A médica e diretora da Sociedade Brasileira de Oncologista, Dra. Marcela Crosara, durante entrevista ao BC TV


Por Germano Oliveira (SP) e Adriana Blak (RJ)

O câncer colorretal, que afeta o intestino grosso (cólon e reto), tem se consolidado como um dos maiores desafios de saúde pública no Brasil. Segundo especialistas, trata-se da segunda neoplasia mais incidente tanto em homens quanto em mulheres, com aumento significativo de casos nos últimos anos — inclusive entre pessoas jovens.

“A doença pode ser prevenida e, quando diagnosticada precocemente, tem altas chances de cura”, destacou a médica oncologista Marcela Crosara, diretora da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), que participou nesta quarta-feira (25) do programa BC TV, do portal Brasil Confidencial.

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A campanha “Março Azul-Marinho”, voltada à conscientização sobre o tema, ganha ainda mais relevância por marcar o Dia Nacional de Combate ao Câncer Colorretal, celebrado em 27 de março. O objetivo é incentivar a população a realizar exames preventivos e adotar hábitos saudáveis.

Quando começar os exames

A recomendação atual é que pessoas a partir dos 45 anos iniciem o rastreamento, mesmo sem sintomas. Os principais exames indicados são a pesquisa de sangue oculto nas fezes, de caráter não invasivo, e a colonoscopia, considerada o exame mais completo e invasivo. Apesar de exigir preparo e sedação, a colonoscopia é fundamental por permitir não apenas o diagnóstico, mas também a remoção de pólipos — lesões pré-cancerígenas — durante o próprio procedimento.

Casos em jovens preocupam especialistas

Um dos pontos de alerta é o aumento de diagnósticos em pacientes abaixo da idade recomendada para rastreamento. Segundo Crosara, isso pode levar a atrasos no diagnóstico, já que sintomas iniciais costumam ser confundidos com problemas menos graves, como hemorroidas ou intolerâncias alimentares. Sinais como sangue nas fezes, alterações no hábito intestinal e dor abdominal persistente devem ser investigados, independentemente da idade.

Estilo de vida influencia diretamente

O crescimento da doença está ligado, em grande parte, a fatores comportamentais. Entre os principais riscos estão obesidade, sedentarismo, consumo excessivo de carne vermelha, ingestão de alimentos ultraprocessados, tabagismo e consumo de álcool.

Por outro lado, a prática regular de atividade física tem se mostrado um importante fator de proteção. Estudos recentes indicam que o sedentarismo pode representar um risco maior até mesmo do que alguns outros hábitos prejudiciais.

SUS oferece exames

O Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza tanto o exame de sangue oculto nas fezes quanto a colonoscopia. No entanto, a capacidade de realização ainda é limitada, especialmente no caso do exame mais complexo, que exige estrutura hospitalar.

Prevenção é o melhor caminho

Especialistas reforçam que mudanças simples no estilo de vida podem reduzir significativamente o risco da doença. Alimentação equilibrada, prática de exercícios físicos e atenção aos sinais do corpo são medidas essenciais.

O câncer colorretal, apesar de grave, é uma das poucas neoplasias que podem ser prevenidas de forma efetiva — desde que haja conscientização e adesão aos exames de rotina.

A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:

Germano Oliveira – Doutora, esse mês de março azul tem o objetivo de estimular a população a se prevenir e realizar exames. No caso do câncer de intestino, quem deve fazer esses exames precocemente? E com que idade as pessoas devem procurar um médico para iniciar esse processo?

Dra. Marcela Crosara – Então, realmente março é o nosso mês de conscientização do câncer colorretal, que é um câncer muito incidente. A última estimativa do INCA, publicada este ano, mostra que ele é a segunda neoplasia mais incidente em homens e mulheres.

Por isso, é muito importante falarmos sobre esse tema. Além disso, é um câncer prevenível. A gente chama esse período de “Março Azul Marinho”, porque no dia 27 de março é o Dia Nacional de Combate ao Câncer Colorretal.

