Os Estados Unidos têm voltado agora seus olhos para as vastas reservas de minerais críticos do Brasil, elementos cruciais para setores como a transição energética, a defesa e a produção de semicondutores, vinculando acordos comerciais desde que o pais lhes passe a riqueza natural do subsolo.
Essa busca por novos fornecedores é uma resposta direta à crescente dependência da China, que atualmente domina o processamento e, em muitos casos, a produção global desses minerais estratégicos.
Até recentemente, os EUA eram altamente dependentes da China para obter minerais essenciais. No entanto, a intensificação da disputa comercial entre as duas potências e as restrições impostas por Pequim à exportação de terras raras e ímãs – essenciais para uma vasta gama de tecnologias modernas, de smartphones a veículos elétricos e equipamentos militares – levaram Washington a buscar a diversificação de suas fontes de suprimento.
O Brasil se destaca como um parceiro estratégico devido às suas significativas reservas. O país possui cerca de 98% das reservas internacionais de nióbio, além de vastos depósitos de grafite, terras raras, níquel, lítio, cobre e cobalto – minerais considerados vitais para o futuro da economia global. Elementos de terras raras (ETR), por exemplo, são cruciais para a fabricação de ímãs permanentes de alta potência, indispensáveis para veículos elétricos e turbinas eólicas, e vitais para tecnologias de defesa como aviões de caça e submarinos.
Cenário
A movimentação americana se intensificou. Nesta semana, Gabriel Escobar, encarregado de negócios dos EUA no Brasil, reuniu-se com representantes do setor de mineração brasileiro, incluindo empresários e membros do governo e do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), para discutir um plano de cooperação para a exploração desses minerais. Essa reunião ocorreu em um momento de tensão, dias antes da entrada em vigor de uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, anunciada pelo governo de Donald Trump.
Apesar da coincidência, participantes da reunião afirmaram não ter interpretado as falas de Escobar como uma tentativa de condicionar o alívio das tarifas ao acesso aos minerais.
Contudo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi categórico ao afirmar que não permitirá interferência estrangeira na exploração mineral do Brasil, declarando: “Aqui ninguém põe a mão.”
A reunião girou em torno da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, um projeto em tramitação no Congresso que visa definir quais minérios são essenciais para o desenvolvimento econômico, tecnológico e ambiental do país.
Monopólio chinês
O termo “crítico” para esses minerais está ligado não apenas à sua importância industrial, mas também à concentração geográfica da produção e do processamento. A China detém o monopólio no processamento da maioria dos minerais críticos, mesmo importando grande parte das matérias-primas.
Esse domínio chinês tem gerado preocupação em governos e indústrias ocidentais. Em 2010, Pequim já havia suspendido as exportações de terras raras para o Japão, causando picos de preços e alertando para a vulnerabilidade das cadeias de suprimentos. Mais recentemente, as restrições chinesas impactaram severamente indústrias como a automotiva nos EUA e na União Europeia, com fábricas como a Ford sendo forçadas a reduzir a produção e empresas buscando desenvolver tecnologias que usem menos ou nenhum ETR.
Em resposta a essa vulnerabilidade, os EUA e a União Europeia têm investido em estratégias para garantir o acesso a esses materiais. O Departamento de Defesa dos EUA visa criar uma cadeia de suprimentos “da mina ao ímã” até 2027, enquanto a UE, com sua Lei de Matérias Primas Críticas, estabeleceu metas para a produção interna e a colaboração com aliados.
Opções para o Ocidente
Além do Brasil, outros países com grandes reservas de terras raras e minerais críticos estão sendo considerados. A Austrália e a Índia possuem depósitos significativos, embora sua produção ainda seja incipiente em comparação com a China e exija bilhões de dólares em investimentos e anos para o desenvolvimento de novas minas e indústrias.
A Ucrânia e a Groenlândia também apresentam potencial, mas com desafios logísticos e geopolíticos. Os EUA já pressionaram a Ucrânia a assinar um acordo para a exploração de terras raras, chegando a ameaçar cortar a assistência militar. Na Groenlândia, um projeto de terras raras está em andamento, com o Exim Bank dos EUA considerando um empréstimo significativo para o Projeto Tanbreez, um dos maiores do mundo.
No entanto, especialistas alertam que, até que as cadeias de fornecimento alternativas sejam significativamente ampliadas, a China continuará utilizando os minerais críticos como uma poderosa arma geopolítica, mantendo indústrias e nações globais sob sua influência. (Da
(Redação e da DW)



