amazônia do passado, como a fauna e a flora evoluíram e se adaptaram às mudanças climáticas”, comenta D’Apolito Júnior.
O projeto ambiciona continuar explorando outros rios no Acre e no sul do Amazonas, áreas que fazem parte da importante Formação Solimões. “Depois dessa supertartaruga, estamos com grande expectativa de achar fósseis muito mais interessantes nesses locais mais inóspitos e pouco explorados”, diz Hsiou.
A paleontóloga também enfatiza a relevância da colaboração entre as instituições. “Tenho uma forte parceria com pesquisadores da Ufac. Todos os meus projetos financiados pela FAPESP, desde o meu primeiro Jovem Pesquisador, versam sobre fósseis da Formação Solimões, do sudoeste da Amazônia brasileira, ou da Amazônia Ocidental”, conta. “Já produzimos juntos inúmeros artigos científicos e temos um foco muito grande na formação de recursos humanos, compartilhando pesquisas e materiais e também fazendo intercâmbio entre estudantes da USP e da Ufac”, celebra a pesquisadora.
A descoberta foi feita por um grupo de pesquisa liderado pelos professores e paleontólogos Carlos D’Apolito Júnior, da Universidade Federal do Acre (Ufac), e Annie Schmaltz Hsiou, da Universidade de São Paulo (USP). Ambos são coordenadores do projeto “Novas fronteiras no registro fossilífero da Amazônia Sul-ocidental”, financiado pelo edital Expedições Científicas da Iniciativa Amazônia+10 – um programa do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap), com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da FAPESP e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Acre (Fapac).