Durante todo o mês, fazemos campanhas para conscientizar a população de que todas as pessoas acima de 45 anos devem realizar exames de rastreamento, mesmo sem sintomas.

No Brasil, recomenda-se a pesquisa de sangue oculto nas fezes — um exame simples feito a partir de amostra — ou a colonoscopia, que é um exame mais invasivo. Esses exames são indicados tanto para homens quanto para mulheres.

Germano Oliveira – Temos visto casos recentes de pessoas jovens com câncer colorretal, inclusive relatos próximos. Como isso acontece, mesmo com acesso à medicina?

Dra. Marcela Crosara – Esse é um desafio atual. Tradicionalmente, a recomendação era iniciar os exames aos 50 anos. Nos Estados Unidos, já foi reduzida para 45 anos, justamente porque temos observado aumento de casos em pessoas mais jovens.

Um dos problemas é que, por serem jovens, muitas vezes os sintomas são subestimados.

Já vimos casos de pacientes com sangue nas fezes que acreditaram ser hemorroidas e não procuraram ajuda. Outros apresentavam alterações intestinais e foram tratados como intolerância alimentar sem investigação adequada.

Isso pode atrasar o diagnóstico e reduzir as chances de tratamento precoce.

Adriana Blak – Agora, por que esse tipo de câncer está crescendo tanto, doutora? Ele acontece em razão da má alimentação, da ingestão de bebidas alcoólicas, da poluição do meio ambiente, do excesso de cigarro, por exemplo? Ou, na verdade, não se diagnosticava tanto como se diagnostica agora?

Dra. Marcela Crosara – Eu acho que são as duas coisas. Mas esse é um câncer muito relacionado a hábitos de vida e hábitos alimentares. A gente tem falado muito sobre o combate à obesidade e como ela aumenta o risco de vários tipos de câncer, e o câncer de cólon é um deles. O sedentarismo também aumenta muito esse risco, assim como o tabagismo e o etilismo. Outro fator muito frequente no Brasil é a ingestão de carne vermelha.

A gente tem um consumo de carne vermelha muito alto. Praticamente ingerimos todos os dias, e sabemos que essa alta ingestão também aumenta a incidência desses cânceres. Outro ponto alimentar são os ultraprocessados, que têm crescido muito na dieta do brasileiro. Com conservantes e corantes, também são fatores que aumentam o risco desse câncer.

Adriana Blak – Ainda dentro dessa pergunta, o que é mais prejudicial para o estômago e para o intestino? O que é pior de tudo?

Dra. Marcela Crosara – Todos esses fatores têm impacto negativo. A obesidade aumenta muito a incidência, assim como a ingestão de carne vermelha e de ultraprocessados. Em geral, os hábitos aparecem combinados: a pessoa é obesa, consome muita carne vermelha e muitos ultraprocessados.

Normalmente, há exposição a vários fatores, então nem sempre é possível apontar um único responsável.

Um estudo recente abordou a atividade física. Hoje se fala muito mais sobre isso, e combater o sedentarismo já faz parte da prática da oncologia. Serve tanto para prevenir quanto para melhorar os resultados do tratamento e reduzir a chance de recaída.

Também saiu um estudo comparando o que seria mais prejudicial: consumir bebida alcoólica de forma moderada e praticar exercícios, ou não beber e ser sedentário. O risco foi maior entre os sedentários.

Por isso, a atividade física tende a se consolidar cada vez mais como um fator de proteção, mesmo quando a pessoa está exposta a outros riscos — afinal, viver implica exposição constante. Há discussões sobre plástico e diversos outros fatores aos quais estamos expostos, muitas vezes sem perceber.

