Gudryan Neufert*
A máscara mais popular no Carnaval de rua de São Paulo, em 2025, é a que estampa o rosto de Fernanda Torres. Milhares de foliões desfilam pelas avenidas exibindo a face da brasileira mais reverenciada do mundo na atualidade.
A atriz tornou-se uma espécie de super-heroína, símbolo da defesa do talento, da arte, da intelectualidade e, até mesmo, do direito à festa em um Brasil onde manifestações culturais e o próprio Carnaval enfrentam resistência de setores conservadores.
O destino, sempre irônico, fez com que a noite do Oscar caísse em pleno domingo de folia. Assim, duas grandes celebrações aconteceram simultaneamente: o desfile das escolas de samba no Sambódromo do Rio e a cerimônia do Oscar no Dolby Theatre, em Los Angeles.
E foi Fernanda Torres o elo entre esses dois mundos. A atriz encantou o universo cinematográfico com sua atuação no já cultuado Ainda Estou Aqui, no papel da advogada Eunice Paiva. O filme narra o “sequestro político” e o desaparecimento do diplomata Rubens Paiva durante os anos mais sombrios da ditadura militar brasileira, em 1971, além da luta de sua família por justiça — um reconhecimento que só veio oficialmente 25 anos depois.
O roteiro é baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, filho de Eunice e Rubens. A obra, repleta de memórias dolorosas, tem um centro fixo e inescapável: a lembrança do pai levado à força, um desaparecimento impossível de esquecer.
Marcelo, ao descrever o Alzheimer da mãe nos últimos anos de vida, revelou também o funcionamento de sua própria memória:
“A intensidade de uma lembrança é diretamente proporcional à sua antiguidade. As recém-chegadas somem antes daquelas de que lembramos muitas vezes na vida. Quanto mais antiga e primitiva, mais estável ela é. As últimas se vão primeiro.”
Há quem diga que, quase sempre, o filme fica aquém do livro que o inspirou. Não é o caso de Ainda Estou Aqui. A crítica Susan Sontag, em seu ensaio Uma Nota Sobre Romances e Filmes, descreve o cinema como uma “pan-arte”, capaz de incorporar todas as outras formas artísticas — romance, poesia, teatro, pintura, escultura, dança, música, arquitetura. E o filme dirigido por Walter Salles é um exemplo dessa fusão grandiosa.
Se indicado, Ainda Estou Aqui poderia ter levado o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. Mas sua disputa aconteceu em outras três categorias: Melhor Filme Internacional, Melhor Atriz e Melhor Filme.
Walter Salles, em uma de suas dezenas de entrevistas nos últimos meses, declarou:
“Se vier, veio. Se não vier, a viagem foi linda.”
A viagem, no entanto, chegou ao destino mais desejado. O Oscar finalmente veio. O Brasil, que há quase cem anos sonhava com a estatueta, alcançou o auge do seu cinema.
E a história não poderia ser mais simbólica. Após anos de sucateamento e falta de investimento, o cinema brasileiro renasceu, tal como aconteceu no Cinema Novo nos anos 1950 e 1960, na lenta abertura democrática dos anos 1970 e no ressurgimento pós-Collor. Sempre que o cinema reage, a democracia também se fortalece.
Em Contra a Interpretação, Sontag escreve:
“A transparência é o valor mais alto e libertador na arte. Significa sentir a luminosidade da coisa em si, das coisas sendo o que são.”
Filmes como Ainda Estou Aqui não precisam ser decifrados para serem compreendidos. Sua força está na luz que lançam sobre o passado e o presente.
O Brasil agora integra a lista dos países vencedores do Oscar. Que também passe a figurar entre aqueles que não varrem suas mazelas históricas para debaixo do tapete.
Viva Eunice. Viva Marcelo. Viva Walter. Viva Fernanda. Viva a arte.
*Gudryan Neufert é jornalista, com passagens por TV Globo, TV Record e SBT, além de graduações em Jornalismo (PUC-PR) e História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).


