O ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, sabia dos graves problemas de liquidez enfrentados pelo Banco Master durante sua gestão, mas optou por não adotar medidas extremas. A estratégia era priorizar uma “solução de mercado”, evitando o custo de uma liquidação precoce para o sistema financeiro e para o Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
O ultimato, porém, tinha data marcada: março de 2025. Mas a deterioração dos números acelerou o desfecho. A decisão de liquidar a instituição acabou sendo assinada por seu sucessor, Gabriel Galípolo, em novembro de 2024, após o banco falhar em obrigações básicas de segurança bancária.
A tese do “Good Bank”
A cautela de Campos Neto baseava-se na tentativa de salvar a parte saudável da operação. A ideia era separar o “good bank” (ativos bons) do “bad bank” (ativos podres). Com essa divisão, o BC esperava que os ativos de qualidade fossem revendidos, minimizando o impacto sistêmico.
Interlocutores do ex-presidente afirmam que o processo de decisão no BC é rigorosamente técnico e colegiado. Segundo esses relatos, Campos Neto alega que “não houve proposta de voto encaminhada pela Diretoria de Fiscalização para que o Master sofresse intervenção” durante seu mandato. Ele reforça que a presidência não atua de forma exclusiva nesses casos.
O cerco da fiscalização em 2024
Apesar da defesa técnica, o cerco ao banco de Daniel Vorcaro apertou significativamente no último ano de Campos Neto. Documentos enviados ao Tribunal de Contas da União (TCU) revelam que, no primeiro semestre de 2024, o BC iniciou um “acompanhamento contínuo” da gestão de risco do Master devido ao baixo estoque de ativos líquidos para pagar dívidas.
“O Banco Central determinou a adoção de providências com vistas a assegurar a liquidez em níveis suficientes e adequados, assim como a apresentação de plano de contingência”, afirma o documento do BC enviado ao ministro Jhonatan de Jesus, do TCU.
No segundo semestre, o cenário tornou-se crítico. O plano de negócios do Master previa captar R$ 15 bilhões, mas a instituição só conseguiu R$ 2 bilhões. A frustração gerou um efeito cascata: sem dinheiro novo, o banco não conseguia rolar as dívidas antigas.
Irregularidades e “Cartão Amarelo”
A auditoria da autoridade monetária detectou uma série de atipicidades. O relatório aponta “insuficiência de capital como resultado de informações incorretas prestadas à Autarquia” e a inexistência de ativos líquidos em fundos que deveriam dar amparo às operações de longo prazo.
Em outubro de 2023, uma norma editada pelo BC sobre a contabilização de precatórios (dívidas judiciais) acabou beneficiando o Master. A regra permitiu que o banco, que possuía bilhões nesses ativos, continuasse operando sem a necessidade de novos aportes dos sócios.
Contudo, em novembro de 2024, a situação ficou insustentável quando o Master parou de recolher os compulsórios — o dinheiro que todo banco deve manter depositado no BC por segurança.
“Seus dirigentes foram cientificados de que essa situação poderia dar azo à aplicação de medidas prudenciais preventivas”, diz o BC, referindo-se ao “cartão amarelo” regulatório que precede a intervenção direta.
Crescimento exponencial sob suspeita
A trajetória do Master impressiona pela velocidade. De um banco de R$ 3,7 bilhões em 2019, saltou para R$ 82 bilhões em 2024. Segundo a agência Moody’s, a instituição dobrava de tamanho a cada ano, tornando-se a 25ª maior do país em tempo recorde.
Essa expansão ocorreu sob a égide da agenda de “desconcentração bancária” de Campos Neto, que buscava fortalecer bancos médios e fintechs. Contudo, as investigações da Polícia Federal na Operação Compliance Zero sugerem que essa liberdade pode ter sido usada para o crescimento desordenado e a venda de carteiras falsas, como a que envolveu o Banco de Brasília (BRB) em 2025.
Procurado, Roberto Campos Neto não se pronunciou sobre as informações colhidas pela reportagem.





