Palácio de Buckingham (Inglaterra) - Reprodução


A nova leva de documentos sobre o caso Jeffrey Epstein, liberada nesta sexta-feira (30) pelo Departamento de Justiça (DoJ) dos EUA, expõe a profundidade das conexões do financista com a elite global e as lacunas no sistema prisional que permitiram sua morte.

O acervo de 3 milhões de páginas inclui transcrições de Ghislaine Maxwell, e-mails sobre “jantares privados” no Palácio de Buckingham (Londres) e evidências de transações financeiras com aliados do alto escalão britânico.

A divulgação, no entanto, é acompanhada de uma crise institucional em Washington. O deputado democrata Robert Garcia, do Comitê de Supervisão da Câmara, acusou o governo de violar o Epstein Files Transparency Act. “Donald Trump e seu Departamento de Justiça deixaram claro que pretendem reter cerca de 50% dos arquivos de Epstein, alegando cumprimento integral da lei. Isso é ultrajante”, afirmou Garcia.

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Londres, Moscou e a Realeza

Os registros de agosto de 2010 são os mais comprometedores para a diplomacia britânica. Neles, um interlocutor identificado como “The Duke” (O Duque) — que utiliza a assinatura “HRH Duke of York KG”, associada ao príncipe Andrew — coordena com Epstein o encontro com uma jovem russa.

  • O convite: “Poderíamos jantar no Palácio de Buckingham e ter muita privacidade”, escreveu o interlocutor.
  • A resposta de Epstein: “BP [Buckingham Palace], por favor”.
  • A conexão: Epstein descreveu a mulher, então com 26 anos, como “inteligente, bonita e confiável”.

Andrew Mountbatten-Windsor tem enfrentado anos de escrutínio sobre essa amizade. Em nota anterior reiterada por sua defesa, ele afirma que não “viu, testemunhou ou suspeitou de qualquer comportamento do tipo que posteriormente levou à prisão e condenação [de Epstein]”.

“Empréstimos” e Estadias Políticas

O braço de influência de Epstein estendia-se ao Partido Trabalhista britânico. E-mails de 2009 mostram que Peter Mandelson, então de facto vice-primeiro-ministro do Reino Unido, solicitou hospedagem nas propriedades de Epstein em Nova York enquanto o financista cumpria pena por solicitação de prostituição de menor.

“Ficarei na sua casa de sexta a domingo?”, perguntou Mandelson em 16 de junho de 2009. Epstein, que tinha permissão para trabalhar em seu escritório durante o dia, mas retornava à prisão à noite, respondeu estar “empolgado em hospedar, mas triste por não estar lá”.

Além disso, os documentos confirmam que Epstein enviou £ 10 mil para Reinaldo Avila da Silva, parceiro de Mandelson, para custear um curso de osteopatia. “Vou transferir o valor do seu empréstimo imediatamente”, escreveu o financista. Mandelson declarou à BBC: “Já fui muito claro sobre minha relação com Epstein. Não tenho nada a acrescentar”.

As Contradições no Cárcere

Os arquivos lançam luz sobre as circunstâncias da morte de Epstein no Metropolitan Correctional Centre (MCC) em 2019. Um capitão da prisão, em depoimento ao FBI, relatou que Epstein era “manipulador” para evitar dividir a cela. “Em 23 de julho de 2019, ele foi encontrado inconsciente com um pedaço de tecido caseiro no peito. Ouvimos que ele poderia estar fingindo, pois foi observado abrindo os olhos e fazendo movimentos suspeitos”, diz o documento.

No dia da morte fatal, 10 de agosto, a equipe admitiu que não realizou as rondas das 03h00 e 05h00. O sistema de câmeras da unidade também estava fora de operação.

Ghislaine Maxwell: Do “Ketchup” à Ilha Particular

Em depoimento ao vice-procurador-geral Todd Blanche em julho de 2025, Ghislaine Maxwell descreveu o início de sua relação com o bilionário, em 1991. Segundo ela, uma amiga a apresentou dizendo que Epstein “estava procurando uma esposa”.

“Eu o conheci em seu escritório. A coisa mais memorável é que ele usava uma gravata — o que não fazia sempre — e ela tinha o que parecia ser uma mancha gigante de ketchup”, relatou Maxwell. Os novos arquivos revelam ainda que ela listou a ilha de Little St. James, o centro do esquema de abusos, como sua residência oficial em seu certificado de naturalização americana.