A atividade física, por outro lado, é algo acessível. Pode ser feita em qualquer lugar: caminhada, corrida, bicicleta. Isso impacta diretamente a incidência das neoplasias. É fundamental divulgar cada vez mais o que pode ser feito para reduzir esse risco.

📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:

Conheça a oncologista Marcela Crosara

A oncologista Marcela Crosara é diretora da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), entidade que reúne especialistas de todo o país e atua na defesa da qualidade do tratamento oncológico. Com sólida formação acadêmica e experiência em instituições de referência, Crosara se consolidou como destaque da oncologia clínica brasileira.

Graduada em Medicina pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), concluiu residência em Clínica Médica na mesma instituição e, posteriormente, especializou-se em Oncologia Clínica no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP), ligado à Universidade de São Paulo (USP).

Além da prática médica, buscou ampliar sua atuação na gestão hospitalar, concluindo um MBA em Gestão de Saúde pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Essa formação lhe permitiu unir excelência técnica e visão administrativa em projetos voltados para qualidade e eficiência no atendimento oncológico.

Atualmente, Crosara exerce papel de liderança como coordenadora do Centro de Oncologia do Hospital DF Star, da Rede D’Or São Luiz, em Brasília. Também integra o corpo clínico do Instituto Hospital de Base do Distrito Federal, onde atua diretamente no cuidado de pacientes com câncer.

Exames para câncer de intestino triplicam no SUS em dez anos

Vem aí a campanha “Março Azul 2026” de conscientização sobre o ...

O número de exames para detecção precoce do câncer de intestino realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) triplicou na última década. Os dados, levantados no âmbito da campanha Março Azul, revelam que tanto a pesquisa de sangue oculto nas fezes quanto as colonoscopias registraram expansão expressiva na rede pública.

Entre 2016 e 2025, os testes de sangue oculto nas fezes passaram de 1,1 milhão para 3,3 milhões — crescimento de cerca de 190%. No mesmo período, as colonoscopias saltaram de 261 mil para quase 640 mil procedimentos, um avanço de 145%.

São Paulo liderou em 2025, com 1,17 milhão de exames de sangue oculto, seguido por Minas Gerais (693 mil) e Santa Catarina (310 mil). Na outra ponta, Amapá, Acre e Roraima registraram os menores números, todos abaixo de 3 mil.

Mobilização e conscientização

Para Eduardo Guimarães Hourneaux, presidente da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva (Sobed), o aumento está diretamente ligado às campanhas de prevenção. “O Março Azul tem transformado o medo em atitude e esperança”, afirma.

Segundo ele, o engajamento de autoridades e entidades médicas tem sido decisivo. “Prédios iluminados, mutirões e ações em escolas e unidades de saúde levaram a mensagem de prevenção para milhões de brasileiros”, diz.

Impacto de casos públicos

A trajetória de figuras conhecidas também contribuiu para ampliar a procura por exames. O caso da cantora Preta Gil, diagnosticada em 2023 e falecida dois anos depois, coincidiu com um aumento de 18% nos testes de sangue oculto e de 23% nas colonoscopias no SUS.

Hourneaux lembra que nomes como Chadwick Boseman e Roberto Dinamite, ao tornarem público o diagnóstico, ajudaram a transformar a dor pessoal em alerta coletivo. “Cada depoimento funciona como lembrete poderoso de que o câncer de intestino pode atingir qualquer pessoa, mas que a chance de cura é muito maior quando descoberto cedo”, afirma.

Campanha nacional

Desde 2021, o Março Azul é promovido pela Sobed, pela Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP) e pela Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG). Este ano, conta ainda com apoio da Associação Médica Brasileira (AMB), da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA) e do Conselho Federal de Medicina (CFM).

O Instituto Nacional de Câncer (Inca) projeta aumento das mortes prematuras por câncer de intestino até 2030, impulsionado pelo envelhecimento populacional, pela maior incidência entre jovens e pelo diagnóstico tardio. A baixa cobertura de exames de rastreamento segue como desafio central.